sábado, 21 de dezembro de 2024

Leões rumo a Brugge - o dia antes do jogo


Cresci a ver o Sporting perder. É um facto. Desde que celebrei o título de 2002, ainda sem grande idade para perceber ou saborear o que estava a suceder, passei o resto da minha infância, toda a adolescência e já uma boa parte da vida adulta a ver os portistas e benfiquistas a dividirem entre si as festas de celebração dos campeonatos nacionais. Para mim, ganhar a Taça de Portugal valia pela época inteira. Enfim, sou Sportinguista, um Eterno Sofredor!


Contudo, nos últimos 5 anos os sportinguistas tiveram os seus merecidos momentos de glória, em que o gáudio das boas exibições finalmente rimou com valentes celebrações.

 

E não sendo eu um sportinguista dos mais loucos que existem por este Portugal e Mundo fora, a verdade é que decidi fazer uma coisa que ainda não tinha feito: ir ver o Sporting jogar fora para a Champions!

 

Foi assim que, no final de setembro, ainda o Sporting cilindrava os adversários sob o comando de Rúben Amorim, que comprei a viagem de avião para a Bélgica, onde o Sporting jogaria 3 meses mais tarde, em dezembro.

 

Nesse espaço de tempo o Sporting acabaria por descer do céu ao inferno e com os imprevistos da vida, a verdade é que no dia da viagem até à Bélgica, a minha vontade de ir era quase nula. Todavia, lá fiz a viagem de carro desde Penacova até ao Porto e apanhei o voo até Bruxelas. Ditou a sorte que no avião ficasse sentado ao lado de membros do Núcleo Sportinguista de Tábua e de Arganil, concelhos vizinhos do meu município. Gente simpática que me disse onde devia apanhar o comboio mal chegasse ao aeroporto. Graças a eles consegui chegar mais cedo do que o previsto a Brugge, onde os meus colegas de aventura me aguardavam já com uma tarde inteira de cerveja em cima de avanço.

 

Mal cheguei tiramos a foto que ilustra esta crónica, imediatamente enviada aos meus colegas do Núcleo Sportinguista de Penacova. Seguimos depois para a pizzaria Amuni Bar para jantar, onde tomei a primeira cerveja em terras belgas: a famosa Jupiler, a “Super Bock / Sagres” daquelas bandas.

 


Terminado o repasto, fui pousar a mochila ao hotel e seguimos para os bares, onde nos reunimos com dezenas e dezenas de sportinguistas. Primeiro fomos ao Bar Monk, onde para além da confraternização com os nossos concidadãos, fomos ainda abordados por um casal inglês apoiante do Everton e também por um marroquino adepto do Raja Casablanca. Esse mega fanático do clube que partilha as cores verdes com o Sporting mostrou-nos vídeos da falange de adeptos a entoar verdadeiros e intermináveis recitais de amor ao seu clube, bem como cânticos de agradecimento aos treinadores lusos que haviam logrado vencer campeonatos pelo clube ao longo das últimas décadas (com destaque para José Romão, um histórico de quem já não ouvia falar há anos). O marroquino até nos mostrou um vídeo no qual as claques fizeram uma coreografia com cartolinas de modo a desenhar uma gigante bandeira portuguesa humana nas bancadas! Quando se ganha, toda a loucura é pouca!

Secados os vários copos que tomamos no Monk, optamos por trocar para o Bar des Amis, onde se encontrava a Presidente do Núcleo Sportinguista de Condeixa, agremiação à qual tinha comprado o bilhete para o jogo. Mal chegamos a música ambiente tinha algo de familiar, mas diferente do esperado para um bar edificado a mais de 2000Km do Estádio José de Alvalade. O que se ouvia não era electronic dance music, eram sim canções dos Supporting! Sim, a banda de rock que se dedica a criar temas musicais alusivos ao clube leonino. Quem lá estava há mais tempo acabou por nos explicar que o DJ residente havia sido gentilmente convidado a trocar a fúria do tecno pelo rugido do leão... É a loucura do futebol no seu melhor!

sábado, 7 de dezembro de 2024

13 anos e 2 funerais depois

13 anos distam o ano do funeral do meu saudoso primo André do ano do funeral da minha querida avó materna que acaba de partir.

 

Abril de 2011. Dezembro de 2024.

 

O lugar?

A mesma aldeia plantada nas encostas serpenteantes na Serra de Aire e Candeeiros.

 

Cheguei cedo, ainda havia uma hora de espera até ao início da missa fúnebre. Como tal, decidi dar uma volta e admirar a beleza da paisagem verdejante que contrastava com o cinzento dos céus. Apoiado num pequeno muro, mirei os caminhos que percorri nesse dia de 2011 enquanto também aguardava pela hora do funeral. Como tinha ainda tempo, decidi repetir e aproveitar para fazer uma reflexão.

 

O conteúdo desta reflexão foi surgindo ao longo do percurso. O título, esse, vi-o subitamente brotar do meu subconsciente enquanto descia a colina íngreme. Mas à medida que o caminho se foi inclinando, a risada que dei à conta desse título hollywoodesco foi dando lugar à tal reflexão... Em 13 anos tantas coisas mudaram... e outras tantas permanecem teimosamente iguais.

 

Há 13 anos eu ainda ia fazer 18 anos, agora já estou com 31.

 

Há 13 anos o Sporting estava há 9 sem ser campeão nacional, agora acaba de ganhar o segundo campeonato em 4 anos.

 

Há 13 anos eu ainda nem tinha dado o meu primeiro beijo, agora já tive namoros que nunca esquecerei.

 

Há 13 anos Passos Coelho ainda ia ser eleito Primeiro Ministro, agora muitos o querem a Presidente da República.

 

Há 13 anos eu pensava que ia ser treinador ou olheiro de futebol, agora até já pouca bola vejo.

 

Há 13 anos eu pensava que os médicos só trabalhavam, agora vejo que não tem de ser assim.

 

Há 13 anos eu só sabia estudar, agora eu quero mesmo é disfrutar.

 

Há 13 anos não sobravam vagas de acesso às especialidades médicas, agora os meus colegas começaram a abrir os olhos.

 

Há 13 anos eu não quis ir à Viagem de Finalistas, agora ia a duas.

 

Há 13 anos Donald Trump era para mim um multimilionário que tinha feito uma participação muito engraçada na WWE, agora vai assumir pela segunda vez a Presidência dos EUA.

 

Há 13 anos eu só tinha vivido na terra onde cresci, agora até meses pelo estrangeiro já andei.

 

Há 13 anos o mundo chorava a catástrofe de Fukushima, agora tivemos aqui perto a fatalidade da tempestade DANA em Valência.

 

Há 13 anos eu ainda não tinha conhecido os meus abdominais, agora já os vejo.

 

Há 13 anos o José Rodrigues dos Santos publicaria ainda o seu nono romance, agora acaba de lançar o vigésimo sexto.

 

Há 13 anos eu não bebia mais do que dois finos, agora não me apetece voltar a fazer o mesmo.

 

Há 13 anos Elizabeth II ainda era a Rainha de Inglaterra, agora descobrimos que nem sequer ela é eterna.

 

Há 13 anos eu ainda não tinha andado de avião, agora já perdi a conta aos voos que apanhei.

 

Há 13 anos André Villas-Boas era o novo Mourinho, agora foi o Rúben Amorim que finalmente apanhou o tal voo para salvar o Manchester United.

 

Há 13 anos eu tinha uma família, agora sei que tenho outra.

 

Há 13 anos começavam a surgir os novos telemóveis com ecrã tátil, agora os smartphones dominam a palma das nossas vidas.

 

Há 13 anos eu tinha amigos de escola, agora continuo a ter as fortes amizades que persistiram.

 

Há 13 anos o Facebook banalizava-se no nosso dia a dia, agora há tanta rede social que já nem sabemos bem o que ser social é.

 

Há 13 anos eu tinha sonhos, agora continuo a ter...

 

Os últimos passos desta reflexão foram-me guiando de volta à capela onde dentro de breves momentos iria principiar a cerimónia. À medida que me ia aproximando do local uma certeza se foi formando.

 

Ao longo destes 13 anos já fui e já conheci muita coisa. Fui o Gonçalo, o filho da professora Amazilde, o neto do Ti Alberto Chupinhas, o Engenheiro, o Dr. Engenheiro, o Doutor... Enfim, muito se foi alterando ao longo deste tempo todo, mas 13 anos e 2 funerais depois há uma coisa que não mudou. Eu. Mais calejado, mais refinado.


13 anos e 2 funerais depois, eu continuo a ser eu mesmo: o Gonçalo, de Penacova!

domingo, 10 de novembro de 2024

Sol de Outubro

Ai, Sol de Outubro!

Sol por vezes ainda mais quente do que o seu sósia num dia de verão.

Ai, Sol de Outubro! Trazes-me boas memórias.
Invariavelmente os teus raios amarram-me como tentáculos e puxam-me para junto de ti, onde o teu brilho intenso ofusca a visão do presente e me transporta para Aquele Outro Tempo.

Na minha testa já febril como a de uma criança que, contra a advertência da avó, teima em brincar ao sol sem boné na cabeça vêm as memórias d'Aquele Outro Tempo.

Recuo aos primórdios do tempo de faculdade. No meu ano de caloiro, as aulas só começaram a 26 de setembro. A primeira grande vaga de Praxe Académica prolongou-se diariamente pelo mês de outubro até rebentar no êxtase no Cortejo da Festa das Latas e Imposição das Insígnias no dia 1 de novembro. Uma terça-feira, e por coincidência um feriado, que permitiu a mais famílias vir assistir  ao desfilar dos caloiros em trajes alegóricos como se de um carnaval se tratasse.

Ai, Sol de Outubro!


Que saudades me trazes tu d'Aquele Outro Tempo em que eu tinha mais cabelo e menos preocupações.

Porventura, estarei a ser injusto. Preocupações sempre as houve, sempre as há. Mas eram diferentes. (Elas são sempre diferentes...) Mas eram as preocupações normais e expectáveis para Aquele Outro Tempo. As de agora nem todas o são.

N'Aquele Outro Tempo o que me apoquentava era sobreviver a mais um dia de Praxe. Era sobreviver à matéria que se acumulava todos os dias sem fim. Era sobreviver ao teste de Anatomia ao virar da esquina.

Hoje o que me atormenta é o Futuro.

Já morei nalguns lugares. E penso sempre que um dia gostaria era de regressar à minha terra. Acontece é que só agora verdadeiramente estou a compreender que essa terra não é aquela terra palpável que julgava ser. Essa terra foi crescendo no interior da minha testa febril como a de uma criança que brinca ao sol sem boné. Desconfio cada vez mais que essa terra é na verdade Aquele Outro Tempo.

Um tempo que vive no rosto familiar de uma pessoa conhecida, com quem nos cruzamos na rua.
Essa terra é certamente Aquele Outro tempo.
Um tempo em que o Sol de Outubro também brilhava intensamente.
Mas era um tempo em que as preocupações eram outras, as preocupações d'Aquele Outro Tempo.

Saudoso,
Aquele Outro Tempo.

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

10 anos de Faculdade: a primeira aula de Anatomia

26 setembro 2011. Este foi o dia em que entrei para a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. O tempo passa e já lá vão 10 longos e incrivelmente curtos anos desde esse magnífico dia. Curiosamente, essa segunda-feira foi também o dia em que tive o exame de condução de veículos ligeiros, pelo que comecei logo a Faculdade a... “baldar-me”!
 

No dia seguinte era terça-feira. E terças-feiras no 1.º ano de Medicina em Coimbra significavam aula de Anatomia às 8h no Pólo 1, onde se encontra erguida a sempre imponente, mas agora antiga Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Recordo-me perfeitamente de sair do carro do meu tio Alberto, que nesse dia me deu a primeira de muitas e muitas boleias (MUITO OBRIGADO!), e de me deparar, junto à lateral da Faculdade de Medicina que dá para a rotunda de D. Dinis, com um coro entoando os cânticos de ordem cujos maestros de preto lhes incumbiam de bradar aos céus ainda meio adormecidos. Parecia que estavam à minha espera. É que aquela tremenda mancha amarela, ladeada pelo negro das capas e batinas, depressa desmobilizou rumo ao extremo oposto da frente da faculdade onde iniciaria a escalada rumo ao piso 3, o piso do Instituto de Anatomia Normal da Faculdade de Medicina de Coimbra. Escusado será dizer que, este jovem provindo de Penacova, estava um pouco amedrontado. E isto é um eufemismo! É que, graças à “balda” do primeiro dia eu tinha conseguido duas coisas: uma, a carta de condução, e duas, não ter a famosa t-shirtamarela do caloiro de Medicina. Recordo-me que aquela terça-feira amanhecera algo fria, por isso a t-shirt branca com motivos pretos e vermelhos ao estilo rock band que vesti estava nessa hora revestida por uma bela sweat de cor... azul. Sim. A primeira vez que entrei numa aula de Medicina, todos os caloiros estavam de amarelo e eu... de azul. Como é óbvio, as perguntas logo choveram no habitual tom simpático e afável que sempre caracteriza os Doutores de segundo ano sedentos da “vingança” pelas tormentas sofridas no iato transato.

 

Caloiro! Por que é que não tem a camisola de caloiro?

 

E eu a subir as escadas da faculdade lá ia explicando que tinha faltado no dia anterior para fazer o exame de condução.

 

Ao menos passou no exame?

 

Sim. Lá ia respondendo.

 

Bem, chegados ao piso 3 atravessamos todo o corredor rumo à ponta oposta onde cortámos à esquerda e finalmente entramos no corredor que desembocava no famoso anfiteatro de Anatomia Normal. Ao entrar pela porta traseira, vislumbrei aquilo que ainda hoje considero com um verdadeiro santuário do ensino Médico em Portugal. Com tudo o que de bom e de mau lá se passou ao longo dos anos. Mas uma coisa é certa, poucas cadeiras tão desconfortáveis como aquelas terão formado tantos médicos como as daquele sagrado templo que as horas intermináveis lá passadas a receber lições à antiga ainda hoje me trazem saudades.

 

Quis o destino que me sentasse na primeira fila, à esquerda, junto às janelas. Naquele banco corrido haveria ainda de me sentar em mais duas ocasiões: em janeiro e em julho de 2012 para os exames orais das cadeiras de Anatomia 1 e 2.

 

E depois de todos os caloiros estarem sentados, ladeados pelos Doutores de negro, eis que chegava o momento do Exmo. Sr. Professor António Bernardes se levantar no alto do seu altar, nos cumprimentar, dar as boas vindas e iniciar a primeira aula de Anatomia.

 

Não sei se existe gravação de alguma destas primeiras aulas por aí perdida. Só quem lá esteve pode dizer o tremendo ambiente que lá se vivia naquela efeméride anual. Era tradição. Era legado. Era magia. Era mística! Toda a mística do curso de Medicina residia naquela cadeira de Anatomia, A Matemática dos Médicos. E nesta primeira aula, o Professor Bernardes transmitia com a ajuda do coro de Doutores esta mesma mística sagrada aos imberbes que agora iniciavam a viagem de uma vida. É que, segundo o Professor Bernardes, Deus havia criado a mulher para melindrar o homem, mas como tal não surtira efeito, então Deus fez a derradeira criação para atormentar para todo o sempre o pobre detentor dos cromossomas X e Y: a Anatomia!

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Vícios Pandémicos

Quando a Pandemia Covid-19 obrigou grande parte da população mundial a suspender as suas vidas e refugiar-se em casa, muitos foram os que aproveitaram a forçada clausura para dar largas às paixões que o exigente calendário do dia a dia tantas vezes não permite cultivar. Outros, inclusive, aventuraram-se por terrenos desconhecidos e até houve quem desse uma volta de 180º à sua rotina e partisse para um novo ofício, mais bem-adaptado ao “novo normal”.

Estou-me a referir tanto àqueles que retomaram a pintura, como aos que começaram a fazer pão, e aos corajosos que trocaram o emprego condenado ao fracasso pelo vírus pelos novos mundos das profissões digitais.

 

Fruto da minha profissão, não pude ficar em casa. E como tal, não, não foi no lockdown 2020 que finalmente escrevi o tal livro (um dia hei de cumprir essa ambição!). O meu vício pandémico foi mais ocioso. E também não, não subscrevi a Netflix. Confesso que a maioria das séries não me atrai. Sou mais de filmes. Em 2 horas está visto. Contudo, não sei o que me deu, mas decidi voltar à pré-adolescência, e voltar a ver wrestling em força.

 

Sim, leram bem: o meu vício pandémico foi o wrestling! Passada uma semana após o encerramento geral subscrevi o WWE Network para voltar ao vício dos velhos tempos. A WWE Network é a plataforma de streamingda maior organização de luta livre mundial. A Netflix do wrestling, portanto. Esta enorme base de dados contem, não só todos os principais eventos que decorrem durante o ano, como também vídeos que remontam aos anos 70 do século passado. Um autêntico santuário de conhecimento para os apaixonados por esta tão polémica e controversa forma de desporto/“entretenimento desportivo”, que no nosso país viu o seu expoente máximo de popularidade ser atingido entre 2005 e 2008. Nessa altura bem me lembro de ler o livro "Bem-vindo ao Mundo do Wrestling", no qual o locutor da Rádio Comercial, Diogo Beja, confessava que a sua paixão de menino pela luta livre também tinha estado hibernada durante muitos anos...

 

Se ainda hoje, ano e meio volvido desde o começar deste período tão singular das nossas vidas, o vírus não para de encher os noticiários, então recordem-se do que era o nosso dia a dia nos primórdios da pandemia. É que já me não chegava o Covid todo o dia no trabalho, era só o que mais faltava ter de continuar a levar com o vírus também em casa através do ecrã de uma televisão que me vi forçado a ver longe da família durante quase 2 meses! Assim, dia após dia, privado da beleza “escarpante” dos montes e vales da minha terra, Penacova, confesso que me fartei. E então, nos ecrãs do meu televisor e computador, onde outrora o noticiário era rei, passou apenas a dar wrestling. Foram torradas com wrestling, foi bife de perú com wrestling, foi bacalhau com wrestling! Sempre que podia, digitava “wwe network” no Google e lá escapava eu para esses tempos de menino há muito idos. E mais, pude finalmente viver o aparecimento dos grandes lutadores que eu já conheci maduros. Vi o errático Rocky Maiviatransformar-se no carismático Dwayne The Rock Johnson. Vi o insosso Ringmaster evoluir para o icónico Stone Cold Steve Austin. Vi todo o ano de 1997 da WWE, o ano da metamorfose que trouxe o wrestlingdo passado para o modelo que conheci no final de 2005, quando, ainda um miúdo de 12 anos, decidi pela primeira vez sintonizar na SIC Radical para ver Jonh Cena, Shawn Michaels, Triple H e Kurt Angle no Monday Night Raw.

 

Enfim, revivi muitas coisas e sobretudo descobri outras mais. E se, durante uma década a paixão pelo wrestling esteve, sem dúvida, adormecida no desinteresse em que esse espetáculo para mim se havia transformado, a verdade é que, ao subscrever a biblioteca digital da WWE, pude voltar a ser feliz ao apreciar com outra maturidade esta magnífica forma de desporto/”entretenimento desportivo”.


Cada um teve o seu vício pandémico. O meu not guilty pleasure foi o wrestlingQual foi o vosso?

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Os 5 Violinos e a Demência

Senhor António, recorda-se daquelas 3 palavrinhas que lhe pedimos para decorar há uns minutos atrás?

Infelizmente, as consultas dos Médicos de Família, Neurologistas e Fisiatras estão repletas de pessoas que, ainda bastante autónomas, já não conseguem recordar estas tais 3 palavrinhas mágicas, um pequeno indiciador de uma demência em início.

Como assim, perda de memória!? Senhor Doutor, olhe que ele ainda sabe os Reis de Portugal todos de trás para a frente!

Pois, nós bem sabemos que o senhor António ainda sabe isso tudo. Algo que sempre fascina quem se senta do outro lado da secretária é a forma como a demência tende a afetar primeiramente as memórias mais recentes, preservando as mais antigas. É bastante comum encontrarmos pessoas que não conseguem recordar o que tomaram ao pequeno-almoço, mas ainda sabem os pratos de carne e de peixe que almoçaram 30 anos antes, no dia do casamento do seu filho.

Na verdade, esta é uma das características mais marcantes da demência, um nevoeiro que se vai lentamente adensando, escondendo memórias e fazendo regressar aos poucos à infância, até ao ponto em que olhamos para a nossa neta adulta e lhe chamamos “mãe”.

No outro dia, apanhei um doente assim na consulta. Calhou em conversa descobrirmos a paixão em comum pela grande potência desportiva chamada Sporting Clube de Portugal. Mal eu disse que também era do Sporting (ainda por cima sócio e tudo!), o senhor lança-me uma pergunta fatal: Se o Doutor é mesmo sportinguista, tem de me dizer os nomes do 5 Violinos! O meu rosto de aluno a quem se lhe acaba de dar uma branca em pleno exame oral foi oportunamente disfarçado pela máscara (o jeito que ela dá para quem facilmente cora de vergonha!), mas o bloqueio não passou. Na breve fração de segundos que mediou a pergunta à minha incompleta resposta, apenas consegui viajar à inauguração do Estádio José de Alvalade XXI, na qual o único dos Violinos ainda vivo à época deu o pontapé de saída simbólico do jogo ante o Manchester United. Jesus Correia. Foi o primeiro nome que me saiu. Ainda consegui dizer Travassos. Mas os outros 3 vultos em posição agachada para sempre imortalizados na icónica fotografia dos 5 Violinos não me saíram. E ainda por cima o mais famoso deles todos, o grande goleador Fernando Peyroteo, ficou por dizer! Imperdoável!

Jesus Correia, Vasques, Travassos, Peyroteo e Albano.


O senhor António sabia todos os 5 nomes de cor e salteado!

E ainda me sabia dizer onde tinha estado na Guerra Colonial e me contar uma ou outra estória dessa marcante vivência de há 50 anos atrás. Infelizmente, quando lhe perguntamos por aquelas 3 palavrinhas mágicas que lhe havíamos pedido para decorar há escassos minutos atrás (um pouco antes da máscara branca P2 ter disfarçado a vergonha cor encarnada estampada no meu rosto), apenas nos soube dizer uma delas. Para nós, médicos, após integrarmos toda a restante informação, é mais um daqueles casos de uma provável demência em início. Já para o senhor António e para a sua família é certamente o começar de uma longa e penosa travessia.

 

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Dezanove anos e uma pandemia depois

“Pró ano é que é!”

O Sportinguista é o mais português dos adeptos de futebol nacionais. Saudoso sofredor sempre a recordar os tempos idos dos 5 Violinos, tempos em que se tivesse existido Taça dos Campeões Europeus, tínhamos limpado mais troféus internacionais que o Benfica e o Porto juntos.

 

Saudoso sofredor que perante um início de campeonato auspicioso, com vitórias consecutivas (algumas mais suadas) que acabaram por colocar o clube leonino na liderança, começava a desconfiar de tamanha sorte e a ver pairar aquela incómoda e tão familiar sensação de que seria sol de pouca dura. Afinal quem já viu fugir um campeonato por um ponto em 2006/2007 (o da mão de Ronny do Paços de Ferreira e do hat-trick do central Buba do Beira Mar com Paulo Bento) e outro em 2015/2016 (o segundo melhor registo de sempre de uma equipa no campeonato ao leme de Jesus) e ainda por cima ver o culminar de uma caminhada épica na Taça Uefa 2004/2005 numa amarga derrota por em casa frente ao CSKA Moscow, depois de ir a ganhar para o intervalo, só pode viver com a tormenta de que o pior ainda está para vir! Sempre para vir.

 

“Sofredores incondicionais” alguém nos apelidou. Uma chancela que assenta que nem uma luva em quem tristeza após tristeza, partida entediante após partida entediante, sempre continua a ir ao Estádio ou ver na SportTv a saga de todos os anos continuar sob o lema do “Pró’ ano é que vai ser!”. Pois bem, meus amigos, este ano foi! Este ano foi mesmo! O nosso grande Sporting, a maior potência desportiva nacional foi mesmo campeã nacional de futebol sénior 19 anos depois da última conquista!

 

Que dia incrível esse em que fiz 100km rumo ao Núcleo Sportinguista de Penacova para viver a tão esperada celebração junto daqueles que comigo sofreram ao longo destes 19 largos anos!

 

Não vale a pena mentir. Sempre desconfiei que não iríamos aguentar até ao fim. No último terço da temporada, muitas das vitórias eram demasiado suadas e alcançadas já ao cair do pano. Tanto milagre era de desconfiar, mas por outro lado só mostrava uma raça e um crer nunca antes vistos pelos lados de Alvalade. Era sempre até ao último minuto! Sebastian Coates, outrora contestado pelos seus ocasionais erros defensivos comprometedores, desta feita estava transformado no símbolo maior da nossa ambição desmedida, do acreditar até ao último segundo de que era possível colocar o esférico a balançar nas redes adversárias. Fosse de que forma fosse! E Palhinha, que esteve praticamente com guia de marcha na pré-temporada, acabou por ficar e estabelecer-se como um esteio fundamental de um modelo de jogo inovador para os tempos que correm e que foi recuperar os pergaminhos dos 3-4-3 dos Barcelonas de Cruyff que encantaram a Europa na primeira metade da década de 90. Rúben Amorim, benfiquista de gema, era o timoneiro improvável, que havia sido recrutado a preço de ouro a escassas semanas de tudo fechar em 2020 fruto da emergência da Pandemia Covid-19. Os anti-Varandas e os Varandistas uniram-se na desconfiança de que tamanho investimento em tão inexperiente técnico não auguraria nada de bom para o futuro de um clube que atravessava um período tumultuoso, com 3 treinadores já despedidos no decurso do ano desportivo e ainda a braços com os espojos de guerra do fatídico dia em que a Academia de Alcochete havia sido brutalmente invadida por gente que não pode ter lugar no nosso grande Sporting.

 

E depois de começarmos a perder pontos em Moreira de Cónegos a tal desconfiança veio mesmo ao de cima. Nesse jogo a sorte que tantas vezes nos havia bafejado ao longo da temporada sorriu ao adversário que marcou um monumental golaço já ao cair do pano de uma partida que vira 2 golos anulados ao recém-contratado Paulinho. Para alimentar o receio numa viragem no campeonato, nessa mesma jornada o FC Porto conseguira igualmente um triunfo suado no último instante, com Toni Martinez vindo do banco finalmente a deixar a sua marca. Teriam os Dragões encontrado o seu Mantorras? Bem, pelo desempenho nos jogos finais do campeonato parecia mesmo que sim, à medida que a distância que outrora se situava nos 10 pontos foi emagrecendo até a uma estreita cintura de 4 pontos que faziam temer o pior dos desfechos (o tal já esperado pelo verdadeiro Sportinguista calejado). No entanto, quando tudo parecia desmoronar-se por completo, com a expulsão de Gonçalo Inácio no decisivo jogo de Braga, a verdade é o remate cruzado de Matheus Nunes naquele lance estudado acabou mesmo por conceder a vitória à turma leonina. Nessa jornada, o FC Porto acabou por empatar ante o Moreirense (que curiosamente havia sido o clube a reacender a esperança dos Dragões em revalidar o título), numa partida envolta em polémica tecnológica com o VAR a anular um golo do tal Toni “Mantorras” Martinez. Não fosse o VAR e provavelmente estaria aqui a ser contada uma bonita estória de um jogador que andou na sombra toda a temporada e surgiu no terço final para ser decisivo e dar a volta aos acontecimentos.

 

Nada disso aconteceu e, assim, a bonita história que há para contar é a de um clube com uma mentalidade muito própria, assente na formação, que finalmente alcançou o troféu que lhe fugia já há 19 longínquos anos. Quando Paulinho selou o golo do triunfo ante o Boavista num Estádio de Alvalade que, embora despido de público no seu interior, nunca havia estado tão cheio desde a sua inauguração em 2003, o barulho vindo do exterior tornou-se ainda mais ensurdecedor! Era o sonho de uma geração que apenas vira o Sporting ganhar ainda andava na escola Primária, e andara toda uma vida a ver os outros envergar orgulhosamente a sua camisola no dia seguinte ao do título que teimava em fugir, mesmo quando era a equipa a praticar o mais requintado futebol em Portugal. Foram precisos 19 anos e uma Pandemia para o sonho se concretizar!

E foi também o fim de uma era. O Sporting campeão ainda no tempo do escudo, da Nokia e da PlayStation 2 já lá vai! Este é agora um Sporting que nos faz sonhar, mas de pés bem assentes na terra. Este é um Sporting que vai ter de enfrentar os desafios de uma época longa e desgastante física, mas sobretudo mentalmente com a entrada na Liga dos Campeões, palco maior do futebol europeu, onde uma potência desportiva como esta tem de estar presente ano após ano. O regresso do Público aos estádios poderá ser outro desafio. Mas uma coisa é certa, com Ruben Amorim ao leme, esse benfiquista de gema que devolveu finalmente a já esquecida felicidade àquela curva belíssima que ano após ano sempre apoiou o seu Sporting, e com esta mentalidade, estou certo que grandes dias continuarão a alvorar!

 

E este ano é que foi!