terça-feira, 21 de março de 2017

A paixão de viver

Estes são os melhores anos das vossas vidas. E passam num instante...
   
In http://bestwallpaperhd.com/wp-content/uploads/2012/12/desert-sunrise-wallpaper.jpg

Durante mais de 2 anos escrevi crónicas neste espaço. Falei de temas da atualidade e num estilo orgulhosa e humildemente muito próprio neles imprimi vivacidade e relevância para o nosso universo através do poder da analogia com situações que bem conhecemos do dia-a-dia como estudantes de Medicina e não só. Fui sarcástico, lisonjeiro, impulsivo, ponderado... enfim, um pouco de tudo. A cada crónica que escrevia um pedaço de mim se transformava em algo que antes nunca experienciara!

Com os “amigos do coração” e o universo NEM/AAC cresci muito. Tenho algumas pessoas a quem agradecer e o largo sorriso que desponta no meu rosto quando os vê, denuncia o quão especiais são para mim. Há quem diga que mudei, mas eu sei que não apenas mudei, também me revelei (e rebelei!). Antes lia dezenas e dezenas de livros (e o meu futuro será decido pela memorização de milhares de páginas) e também tinha boas notas, mas aprendi que nada me dá mais prazer do que estar com os amigos (ah, que pena isso não contar para entrar na especialidade!). Felizmente não foi ao fim de 6 anos que cheguei a essa conclusão, foi muito antes... E se o que hoje sou era no passado uma miragem, a verdade é que tive coragem de atravessar um deserto inteiro para descobrir que afinal era realidade. Consegui despertar o que aqui dentro vegetava num sono latente à espera de um surto de paixão para eclodir em qualquer coisa de especial!

E agora até me ando a aventurar na poesia, porque

À medida que a mente foi mudando,
O mundo à volta também mudou nessa onda,
Ondas que a amizade desafiou a surfar,
E a medo no mar me deixei entrar.

Na vida, alturas há em que arriscar é necessário,
Nem todas as águas são calmas,
Por que os desafios fazem-se das ondas gigantes,
Não daquelas que já sabemos enfrentar!

Por que o que já sabemos enfrentar,
Em nada nos vai surpreender,
E as melhores coisas da vida são as mais inesperadas,
Como aquele encontro ocasional,
E aquele sorriso fatal...
(E a mudança pode nascer na espontaneidade de um simples sorriso).

Tão espontaneamente como a forma como me apetece voltar a fazer coisas que já me fizeram feliz no passado. Escrever crónicas é sempre especial e andei demasiado tempo afastado desta paixão.

O grande projeto In4Med IV fez-me privar com alguém que me ensinou a seguir o bater do coração, pois só assim podemos ser bons e fazer a diferença na vida das pessoas. E o resto... bem, o resto é paisagem!

E por agora simplesmente quero aventurar-me num romance com a poesia, porque

Ser espontâneo é ser genuíno,
E quando tiveres a coragem de rasgar a camisa que te vestiram,
E vestir a t-shirt que te proibiram,
Quando decidires assumir os teus sonhos,
E por eles lutar, lutar, lutar,
É que a derrota com que um dia lidarás,
Se transformará no êmbolo para a vitória que no dia seguinte alcançarás!
  
Tens é que te libertar da frieza da timidez,
E abraçar o calor do tacto,
Tens é que te olhar ao espelho,
Dar 4 murros no peito,
E gritar bem alto,
Alto, alto, alto, alto, alto,
Ainda mais alto. Ainda, ainda, a-in-da mais alto
Para espremer do fundo desses pulmões,
Das profundezas do teu ser,
O que melhor de ti o mundo ainda não conhece,
Para libertar dessa cela em que cresceste
O tigre, a pantera, o dragão, a águia e o leão
Que tens aí bem dentro de ti!

Não sigas todas as regras que te impuserem,
Porque a beleza do conteúdo é superior a voluptuosidade da forma
(Como vês, nem todos os meus versos rimam na sílaba, mas todos eles rimam na essência)
Perde é o medo de ser feliz
E vai por mim:
Vale mais viver a saciar a fúria do coração,

Do que morrer abraçado à solidão da razão!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Os Manuel Neuers da Medicina

     À medida que as moléculas do nosso corpo se diluem progressivamente no mundo do trabalho deixando para trás a solidez da vida de estudante, cada vez mais nos vamos apercebendo de que ser apenas médico já não basta para triunfar no mundo da Medicina!
     A Medicina de excelência é atualmente muito mais do que a tradicional consulta ou urgência. Aliás é cada vez menos isso, pois aquele que outrora foi criado para curar o próximo é cada vez mais julgado pelo que faz enquanto cientista. Peculiar, não?
     Também no futebol o papel do guarda-redes está longe de ser o que era há uma ou duas décadas atrás. O clássico “último homem à frente da baliza” que se limitava a defender os remates da equipa adversária tentando manter as suas malhas invioláveis é hoje cada vez mais visto pela nova vaga de treinadores como o “primeiro elemento de ataque” do coletivo.
     Os médicos continuaram a aliviar a dor do próximo, mas tiveram que arranjar tempo para se dedicar à sua competição: o campeonato dos artigos científicos! Há atualmente uma enorme pressão para os médicos publicarem. Por um lado, especialistas na matéria avançam que será prática corrente o financiamento estatal aos hospitais vir a depender também da atividade científica dos serviços. Por outro lado, como currículo gera currículo, aos profissionais mais produtivos nesta componente abrem-se mais portas, como progressão na carreira, convites para palestrar em congressos, posições de relevo em revistas científicas ou a possibilidade de trabalhar em instituições de maior nomeada.
     No desporto-rei, o exemplo paradigmático da nova era dos guarda-redes é o alemão Manuel Neuer. O guardião do Bayern Munique mistura os reflexos aracnídeos do lendário Lev Yashin com a elasticidade do Senhor Fantástico para sacar aquelas espetaculares defesas que tantos pontos vão dando às suas equipas. É ainda capaz de sair destemidamente da baliza quando os lances isso exigem e cortar a bola com os pés ou com a cabeça. Contudo, aquilo que tanto deliciou Pep Guardiola na sua passagem pela turma germânica foi a capacidade do ex-Schalke 04 de iniciar o jogo ofensivo da equipa, regenerando a função de líbero que foi definhando até à quase extinção nos anos 90 e que teve em Franco Baresi e Franz Beckenbauer dois dos seus melhores intérpretes. Só para termos uma ideia do quão importante é Manuel Neuer neste capítulo, o site squawka.com avança que na temporada 2015-2016, o germânico efetuou 698 passes superando o goleador Robert Lewandowski que na outro ponta do retângulo de jogo se quedou pelos 6011.
     Regressando à medicina, nos dias que correm já não é só o conselho do vizinho que traz clientes ao médico, é mais a reputação que vai adquirindo entre os seus pares a nível nacional e internacional que conta. As virtudes e desvantagens desta nova visão do papel do médico no mundo ficam para outros textos, porque o que interessa aqui frisar é que se os jovens médicos não seguirem esta nova direção ficarão decerto irremediavelmente para trás no quadro da excelência da sua profissão. Até porque no verão transato, Pep Guardiola deixou bem claro qual o perfil de keeper que exige para tornar ainda mais bela a sua filosofia de jogo, ao dispensar Joe Hart. O inglês, que era dono da baliza do Manchester City desde 2010, foi “trocado” por um dos sweeper-keepers da nova vaga, o chileno Cláudio Bravo, proveniente do Barcelona. Hart, esse, teve de se contentar com o empréstimo ao Torino, clube italiano cuja dimensão atual fica muito aquém da dos citizens...

http://images-cdn.impresa.pt/sicnot/2014-12-03-AP64059529157.jpg/original/mw-1240



1http://www.squawka.com/news/safe-feet-the-seven-best-ball-playing-goalkeepers-in-world-football/756109

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Reflexão sobre a existência humana

No rescaldo da grande tragédia que vitimou a equipa de futebol brasileira Chapecoense, venho partilhar convosco um texto que escrevi em 2010, quando ainda andava no Secundário, no âmbito da disciplina de Filosofia. É um texto que faz sentido recordar perante tão inesperado evento.


Quis saber quem sou,
O que faço aqui.

     Estes são os primeiros dois versos da canção E depois Do Adeus de Paulo de Carvalho, que ficou eternizada como uma das canções de Abril, e que mostram bem a luta do Homem pelo conhecimento de si próprio. É de facto incrível que o mesmo Homem que já descobriu inúmeros conhecimentos de Física, de Química, de Biologia e Matemática e inclusive já foi à Lua, ainda não tenha sido capaz de se descobrir a si mesmo!
     Mas, o que é que nos move? Como é que cá viemos parar? E o que é que nos resta quando se cá sairmos? São estas as perguntas que têm vindo a atormentar o Homem ao longo de todo a sua ainda curta passagem pela Terra. Se é verdade que só a consciência de si, só a razão permite ao Homem questionar-se e questionar o mundo em seu redor, é essa mesma consciência que o atormenta e amaldiçoa com o constante assolar de terríveis interrogações e dúvidas para as quais não consegue obter qualquer resposta convincente.
     Tantas vezes eu me interrogo sobre o que faço aqui e sobretudo sobre o que farei depois daqui sair. E quando o faço sinto um serpenteante arrepio de suor frio que me faz contorcer e me inquieta perante a finitude do alcance do meu saber. Com certeza não serei o único a ter tal sensação e certamente serão ainda muitos mais os que como eu encontram na crença religiosa um abrigo que por instantes nos acalma e reconforta com a ideia apaziguadora da vida para além da morte! Sim, porque essa é uma das maiores questões da humanidade e sobretudo um dos seus maiores medos e receios. Porquê tanto esforço, tanta dedicação aos estudos, ao trabalho, à esposa, ao marido, aos filhos se num momento tudo pode mudar com um simples disparar de uma pistola, numa terrível vicissitude que abala para sempre e de forma irremediável a nossa existência?
     Há, pois, a meu ver, que considerar a dicotomia corpo-alma neste jogo pela busca do nosso verdadeiro ser. Se queremos ter a ambição de viver com sentido, com um propósito fundado em valores inquestionáveis, temos que primeiro nos interrogar sobre a religião, se ela é justificável e o porquê de a mesma existir. Para mim, crer em Deus é como ter alguém que me guie, um mestre, um ideal inabalável, um Ser a quem posso confiar nas horas duras e pedir que me dê a força de continuar a caminhar sobre este mundo mesmo sem possuir certeza alguma sobre para onde estou a viajar.
     O ser humano é fruto do acaso, é certo. Uma outra combinação genética e eu não estaria a escrever este texto agora, mas já que aqui estou porquê não aproveitar esta oportunidade de ir mais além do que os que já cá estiveram, desbravando caminho para os que hão-de vir?
     A vida humana só tem sentido se tiver um objectivo, algo que nos faça levantar da cama todas as manhãs com vontade de ir perseguir e alcançar. Seja tirar o curso dos nossos sonhos, jogar numa equipa de futebol de qualidade internacional, empurrar incessantemente uma pedra até ao topo de um monte ou simplesmente ser feliz numa cabana junto à praia, o propósito da vida humana é sempre inerente ao seu sentido. E isso é algo que tem que se aceitar, qualquer que seja a visão sobre a existência humana.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Crónica Anemia #4 - Ambliopia Orçamental



Crónica #4 - Ambliopia Orçamental - Novembro 2014

Continuando a série das crónicas mais marcantes que escrevi para a revista Anemia aqui fica um texto que compara uma doença oftalmológica com o orçamento de estado e as desigualdades de sacrifícios financeiros entre ricos e pobres.



A ambliopia unilateral, informalmente conhecida como “olho preguiçoso”, é uma patologia na qual um dos olhos vê desfocado e o outro vê bem, porque a retina do olho deficitário não envia a mesma quantidade de informação ao cérebro do que a retina do olho normal. Assim, a zona do cérebro correspondente à retina má não se desenvolverá tão bem, o que leva o nosso cérebro a processar quase somente a informação correta. Ou seja, perante duas imagens, uma focada e outra desfocada, o cérebro opta pelo “facilitismo” de interpretar apenas a boa, deixando a defeituosa de lado. Isto leva a que o cérebro fique a ver mal de um olho para sempre… a não ser que o médico intervenha!


A intervenção médica nesta doença inclui oclusão ou penalização do olho saudável. O objetivo principal é sempre obrigar o cérebro a usar corretamente o olho afetado. Para isso, ou se tapa o olho bom (oclusão) ou se diminui temporariamente a sua acuidade visual (penalização). Ou seja, para que o mau aprenda a ser bom, o bom tem de ser prejudicado…


E se pensarmos bem neste assunto, aparentemente tão médico apenas, quantas vezes é que nos deparamos com situações equivalentes nas nossas vidas? Por onde anda lá fora do hospital o “Paga o justo pelo pecador”?


Começando por nós, é fácil reparar que a esmagadora maioria dos estudantes de Medicina teve um percurso escolar repleto de resultados brilhantes. No entanto, de certeza que a certa altura se sentiu obrigado a suspender a curva abruptamente ascendente da sua aprendizagem para que os companheiros de turma o pudessem acompanhar naquela viagem. Algo ao jeito do ciclista que vai a escalar bem a montanha, mas cujo diretor desportivo o obriga a aguardar pelo companheiro que se encontra em dificuldades. Afinal, o espírito de equipa é isto: num dia eu, noutro dia tu, mas sempre nós!


E aproveitando estarmos na ressaca da discussão do Orçamento de Estado para 2015, facilmente nos podemos lembrar da típica luta contra a pobreza que há anos se trava por terras lusas. Orçamento após orçamento, eleição após eleição, a oposição e o povo reclamam que os ricos é quem devem pagar mais as dívidas. Obviamente que o princípio no qual assenta esta reivindicação (equidade) está certíssimo, mas todos nós sabemos que o que muita desta gente (alegadamente amiga do povo) quer é, pela força do discurso fácil e direto ao coração fraco e carente das hostes, colocar o povo no bolso para servir os seus propósitos!


Mas então não é, de facto, muito mais fácil cortar nos ricos do que acabar com os pobres? Que utopia essa de exterminar a pobreza… Sim, talvez puxar para a esquerda os valores mais à direita da Curva de Gauss seja a solução mais fácil … e os governos até vão cortando qualquer coisita nos ricos, mas também não se podem esticar muito, que eles ainda fogem é todos para a Holanda!


Portanto, não é mais fácil puxar os sonhadores para o fundo do poço, quando estes já estão quase a alcançar o topo? Não é mais fácil sermos todos maus, do que termos de olhar lá de baixo para os bons? Pois é, pois é… ao contrário do que acontece no tratamento da ambliopia, com o qual o cérebro aprende a usar bem o lado mau, no resto do mundo, o pobre continua a morrer à fome e os seus amigos… engordando!


Bem-vindos!

Criei este blogue para dar a conhecer o maior talento que Deus me deu, o talento de fazer as letras darem as mãos e as palavras abraçarem-se nas frases que dão vida aos meus textos!

Espero que vão lendo, partilhando, criticando, mas sobretudo que se divirtam tanto quanto eu ao escrever as linhas desta parte de mim!