domingo, 4 de maio de 2025

O meu Dia do Apagão - parte 2

 

Eram 14h quando a fome chegou.

Aproveitei um resto de arroz e salada que tinha no frigorífico, abri uma lata de atum e complementei o conteúdo proteico do repasto com um pudim proteico de chocolate. E comi uma maçã.

 

Depois de lavada a louça, o cansaço pós-prandial começou a amolecer o corpo e decidi fazer uma sesta.

 

Eles entretanto devem resolver isto...

 

Só que os meus olhos reabriram de novo para uma escuridão apenas iluminada pelo sol que se mantinha radiante lá fora, já por volta das 16h.

 

Olha, afinal isto ainda vai demorar...

 

Neste lapso temporal em que o meu cérebro se “apagou” para descansar, começaram a surgir notícias de que a resolução do Apagão poderia demorar até 72h. Isso e teorias sobre ciberataques e conspirações envolvendo Vladimir Putin... Tudo isso me passou ao lado, apenas o descobri quando a normalidade foi restabelecida. São informações como estas que podem alarmar ainda mais uma população, daí que tivesse sido natural todo aquele acorrer às bombas de combustível a que assistimos. É dos principais impulsos sempre que sobre nós se abate uma crise deste nível... O que não sabia era do “assalto” aos supermercados. Não que me admirasse o açambarcamento também ele muito habitual nestas circunstâncias. O que me surpreendeu mesmo foi que os supermercados estivessem abertos, já que o único a que fui, escassa meia hora depois do Apagão, se encontrava às escuras e encerrado. Não me lembrei que existem geradores!

 

Bem, entretanto, comecei a ouvir barulho no corredor do piso. Fui espreitar pelo óculo da porta e observei o desfile de pessoas com lanternas na mão que subiam e desciam as escadas, impossibilitadas que estavam de utilizar o conforto do elevador. Os velhinhos que vivem no 4.º andar é que estão tramados...

 

Por esta altura, comecei também a avaliar a minha própria situação. O apartamento era fresco e isso assegurava uma boa conservação dos bens alimentares restantes no frigorífico. Por outro lado, já não tinha massa, arroz ou batatas. Mas mesmo que tivesse estava totalmente dependente de eletricidade para poder os cozinhar. A fonte de hidratos era flocos de aveia. Ainda tinha duas latas de atum e um pouco de salada que chegavam para o jantar. E fruta e iogurtes para esse dia e o seguinte. O dia lá fora estava magnífico e eu podia muito bem ir caminhar ou até correr enquanto eles resolviam o Apagão. Só que havia um pequeno grande pormenor... A maldita chave da porta de entrada no prédio! Pelo facto dessa chave não estar a funcionar, iria estar sempre dependente de alguém para poder reentrar. Que chatice!

 

Por outro lado, tinha gasóleo suficiente no carro para regressar a Penacova, onde podia usar um fogão a gás ou até acender uma fogueira para cozinhar o que fosse preciso para mim e para os meus pais, que eu bem sabia que o frigorífico e a arca congeladora estavam bem atestados!

 

Assim foi. Coloquei os iogurtes proteicos que restavam no congelador do frigorífico para se aguentarem mais tempo e dirigi-me ao carro, que, em contraste com o interior do apartamento, estava uma boa estufa depois de largas horas a bronzear.

 

Já a caminho, passei por umas bombas de combustível e fiquei abismado com a enorme fila já formada. É que não eram dez nem vinte carros, eram seguramente já uns dois ou três quilómetros de fila! Numa estrada nacional! E os condutores que se encontravam distantes do posto de combustível nem deviam fazer a mínima ideia do porquê daquele engarrafamento. Ainda bem que neste sentido não há bomba de combustível, senão já estava tramado!

 

Pouco depois alcancei a A1 e comecei a prestar atenção às notícias da rádio:

“Abrantes já tem luz!”

“Há poucos minutos foi reposta a normalidade em Vila Nova de Gaia.”

“O município de Estarreja também já tem eletricidade!”

 

Olha, afinal se calhar até podia ter ficado onde estava que eles, entretanto, iam mesmo resolver o Apagão...

 

Ia eu precisamente a passar a área de serviço de Estarreja quando recebi uma chamada telefónica do meu pai. Deu para perceber que ele estava bem, mas logo a seguir perdi o sinal. Nessa área de serviço, como na de Cantanhede, as filas para o abastecimento de combustíveis também eram consideráveis. Coitados dos funcionários das bombas, hoje não têm descanso!

 

O trânsito, esse, era o habitual para as 17h-18h na A1. De tal modo, que o percurso até Penacova se fez tranquilamente.

 

Cheguei a casa dos meus pais e eles lá me receberam e contaram as incidências do seu dia. Eu, como ainda tinha tempo até à hora de jantar, decidi ir fazer a tal corrida e aproveitar o bom tempo que, segundo as previsões, iria em breve sucumbir a nova vaga de chuva no final da semana. Sabia bem que corria o risco de tomar banho de água fria, mas naquele dia isso não interessava! É que as pernas queriam movimento e a tarde estava magnífica! E acabei por ter sorte, ainda havia uma réstia de água quente no depósito da caldeira.

 

Chegada a hora de fazer o jantar, o meu pressuposto de que em casa dos meus pais beneficiaria do fogão a gás foi cumprido e preparamos a refeição para degustar ao jeito do antigamente dos tempos modernos: à luz das lanternas.

 

Terminado o jantar, o meu pai foi à rua alimentar os gatos. “Já há luz!”, ouvi ele anunciar. Depressa carreguei num interruptor, mas nada. Então, precipitei-me para o exterior onde os meus olhos foram logo atraídos por aquela estrela polar a que chamamos candeeiro de iluminação.

 

E nem deu tempo para o olhar cegar pelo ponto de luz radiante no meio do escuro da noite já cerrada, pois logo a seguir, no interior da casa fez-se luz!

 

Eram 21h40!

 

Em retrospetiva, este meu Dia do Apagão foi bastante tranquilo comparado com o dia de muitos portugueses e espanhóis. Viajei de avião, mas tinha regressado a Portugal na véspera, logo não fiquei retido no aeroporto. Escapei por minutos à “prisão” dos portões de garagem elétricos. Tinha combustível suficiente para me deslocar. Não estava a trabalhar nesse dia. Tinha comida (e papel higiénico!!!) suficiente para me aguentar um par de dias. Consegui cozinhar com recurso a gás. Não fiquei retido em filas e filas de trânsito. Não fiz musculação, mas fiz corrida. Estive alienado das notícias umas boas cinco horas o que pode ter ajudado a evitar stresses desnecessários.

 

Enfim, o meu Dia do Apagão até foi um dia bom!

quinta-feira, 1 de maio de 2025

O meu Dia do Apagão - parte 1

Onde estávamos na final do Euro 2016?

Onde estávamos no 11 de Setembro?

 

São perguntas que nos habituamos a fazer e às quais agora podemos juntar o Onde estávamos no Dia do Apagão?


No Dia do Apagão eu acordei em Vila Nova de Famalicão. Rima e é verdade! Em conjunto com um grupo de amigos, tinha aproveitado o fim de semana prolongado do 25 de abril para fazer uma incursão a Madrid. Na véspera do Apagão tinha regressado de Vigo, local onde apanhamos o avião para a capital espanhola, já que os preços dos voos desde o Porto estavam bastante mais caros ao ponto de compensar a viagem de carro até à Galiza. E não fomos os únicos a chegar a essa conclusão, tamanho era o contingente lusitano que embarcou connosco nesse voo da Air Europa e depois se fez à estrada de volta a Portugal.

 

Calhou-me a mim levar o carro e chegamos a Famalicão perto das 21h. Para evitar fazer ainda mais uma hora e tal de viagem, os pais dum dos meus amigos foram extremamente simpáticos e, além de me convidar para jantar, também me ofereceram a dormida. Conversa puxa conversa, com as atualidades política e futebolística em primeiro plano, já só nos deitamos à meia noite. Isso a juntar às escassas horas de sono que trazia na bagagem fez-me levantar tarde para os meus hábitos, já próximo das 10h. Tomei o pequeno-almoço, um banho e o portão elétrico da moradia deve ter sido aberto por volta das 11h, já que me recordo que o Waze indicava que chegaria ao meu destino pelas 12h10. Despedi-me e arranquei.

 

A viagem fez-se tranquilamente, já que fugi à hora de ponta portuense. Contudo, a certa altura a rádio falhou subitamente. E não foi só a estação que tinha sintonizado. Não dava nem a M80, nem a Observador, nem a Comercial, nem a RR, nem a RFM, nem nada! Durante uns segundos não dava nada. Oh, oh, mas tu queres ver que a rádio se avariou? Mas o meu pensamento foi rapidamente desmentido pelos acordes de uma canção que entoava na Antena 3 e depois a M80 Valongo também começou a dar. Problema resolvido!, pensei.

 

Uns quilómetros mais à frente, já depois de passada a Ponte da Arrábida, reparo que o Waze indicava estar a utilizar o mapa offline. O mapa offline?! Então eu tenho os dados móveis ligados e isto está offline?! Julguei tratar-se de um erro, às vezes isso sucede, mas nessa altura já me era indiferente, dado que a partir daquele ponto já sabia bem o caminho rumo ao meu destino.

 

Minutos mais tarde, já fora da autoestrada, vislumbro ao longe as sirenes ruidosas de dois carros de bombeiros a aproximarem-se a alta velocidade. Oh lá, já houve chatice... e o pensamento ainda estava a terminar quando esbarro de frente com um entroncamento no qual os semáforos estão desligados. Eish, que caos que isto aqui é sem semáforos. Ainda falam de Viseu, mas não há nada como uma boa rotunda... Aquela é uma zona movimentada, como tal, com muita prudência lá fui avançando “pé ante pé” até o nariz da viatura espreitar a interseção. Aproveitei que o carro que se aproximava pela esquerda ligou o pisca para virar à direita e, tendo costa livre à minha direita, lá avancei. Logo a seguir passei por uma senhora que buzinava furiosamente e fazia sinal com as mãos para o condutor à sua frente indicando que as luzes (dos semáforos) não estariam a funcionar e que ele se teria de fazer à sua vez para conseguir ultrapassar aquele entroncamento. As gentes do Norte são muito simpáticas, mas no trânsito, já se sabe que é uma mão no volante e outra na buzina...

 

Nesse dia tinha combinado um almoço com amigos do meu antigo hospital, mas como ainda tinha algum tempo, decidi fazer uma paragem num supermercado para comprar pão e bananas para lanchar a seguir ao treino que iria fazer nessa tarde com um desses amigos. Para meu espanto o supermercado estava às escuras e com as portas fechadas! Ouvi uma das pessoas que já lá se encontrava à espera comentar algo sobre um apagão. Um apagão?! De imediato consultei o telemóvel e reparei numa mensagem de Whatsapp de um grande amigo meu que dizia que o chefe já se estava a passar pelo facto da Fábrica das Caldas de Penacova estar parada devido à falta de eletricidade. O quê? Consultei, então, os principais sites noticiosos nacionais e todos eles tinha publicado há vinte, trinta minutos notícias sobre uma falha generalizada de eletricidade em toda a Península Ibérica. Toda a Península Ibérica?!?!?!

 

Perante isto, dirigi-me ao apartamento onde estava a morar e eis que me caiu a ficha. A minha chave da porta do prédio não estava a funcionar e eu costumava entrar pela garagem, cujo portão era... elétrico! Pois... Bem, fiz aquilo que seria mais inteligente: ficar de plantão à porta do prédio e esperar que algum vizinho entrasse ou saísse para conseguir entrar. Enquanto aguardava, consultei as mensagens do grupo de Whatsapp que tenho com os amigos com quem ia almoçar. Havia uma mensagem das 11h51 que dizia “Temos de ir a um restaurante que confecione comida a gás ou lenha emoji de riso”. Depois já às 12h26 outro amigo dizia “Isto parece o momento zero duma era, género filme apocalíptico” para logo a seguir aconselhar “Acho que é melhor cancelar hoje”. Evidentemente todos concordamos, até porque uma das pessoas nem o carro da garagem conseguia tirar. O amigo que ia treinar comigo ainda estava confiante e perguntou-me “Gonçalo, vamos treinar na mesma, certo? Pesos são pesos, é o bonito do exercício”. Só que como perdi o acesso à rede telefónica e dados móveis por volta das 12h30-12h45, esta mensagem eu já só a vi ao final do dia quando voltei a ter eletricidade e acesso à Internet. De qualquer modo seria escusado, pois, perante todo aquele cenário de incerteza, o treino tinha passado para segundo plano...

 

Entretanto, a porta do prédio abriu-se finalmente e entrei. A senhora que me abriu a porta comentou o sucedido e disse que o irmão estava a trabalhar na Polónia e conseguiu ligar-lhes de lá e falar com eles, mas eles não conseguiam ligar para ninguém. Subi a escadas e pelo caminho apanhei uma senhora mais velha que descia apressada com uma bata na mão. Mal me viu começou a dizer que não havia luz e que tinha um filho na Polónia que lhe tinha conseguido ligar. Era a mãe da outra senhora, conclui. Comentou ainda comigo que se ia apresentar ao trabalho na mesma.

 

Cheguei finalmente ao interior do apartamento. Estaria tudo às escuras não fossem os raios de luz do sol quente e radiante que furavam as frestas dos estores, como metralhadoras fazendo alvo ao chão do apartamento.

 

Dirigi-me ao frigorífico e confirmei que o resto de arroz de lulas e os poucos iogurtes que lá tinha ainda estavam frescos, troquei de roupa e, como ainda não tinha fome para almoçar, decidi simplesmente abrir o estore para deixar a luz entrar e deitar-me na cama a ler o livro que ando a ler, o The Thursday Murder Club de Richard Osman. 

 

Já passava das 13h15 quando me veio subitamente uma ideia à cabeça: E se eu me pusesse a escrever uma crónica sobre o meu Dia do Apagão? Isto no fundo vai ser um dia histórico, um evento marcante como foram outras crises. Estou aqui fechado sem nada para fazer, porque não?

 

E assim começou esta crónica!

domingo, 13 de abril de 2025

Barcelona 2025 - parte 4: do Montjuïc à remontada blaugrana

 Para o terceiro dia tinha planeado a incursão a Montjuïc.

Levantei-me e quando saí do hotel e estava preparado para caminhar quase 50min até ao topo da emblemática colina catalã, esbarrei de frente com uma multidão de corredores nas ruas. Era o dia da Marató Barcelona e eu não sabia... Eu não tenho nada contra correr, antes pelo contrário, mas o problema é que o percurso da corrida cortava precisamente o trajeto até Montjuïc. Então, a minha caminhada foi transformada num para-arranca para atravessar as ruas, sempre à cata de uma fresta de oportunidade para atravessar a estrada, rasgando o pelotão sem ser atropelado pelos peões a alta velocidade, apenas para alcançar o “check-point” seguinte, escassos metros adiante.

 

Marató Barcelona - 16 de março de 2025


Logo no início desta aventura acabei por descobrir um café português bem próximo do quarteirão do hotel onde estava hospedado, o Amália’s Portuguese Flavours. Tomei lá um café e no dia seguinte regressei para tomar o pequeno-almoço, onde aproveitei para descobrir um pouco mais da história de vida do dono, e que vou contar na última parte desta crónica.

 

Fui “obrigado” a fazer outra paragem no Mercat Del Llibre Dominical De Sant Antoni, um mercado de livros usados que acontece todos os domingos. Além de livros, também pus o olho nas coleções de cromos e de Mega Craques que me fizeram viajar à infância.

 

Mercat Del Llibre Dominical De Sant Antoni

 

Este mercado acabou por ser o ponto de viragem na minha “luta”, pois a partir daqui tornou-se bastante mais fácil fugir aos corredores e paulatinamente iniciei a escalada do Montjuïc.

 

A primeira paragem foi nos Jardins del Teatre Grec, onde a beleza da vegetação escondia a triste realidade de um jovem que dormia numa tenda abrigada da chuva que durante a semana havia caído sobre a cidade.

 

Jardins del Teatre Grec


Depois tomei uma escadaria que me conduziu aos jardins da Fundação Joan Miró, a última paragem antes de alcançar o famoso Estádio Olímpico Lluís Companys. Aí entrei pela porta aberta ao público e “viajei” até ao ano de 2006. Nessa ocasião recordo-me de entrar pela mesma porta e caminhar pelo meio das bancadas. Era outro tempo... Hoje o FC Barcelona encontra-se temporariamente a utilizar o estádio enquanto o seu está a ser remodelado e, assim, as áreas acessíveis aos turistas são mais restritas.

 

No Estádio Olímpico Lluís Companys

 

Era quase meio dia quando lanchei uma sandes de atum comprada no bar do estádio antes de dar uma volta às imediações do Palau Sant Jordi, donde vislumbrei a imponente Torre Telefónica crescendo para os céus, outra das heranças dos Jogos Olímpicos de 1992. Chegou depois a hora de tomar a subida final rumo ao topo do Montjuïc, onde iria encontrar o famoso castelo. Esta subida final teve a particularidade de me fazer contornar a colina, sujeitando-me a uma curiosa alternância entre calor e frio que me foi obrigando a despir e vestir o casaco e a sweater que levava vestidos várias vezes antes de alcançar o cume.

 

Jardins à entrada do Castelo de Montjuïc


No topo, acumulavam-se turistas que fotografavam o castelo, os canhões ou simplesmente a paisagem em seu torno. É que desde o alto de Montjuïc é possível observar Barcelona a 360º, desde o azul do Mar Mediterrânico, passando pela zona portuária até à densa urbe da cidade condal. E então se fizermos o caminho de terra batida que circunda as muralhas do castelo vamos poder absorver toda a imponência e grandiosidade desta paisagem em menos de meia hora.

 

Vista do porto de Barcelona a partir do topo do Montjuïc

 

Às 13h15 apanhei o autocarro 150 que me fez descer rapidamente até à Plaça d'Espanya, sita na base do Montjuïc, onde uma gigantesca multidão fazia fila para um festival de hambúrgueres que decorria até esse dia 16 de março na Plaça de l'Univers at Fira. Rapidamente desci para o interior da estação de Metro, onde apanhei a L1 para sair na Plaça de Catalunya. Aí almocei no restaurante Casa Candela, muito perto do ponto de encontro para a Free Walking Tour que iria fazer às 15h.

 

 Restaurante Casa Candela

 

A caminho desse restaurante, mais uma vez dei de caras com a triste realidade de quem não tem tanta sorte quanto eu tenho. Eram vários os sem abrigo deitados em colchões, abeirados junto às lojas imponentes daquela zona histórica de Barcelona. Um deles, jacente junto à Desigual, chamou-me particularmente à atenção pela amputação transmetatársica no pé direito que ostentava. Enfim, coisas de Médicos Fisiatras...

 

As previsões meteorológicas indicavam que às 15h iria começar a chover e… assim foi! O percurso da Free Walking Tour foi feito sempre à procura de um lugar onde o grupo de 15 pessoas se pudesse abeirar, dado que nem todos traziam guarda-chuva. Eu era um desses desprevenidos, mas felizmente consegui atestar o quão impermeável era o meu casaco. A guia polaca que nos conduziu pelas ruas de Barcelona ministrou-nos uma autêntica aula de história, com factos tão interessantes que não cabem numa única crónica. Deixo-os para outra ocasião, talvez para enriquecer a boa conversa que vamos ter no dia em que tomarmos um café. Até lá liberto somente o facto mais comercial de todos: durante a tour a guia deteve-nos na Plaça de Sant Felip Neri, um recanto emblemático com uma igreja cravejada de balas da Guerra Civil espanhola e uma fonte, local onde foram gravados filmes de renome e o videoclip de uma música que marcou a minha infância, My Immortal dos Evanescence. Ainda me lembro de um colega de catequese que tinha esta canção como toque polifónico no seu Nokia. O telemóvel tocou e o Sr. Padre Pinho não gostou...

 

Na Plaça de Sant Felip Neri, cenário de filmes de Hollywood

 

A chuva intensificou-se na Plaça Reial, abreviando a última paragem da tour e precipitando a corrida de toda a gente, cada um para sue lado. Eu dirigi-me para o hotel para lanchar e descansar um pouco. Contudo, pelo caminho dei de caras com a Fábrica de Cerveja Moritz. E decidi entrar. A Moritz foi a primeira fábrica a produzir cerveja em escala industrial na Espanha e, em 2012, remodelaram o espaço da antiga fábrica, abrindo um grande bar-restaurante que vale a pena conhecer. Se se acharem perdidos na infinidade de cervejas à vossa escolha, façam como eu, optem pela prova de cervejas para absorver ao máximo o melhor de cada uma!

 

Prova de cervejas na Moritz

 

Para terminar o dia preenchido, como era dia de Atlético de Madrid vs Barcelona, tentei arranjar um local para jantar que desse o grande jogo na televisão. Mesmo sendo um domingo à noite, os principais sports bars estavam cheios, mas por sorte encontrei um sítio até bastante próximo do meu hotel que tinha lugar e televisor na esplanada. Foi assim que me instalei no Bar Restaurant Mani, rodeado de adolescentes comendo kebabs e bebendo cañas e coca-colas. O jogo até estava a correr mal para os catalães, com o Atlético a vencer 2-0 ao minuto 70. Mas depois tudo mudou. O Barcelona iniciou uma remontada épica e selou a vitória já em tempo de compensação. O desânimo sucumbiu à total loucura que se seguiu. As “bancadas” do restaurante saltaram para festejar a reviravolta que mantinha os blaugrana na frente da corrida pelo título espanhol!

 

Festejos dos adeptos blaugrana pela vitória por 2-4 contra o Atlético de Madrid, no Bar Restaurant Mani

quarta-feira, 9 de abril de 2025

Até um dia, ULSEDV!

A vida é feita de etapas e de ciclos.

Hoje para mim encerra-se mais um.

Hoje, dia 10 de abril de 2025, é o meu último dia de trabalho na Unidade Local de Saúde de Entre o Douro e Vouga (ULSEDV). 

Como tantos colegas de outras especialidades, entrei no então Centro Hospitalar de Entre o Douro e Vouga a 1 de janeiro de 2019 para realizar o Internato de Formação Específica em Medicina Física e de Reabilitação.

 

Recordação da sessão de acolhimento aos novos Médicos Internos de Formação Geral e de Formação Específica em janeiro de 2019

Nessa altura deixei a minha terra natal, mas felizmente não vim obrigado ou porque era que sobrava na lista de possibilidades. Vim porque assim o quis e para tal trabalhei. No momento da escolha, em junho de 2018, no areal soalheiro de Faro, e após um período de muitas decisões e indecisões, considerei ser a melhor opção para prosseguir a minha formação. Buscava uma realidade diferente daquela em que cresci e em que me formei enquanto médico e necessitava de um espaço onde de igual modo me pudesse desenvolver enquanto pessoa, longe da alçada dos pais, com quem vivi nos primeiros 24 anos de vida.


 

A minha última reunião multidisciplinar da Unidade Geriátrica Aguda do Hospital de Oliveira de Azeméis, unidade da qual fiz parte ao longo do último ano, já como especialista. Um obrigado a todos pelo carinho e um especial abraço ao seu grande impulsionador, o Dr. Gonçalo Sarmento!


Passados 6 anos e 3 meses, contas feitas, estou contente pelo caminho que tomei. A escolha correspondeu às expectativas! Não foi uma opção fácil, e decerto que poderia ter seguido um outro rumo, manifestamente mais expectável... Perguntam-me, hoje voltaria eu a fazer o mesmo? Olhem, se hoje pudesse acelerar num DeLorean a 88 milhas por hora e regressar a 2018, muito provavelmente teria voltado a escolher a ULSEDV. Aqui fiz um Internato bastante completo, mas também à medida das minhas áreas de interesse. Desde a primeira comunicação oral num congresso em Marrocos até à última num congresso em Leiria, tive a possibilidade de apresentar muitos trabalhos em eventos de prestígio, o que também me permitiu conhecer algumas cidades nacionais e estrangeiras. Além disso, concretizei um sonho de menino ao estagiar um mês no meu querido Sporting, um estágio bastante marcante do meu percurso. Tal como marcante foi a pandemia COVID-19, que infetou metade do meu internato, e que o engenho da nossa Diretora permitiu que o serviço não ficasse ligado ao ventilador. Ao longo deste trajeto estabeleci várias relações de trabalho e de amizade que espero cultivar e levar para a vida, e fui agraciado com uma orientadora espetacular que se transformou numa das minhas melhores amigas.

 

Bolo carinhosamente feito pela secretária Ana Rodrigues do Serviço de MFR do Hospital de São Sebastião

Mas nem tudo foi perfeito e os meus últimos meses, já enquanto especialista, foram mais difíceis. Fruto da expansão e desenvolvimento das três unidades hospitalares já existentes na ULSEDV e da recente integração de uma nova, trabalhar nesta instituição tornou-se bastante mais desafiante pelas diversas necessidades e dinâmicas de cada local, pelo cansaço acumulado e também pelo dispêndio financeiro associado às inúmeras viagens entre unidades. Ainda assim, estou certo de que esta experiência me amadureceu e me deixou mais bem preparado para o que há de vir!

 

Jantar de Despedida com vários médicos do Serviço de MFR da ULSEDV no restaurante Casa Branca, em Gaia. Um agradecimento a todos os que despenderam da noite para estar comigo, em especial à organizadora, a Dra. Isabel Romeiro, e à Dra. Catarina Aguiar Branco que fez questão em estar presente. E não posso deixar de mencionar a presença da Dra. Maria Manuel Baptista, que veio a este jantar.


E tal como nos livros e nos curricula, no final é tempo dos agradecimentos. E há muitos a fazer. Como tal, sem nomear alguém em concreto, mas com todos em particular no pensamento, quero deixar o meu sincero agradecimento a todos aqueles que sempre me tratam com simpatia ao longo destes 6 anos e 3 meses nas várias unidades da ULSEDV: secretários, senhores do bar, terapeutas, enfermeiros, médicos, auxiliares, utentes... Foi muito por vossa “culpa” que fui adiando esta minha decisão de, por agora, partir rumo a novos desafios.

 

Visita ao Serviço de MFR do Hospital de Ovar, um hospital bastante importante da ULSEDV. Nos meus últimos meses na ULS trabalhei cá e assisti à transformação que se encontra em curso na mais recente unidade da ULSEDV. É um hospital com gente de enorme valia e com bastante potencial!

Muito obrigado a todos!


Bolo de chocolate da (In)Fusão Comida Com História, propriedade do Auxiliar Bruno Sá, um espaço a visitar em Santa Maria da Feira!

E até um dia!

quinta-feira, 3 de abril de 2025

Barcelona 2025 - parte 3: de Badalona a Barcelona

 

Na manhã seguinte levantei-me e antes de tomar o pequeno-almoço, corri a cortina da janela do quarto e sentei-me na beira da cama simplesmente a contemplar aquela vista. A “tempestade” da véspera dera lugar a uma manhã soalheira de bonança para as “formigas” darem o seu passeio à beira-mar.

Vista do hotel na Marina de Badalona

Também eu fui “formiga” nessa manhã, mas antes fui aproveitar o ginásio do hotel, que estava bem equipado, para fazer um treininho (quem tem este vício, percebe que até em férias custa não treinar...). Banho tomado e sweater e casaco vestidos para fazer contrariar a brisa fresca costeira lá fui eu juntar-me ao carreiro de “formigas” que vislumbrei do alto do 13.º andar do meu quarto de hotel. Porém, cá em baixo, os seres minúsculos ou eram famílias que faziam caminhadas, pessoas a correr, ou simplesmente a fazer uma merenda matinal com o que haviam adquirido no supermercado Mercadona sito ao lado do hotel.

No Port de Badalona

Fui percorrendo de ponta a ponta a marginal. Na praia, apesar de estar frio, vários grupos de jovens jogavam voleibol, outros faziam musculação no setor de barras e até me deparei com campo especialmente dedicado a um desporto que desconhecia, o Pickleball. É uma mistura de ténis, badminton e ping-pong que tem vindo a crescer de popularidade nos últimos anos, vim eu a descobrir quando pesquisei na Internet. Bem perto desse terreno de jogo, no Pont del Petroli, encontrava-se uma das atrações daquela zona de Badalona, a escultura de um macaco com traços de Charles Darwin segurando uma garrafa de anis, símbolo da marca Anis del Mono. A escultura em bronze foi construída em 2012 para homenagear essa importante marca de anis de Badalona e, desde então, tem permitido aos turistas tirar divertidas fotografias, como eu próprio não deixei de fazer.

No Pont de Petroli junto da emblemática escultura do macaco da Anis del Mono

 

Ainda galguei a restante marginal e alcançado o extremo oposto ao hotel apeteceu-me sentar numa rocha e tal como ela, ficar simplesmente a mirar a acalmia transmitida pelas águas do mar Mediterrânico.


Estive nesta introspeção uns bons minutos e quando a minha mente emergiu do fundo daquelas águas estava na altura de rumar finalmente a Barcelona propriamente dita. Dirigi-me novamente à estação de Pep Ventura e apanhei a linha 2 do Metro em direção à paragem Hospital Clinic, no bairro de Eixample, a escassos minutos a pé do hotel onde iria ficar nas duas noites seguintes. Antes de fazer o check-in, como já eram 15h, optei por parar num restaurante para almoçar (a horas de Nuestros Hermanos...). O melhor restaurante da zona, o Retorno, tinha fila para entrar, por isso optei pelo El Rincón de Angél.


E se o entrecot de ternera que comi merecia um pouco mais de tempero para se tornar inesquecível, a minha permanência neste restaurante teve o seu momento caricato. Ora então, poucos minutos depois de me sentar na esplanada, na mesa devidamente indicada pelo funcionário, que deveria ter a minha idade, fui abordado por um idoso que se aproximou pelas minhas costas, empunhando um pires de café com uma nota e moedas no seu interior. O senhor verbalizou umas palavras que eu mal percebi, num tom espanhol bastante carregado, que mais tarde compreendi ser catalão falado depressa. Da maneira que ele se apresentou, assim do nada, e esticando aquele pires de café na minha direção, eu automaticamente julguei que se tratasse de um pedinte que andasse a molestar os clientes da esplanada e logo lhe disse que ainda estava à espera e não queria nada. O senhor meio confuso lá me deixou e só quando ele se dirigiu para o interior do estabelecimento e o observei a dar indicações aos funcionários é que me se fez luz na minha cabeça! Aquele não era um pedinte, não. Aquele era o dono do restaurante. Aquele era o senhor Angél!


Como as aparências, as circunstâncias e os condicionamentos que trazemos doutras situações passadas nos podem iludir! E com tudo aquilo esqueci-me de pedir para o entrecot ser um pouquinho mais bem passado. A carne veio quase em sangue e olhem, com a fome que tinha, nem pedi para grelharem um pouco mais, foi mesmo assim. Mastigando e mastigando a textura pastosa da carne muito mal passada, tive mais do que tempo para me lembrar de um grande amigo meu que adora ir a um restaurante muito bom na Figueira da Foz, onde quem não come carne mal passada nem vale a pena entrar!

 

Findada a refeição fui para o hotel, fiz o check-in, tomei um banho e adormeci, tal era o cansaço das últimas horas. Quando voltei a mim, tinha uma notificação do email no telemóvel que me informava que o pub crawl que havia marcado para essa noite tinha sido cancelado. Foi uma oportunidade perdida para conhecer outras pessoas... Não fiquei a chorar e, então, aproveitei o tempo para varrer alguns dos pontos turísticos de Barcelona. Abalei já perto das 18h e com o sol a pôr-se fiz o trajeto de 25 minutos a pé até ao emblemático Passeig de Gràcia, onde em 2006 fiquei hospedado com a minha família na primeira noite. E só lá ficamos nessa noite, porque roubaram o cartão de crédito ao meu tio no hotel e então achamos melhor trocar para outro local mais recomendável. Lembro-me apenas que a entrada do hotel era numa das “esquinas” dos octógonos nos quais os edifícios da cidade se encontram organizados. Com toda a certeza que esse hotel já mudou de nome e gerência…

 

Num espaço de duas horas ainda consegui ver muita coisa. Comecei pela Casa Batlló e Casa Milà (La Pedrera).

Casa Milà (La Pedrera)

Depois segui pela Avenida Diagonal e observei a Casa Comalat e Casa de les Punxes.

Casa de les Punxes

Finalmente ainda caminhei mais de meia hora para apreciar a beleza da Sagrada Família rasgando os céus já quase totalmente escurecidos.

Na Sagrada Família

Várias dezenas de pessoas encontravam-se nas imediações a fotografar o monumento e claro, a tirar selfies. E por falar em selfies, não pude deixar de reparar no tremendo esforço, empenho (e paciência…) com que um rapaz estava a fotografar a namorada. O casal ainda esteve naquilo uns bons minutos, pois de cada vez que ele lhe mostrava as fotos ela mandava-o tirar mais! E sim, a Sagrada família ainda está em construção!

quinta-feira, 27 de março de 2025

Barcelona 2025 - parte 2: o show da WWE

Barcelona não era uma cidade totalmente desconhecida para mim.

Era a terceira vez que lá ia. A primeira viagem foi em 2006, uma road trip bem especial em família, ainda na companhia do meu querido primo André. A segunda foi em 2022, por ocasião do evento científico Rising Stars in Physical and Rehabilitation Medicine. A terceira vez foi também distinta das demais, foi uma viagem a solo.

Aterrei em Barcelona perto das 14h locais, comi uma sandes no café Pret A Manger à saída do aeroporto e dirigi-me para a paragem do autocarro Aerobus que faz a ligação entre o terminal do aeroporto e a Plaça de Catalunya. Aí tive de trocar para o metro L2 para seguir até à estação de Pep Ventura em Badalona.

Porquê Badalona? Porque foi aí que o evento de wrestling iria decorrer, na Arena Olímpica.

 

Quando saí da estação do metro estava a chover e eu não tinha trazido guarda-chuva. Contudo, o casaco era impermeável e por isso, decidi ir fazendo a pé os 20 minutos de caminho até ao hotel na Marina de Badalona, combinando o passo acelerado com o abrigo possível por debaixo das varandas dos apartamentos. Check-in efetuado, decidi descansar um pouco antes de repetir grande parte do trajeto até à arena. Quando lá cheguei, uma hora e meia antes do início do espetáculo, deparei-me já com uma enorme multidão que fazia fila para entrar, empunhando guarda-chuvas para se proteger dos aguaceiros que jorravam dos céus.

 

Filas para a entrada na Arena Olímpica


Decidi fazer uma paragem num bar logo ao lado, o Bar Frankfurt Joventut, devidamente decorado com as cores do Club Joventut Badalona, um histórico do basquetebol espanhol. Aí comi um hambúrguer e tomei as primeiras cañas em terras catalãs.

 

A primeira caña em terras catalãs

 

Mal entrei na arena fui imobilizado por outra multidão, desta feita nas filas para a banca de merchandising. A WWE tinha à disposição t-shirts de John Cena, um ídolo da minha geração, que se encontra no seu último ano como wrestler profissional e que desta vez é o mau da fita, uma “traição” que incendiou a Internet, à semelhança do que sucedera no ano transacto com Dwayne “The Rock” Johnson, mega estrela de Hollywood e antigo wrestler que hoje em dia é um dos chefes da WWE.

 

Por sorte a entrada para o setor onde tinha bilhete situava-se noutra zona, onde se podia circular à vontade, um autêntico deserto quando comparado com aquela ágora logo à boca da arena.

 

Eu com uma camisola de Dwayne "The Rock" Johnson antes do espetáculo principiar

 

Fiquei sentado numa bancada inferior perto da barreira que separa os espectadores do ringside, do lado contrário para onde apontam as câmaras de televisão, o que baixou significativamente o preço do ingresso.

 

O espetáculo principiou com a entrada da ring announcer Lilian Garcia, a mesma que naquela noite de 2005 vi pelo ecrã na minha sala de estar quando vi wrestling pela primeira vez, e que, por ter passado vários anos da infância em Espanha, conferiu ao evento um toque especial.

 

Não vos vou maçar com a descrição dos combates e dos vários segmentos do programa, porque hoje em dia, apesar de já não passar na SIC Radical ou na SportTV, tudo isto está ao vosso dispor na Netflix.

 

Ainda assim, há dois momentos que merecem destaque.

 

O primeiro é a presença de Randy Orton, um autêntico portento físico que há 20 anos era dos jovens mais promissores do plantel e hoje em dia é uma lenda viva da WWE. Ganhou o respetivo combate, brindou a audiência com três RKO e no final saiu mesmo à minha frente.

 

Saída de Randy Orton



E o segundo momento foi a entrada do maior dos tempos modernos, Cody Rhodes, campeão da WWE. Minutos verdadeiramente arrebatadores, nos quais o público canta com todo o fôlego que tem nos pulmões a letra da música de entrada, Kingdom da banda Downstait.


Foi realmente uma grande noite para o povo da Catalunha, e da Espanha em geral, que pela primeira vez recebeu um evento televisionado da WWE. Mas nas bancadas também vislumbrei várias bandeiras portuguesas e ainda dois adeptos do Benfica que envergavam a camisola encarnada e que certamente prolongaram a viagem para apoiar o seu clube ante o Barcelona para a Champions League para ver o WWE Friday Night SmackDown na Arena Olímpica de Barcelona.


Os dois campeões mais importantes da WWE à data, Gunther (em cima) e Cody Rhodes (em baixo).


Sem dúvida que valeu a pena a viagem... e a melhor parte? É que ainda tinha três dias pela frente para redescobrir a cidade condal.

domingo, 23 de março de 2025

Barcelona 2025 - parte 1

Sem saber, esta viagem começou há 20 anos atrás, numa tarde de brincadeira em casa do meu grande amigo Zé Pedro Paiva. Nessa tarde de outono de 2005, juntámo-nos para jogar PlayStation 2 e o disco que introduzimos no leitor da consola foi o WWE SmackDown vs Raw. Até esse momento nunca na vida tinha eu ouvido falar em wrestling. Esse espetáculo tremendamente popular na América que mistura o desporto derivado da luta grego-romano com um enredo pré-determinado capaz de prender espectador ao ecrã foi para mim uma autêntica novidade... Sei que escolhi para meu lutador o Batista, um autêntico portento físico que na época era dos nomes mais importantes da companhia norte-americana. E fiquei apanhado por aquilo!

Poucas semanas depois, numa segunda-feira à noite, decidi sintonizar a televisão no canal 9 da saudosa TV Cabo, que nessa altura pertencia à SIC Radical, e ver o Monday Night Raw, o programa semanal mais importante da WWE, que há 20 anos atrás era transmitido em Portugal com cerca de 1 mês de atraso (outros tempos...). Nesse dia sei que devia estar a estudar para um teste de História do 7.º ano, mas em vez disso fiquei agarrado à televisão… até que a minha mãe me ralhou e lá fui eu fazer o que devia estar a fazer!

 

Passaram uns meses sem contactar com wrestling, até que no início de 2006 comecei a ver de forma regular até aos tempos em que já andava no Secundário. Nessa altura, é consens
ual que o foco da companhia norte-americana eram as crianças e por isso, o público adolescente foi perdendo o interesse.

 

Contudo, o bichinho ficou cá latente, e conforme já escrevi no passado, com a Pandemia o vício despertou da longa hibernação e voltou em força!

 


Quanto a espetáculos ao vivo, é raro a WWE vir a Portugal, dado não ser um mercado com dimensão suficiente para compensar a deslocação. No auge da popularidade do fenómeno em terras lusas, a meio da década de 2000, a companhia norte-americana realizou dois espetáculos em Lisboa, e regressou pela última vez em Novembro de 2017. Por uma ou outra razão nunca pude ir ver. Assim, quando em 2024 foram anunciados dois espetáculos especiais em Glasgow, “perdi a cabeça” e decidi realizar um sonho de menino e ir ver. Nessa altura, andava arredado das crónicas e acabei por nada escrever sobre essa incursão à cidade escocesa, que também foi a minha primeira viagem ao Reino Unido.


Mas desta vez foi diferente!


Desde que soube que a WWE iria fazer uma digressão europeia a iniciar em Barcelona que tentei convencer alguns amigos a ir, mas sem sucesso. Aos poucos fui desistindo da ideia. Contudo, a vontade de ir era tanta que, duas semanas antes do evento, lá acabei por comprar o bilhete, marcar a viagem e pronto, fui sozinho. Levei um caderno e uma caneta na mochila. E são as pequenas estórias desta minha viagem a Barcelona que vou relatar nas próximas crónicas.