quarta-feira, 9 de abril de 2025

Até um dia, ULSEDV!

A vida é feita de etapas e de ciclos.

Hoje para mim encerra-se mais um.

Hoje, dia 10 de abril de 2025, é o meu último dia de trabalho na Unidade Local de Saúde de Entre o Douro e Vouga (ULSEDV). 

Como tantos colegas de outras especialidades, entrei no então Centro Hospitalar de Entre o Douro e Vouga a 1 de janeiro de 2019 para realizar o Internato de Formação Específica em Medicina Física e de Reabilitação.

 

Recordação da sessão de acolhimento aos novos Médicos Internos de Formação Geral e de Formação Específica em janeiro de 2019

Nessa altura deixei a minha terra natal, mas felizmente não vim obrigado ou porque era que sobrava na lista de possibilidades. Vim porque assim o quis e para tal trabalhei. No momento da escolha, em junho de 2018, no areal soalheiro de Faro, e após um período de muitas decisões e indecisões, considerei ser a melhor opção para prosseguir a minha formação. Buscava uma realidade diferente daquela em que cresci e em que me formei enquanto médico e necessitava de um espaço onde de igual modo me pudesse desenvolver enquanto pessoa, longe da alçada dos pais, com quem vivi nos primeiros 24 anos de vida.


 

A minha última reunião multidisciplinar da Unidade Geriátrica Aguda do Hospital de Oliveira de Azeméis, unidade da qual fiz parte ao longo do último ano, já como especialista. Um obrigado a todos pelo carinho e um especial abraço ao seu grande impulsionador, o Dr. Gonçalo Sarmento!


Passados 6 anos e 3 meses, contas feitas, estou contente pelo caminho que tomei. A escolha correspondeu às expectativas! Não foi uma opção fácil, e decerto que poderia ter seguido um outro rumo, manifestamente mais expectável... Perguntam-me, hoje voltaria eu a fazer o mesmo? Olhem, se hoje pudesse acelerar num DeLorean a 88 milhas por hora e regressar a 2018, muito provavelmente teria voltado a escolher a ULSEDV. Aqui fiz um Internato bastante completo, mas também à medida das minhas áreas de interesse. Desde a primeira comunicação oral num congresso em Marrocos até à última num congresso em Leiria, tive a possibilidade de apresentar muitos trabalhos em eventos de prestígio, o que também me permitiu conhecer algumas cidades nacionais e estrangeiras. Além disso, concretizei um sonho de menino ao estagiar um mês no meu querido Sporting, um estágio bastante marcante do meu percurso. Tal como marcante foi a pandemia COVID-19, que infetou metade do meu internato, e que o engenho da nossa Diretora permitiu que o serviço não ficasse ligado ao ventilador. Ao longo deste trajeto estabeleci várias relações de trabalho e de amizade que espero cultivar e levar para a vida, e fui agraciado com uma orientadora espetacular que se transformou numa das minhas melhores amigas.

 

Bolo carinhosamente feito pela secretária Ana Rodrigues do Serviço de MFR do Hospital de São Sebastião

Mas nem tudo foi perfeito e os meus últimos meses, já enquanto especialista, foram mais difíceis. Fruto da expansão e desenvolvimento das três unidades hospitalares já existentes na ULSEDV e da recente integração de uma nova, trabalhar nesta instituição tornou-se bastante mais desafiante pelas diversas necessidades e dinâmicas de cada local, pelo cansaço acumulado e também pelo dispêndio financeiro associado às inúmeras viagens entre unidades. Ainda assim, estou certo de que esta experiência me amadureceu e me deixou mais bem preparado para o que há de vir!

 

Jantar de Despedida com vários médicos do Serviço de MFR da ULSEDV no restaurante Casa Branca, em Gaia. Um agradecimento a todos os que despenderam da noite para estar comigo, em especial à organizadora, a Dra. Isabel Romeiro, e à Dra. Catarina Aguiar Branco que fez questão em estar presente. E não posso deixar de mencionar a presença da Dra. Maria Manuel Baptista, que veio a este jantar.


E tal como nos livros e nos curricula, no final é tempo dos agradecimentos. E há muitos a fazer. Como tal, sem nomear alguém em concreto, mas com todos em particular no pensamento, quero deixar o meu sincero agradecimento a todos aqueles que sempre me tratam com simpatia ao longo destes 6 anos e 3 meses nas várias unidades da ULSEDV: secretários, senhores do bar, terapeutas, enfermeiros, médicos, auxiliares, utentes... Foi muito por vossa “culpa” que fui adiando esta minha decisão de, por agora, partir rumo a novos desafios.

 

Visita ao Serviço de MFR do Hospital de Ovar, um hospital bastante importante da ULSEDV. Nos meus últimos meses na ULS trabalhei cá e assisti à transformação que se encontra em curso na mais recente unidade da ULSEDV. É um hospital com gente de enorme valia e com bastante potencial!

Muito obrigado a todos!


Bolo de chocolate da (In)Fusão Comida Com História, propriedade do Auxiliar Bruno Sá, um espaço a visitar em Santa Maria da Feira!

E até um dia!

quinta-feira, 3 de abril de 2025

Barcelona 2025 - parte 3: de Badalona a Barcelona

 

Na manhã seguinte levantei-me e antes de tomar o pequeno-almoço, corri a cortina da janela do quarto e sentei-me na beira da cama simplesmente a contemplar aquela vista. A “tempestade” da véspera dera lugar a uma manhã soalheira de bonança para as “formigas” darem o seu passeio à beira-mar.

Vista do hotel na Marina de Badalona

Também eu fui “formiga” nessa manhã, mas antes fui aproveitar o ginásio do hotel, que estava bem equipado, para fazer um treininho (quem tem este vício, percebe que até em férias custa não treinar...). Banho tomado e sweater e casaco vestidos para fazer contrariar a brisa fresca costeira lá fui eu juntar-me ao carreiro de “formigas” que vislumbrei do alto do 13.º andar do meu quarto de hotel. Porém, cá em baixo, os seres minúsculos ou eram famílias que faziam caminhadas, pessoas a correr, ou simplesmente a fazer uma merenda matinal com o que haviam adquirido no supermercado Mercadona sito ao lado do hotel.

No Port de Badalona

Fui percorrendo de ponta a ponta a marginal. Na praia, apesar de estar frio, vários grupos de jovens jogavam voleibol, outros faziam musculação no setor de barras e até me deparei com campo especialmente dedicado a um desporto que desconhecia, o Pickleball. É uma mistura de ténis, badminton e ping-pong que tem vindo a crescer de popularidade nos últimos anos, vim eu a descobrir quando pesquisei na Internet. Bem perto desse terreno de jogo, no Pont del Petroli, encontrava-se uma das atrações daquela zona de Badalona, a escultura de um macaco com traços de Charles Darwin segurando uma garrafa de anis, símbolo da marca Anis del Mono. A escultura em bronze foi construída em 2012 para homenagear essa importante marca de anis de Badalona e, desde então, tem permitido aos turistas tirar divertidas fotografias, como eu próprio não deixei de fazer.

No Pont de Petroli junto da emblemática escultura do macaco da Anis del Mono

 

Ainda galguei a restante marginal e alcançado o extremo oposto ao hotel apeteceu-me sentar numa rocha e tal como ela, ficar simplesmente a mirar a acalmia transmitida pelas águas do mar Mediterrânico.


Estive nesta introspeção uns bons minutos e quando a minha mente emergiu do fundo daquelas águas estava na altura de rumar finalmente a Barcelona propriamente dita. Dirigi-me novamente à estação de Pep Ventura e apanhei a linha 2 do Metro em direção à paragem Hospital Clinic, no bairro de Eixample, a escassos minutos a pé do hotel onde iria ficar nas duas noites seguintes. Antes de fazer o check-in, como já eram 15h, optei por parar num restaurante para almoçar (a horas de Nuestros Hermanos...). O melhor restaurante da zona, o Retorno, tinha fila para entrar, por isso optei pelo El Rincón de Angél.


E se o entrecot de ternera que comi merecia um pouco mais de tempero para se tornar inesquecível, a minha permanência neste restaurante teve o seu momento caricato. Ora então, poucos minutos depois de me sentar na esplanada, na mesa devidamente indicada pelo funcionário, que deveria ter a minha idade, fui abordado por um idoso que se aproximou pelas minhas costas, empunhando um pires de café com uma nota e moedas no seu interior. O senhor verbalizou umas palavras que eu mal percebi, num tom espanhol bastante carregado, que mais tarde compreendi ser catalão falado depressa. Da maneira que ele se apresentou, assim do nada, e esticando aquele pires de café na minha direção, eu automaticamente julguei que se tratasse de um pedinte que andasse a molestar os clientes da esplanada e logo lhe disse que ainda estava à espera e não queria nada. O senhor meio confuso lá me deixou e só quando ele se dirigiu para o interior do estabelecimento e o observei a dar indicações aos funcionários é que me se fez luz na minha cabeça! Aquele não era um pedinte, não. Aquele era o dono do restaurante. Aquele era o senhor Angél!


Como as aparências, as circunstâncias e os condicionamentos que trazemos doutras situações passadas nos podem iludir! E com tudo aquilo esqueci-me de pedir para o entrecot ser um pouquinho mais bem passado. A carne veio quase em sangue e olhem, com a fome que tinha, nem pedi para grelharem um pouco mais, foi mesmo assim. Mastigando e mastigando a textura pastosa da carne muito mal passada, tive mais do que tempo para me lembrar de um grande amigo meu que adora ir a um restaurante muito bom na Figueira da Foz, onde quem não come carne mal passada nem vale a pena entrar!

 

Findada a refeição fui para o hotel, fiz o check-in, tomei um banho e adormeci, tal era o cansaço das últimas horas. Quando voltei a mim, tinha uma notificação do email no telemóvel que me informava que o pub crawl que havia marcado para essa noite tinha sido cancelado. Foi uma oportunidade perdida para conhecer outras pessoas... Não fiquei a chorar e, então, aproveitei o tempo para varrer alguns dos pontos turísticos de Barcelona. Abalei já perto das 18h e com o sol a pôr-se fiz o trajeto de 25 minutos a pé até ao emblemático Passeig de Gràcia, onde em 2006 fiquei hospedado com a minha família na primeira noite. E só lá ficamos nessa noite, porque roubaram o cartão de crédito ao meu tio no hotel e então achamos melhor trocar para outro local mais recomendável. Lembro-me apenas que a entrada do hotel era numa das “esquinas” dos octógonos nos quais os edifícios da cidade se encontram organizados. Com toda a certeza que esse hotel já mudou de nome e gerência…

 

Num espaço de duas horas ainda consegui ver muita coisa. Comecei pela Casa Batlló e Casa Milà (La Pedrera).

Casa Milà (La Pedrera)

Depois segui pela Avenida Diagonal e observei a Casa Comalat e Casa de les Punxes.

Casa de les Punxes

Finalmente ainda caminhei mais de meia hora para apreciar a beleza da Sagrada Família rasgando os céus já quase totalmente escurecidos.

Na Sagrada Família

Várias dezenas de pessoas encontravam-se nas imediações a fotografar o monumento e claro, a tirar selfies. E por falar em selfies, não pude deixar de reparar no tremendo esforço, empenho (e paciência…) com que um rapaz estava a fotografar a namorada. O casal ainda esteve naquilo uns bons minutos, pois de cada vez que ele lhe mostrava as fotos ela mandava-o tirar mais! E sim, a Sagrada família ainda está em construção!

quinta-feira, 27 de março de 2025

Barcelona 2025 - parte 2: o show da WWE

Barcelona não era uma cidade totalmente desconhecida para mim.

Era a terceira vez que lá ia. A primeira viagem foi em 2006, uma road trip bem especial em família, ainda na companhia do meu querido primo André. A segunda foi em 2022, por ocasião do evento científico Rising Stars in Physical and Rehabilitation Medicine. A terceira vez foi também distinta das demais, foi uma viagem a solo.

Aterrei em Barcelona perto das 14h locais, comi uma sandes no café Pret A Manger à saída do aeroporto e dirigi-me para a paragem do autocarro Aerobus que faz a ligação entre o terminal do aeroporto e a Plaça de Catalunya. Aí tive de trocar para o metro L2 para seguir até à estação de Pep Ventura em Badalona.

Porquê Badalona? Porque foi aí que o evento de wrestling iria decorrer, na Arena Olímpica.

 

Quando saí da estação do metro estava a chover e eu não tinha trazido guarda-chuva. Contudo, o casaco era impermeável e por isso, decidi ir fazendo a pé os 20 minutos de caminho até ao hotel na Marina de Badalona, combinando o passo acelerado com o abrigo possível por debaixo das varandas dos apartamentos. Check-in efetuado, decidi descansar um pouco antes de repetir grande parte do trajeto até à arena. Quando lá cheguei, uma hora e meia antes do início do espetáculo, deparei-me já com uma enorme multidão que fazia fila para entrar, empunhando guarda-chuvas para se proteger dos aguaceiros que jorravam dos céus.

 

Filas para a entrada na Arena Olímpica


Decidi fazer uma paragem num bar logo ao lado, o Bar Frankfurt Joventut, devidamente decorado com as cores do Club Joventut Badalona, um histórico do basquetebol espanhol. Aí comi um hambúrguer e tomei as primeiras cañas em terras catalãs.

 

A primeira caña em terras catalãs

 

Mal entrei na arena fui imobilizado por outra multidão, desta feita nas filas para a banca de merchandising. A WWE tinha à disposição t-shirts de John Cena, um ídolo da minha geração, que se encontra no seu último ano como wrestler profissional e que desta vez é o mau da fita, uma “traição” que incendiou a Internet, à semelhança do que sucedera no ano transacto com Dwayne “The Rock” Johnson, mega estrela de Hollywood e antigo wrestler que hoje em dia é um dos chefes da WWE.

 

Por sorte a entrada para o setor onde tinha bilhete situava-se noutra zona, onde se podia circular à vontade, um autêntico deserto quando comparado com aquela ágora logo à boca da arena.

 

Eu com uma camisola de Dwayne "The Rock" Johnson antes do espetáculo principiar

 

Fiquei sentado numa bancada inferior perto da barreira que separa os espectadores do ringside, do lado contrário para onde apontam as câmaras de televisão, o que baixou significativamente o preço do ingresso.

 

O espetáculo principiou com a entrada da ring announcer Lilian Garcia, a mesma que naquela noite de 2005 vi pelo ecrã na minha sala de estar quando vi wrestling pela primeira vez, e que, por ter passado vários anos da infância em Espanha, conferiu ao evento um toque especial.

 

Não vos vou maçar com a descrição dos combates e dos vários segmentos do programa, porque hoje em dia, apesar de já não passar na SIC Radical ou na SportTV, tudo isto está ao vosso dispor na Netflix.

 

Ainda assim, há dois momentos que merecem destaque.

 

O primeiro é a presença de Randy Orton, um autêntico portento físico que há 20 anos era dos jovens mais promissores do plantel e hoje em dia é uma lenda viva da WWE. Ganhou o respetivo combate, brindou a audiência com três RKO e no final saiu mesmo à minha frente.

 

Saída de Randy Orton



E o segundo momento foi a entrada do maior dos tempos modernos, Cody Rhodes, campeão da WWE. Minutos verdadeiramente arrebatadores, nos quais o público canta com todo o fôlego que tem nos pulmões a letra da música de entrada, Kingdom da banda Downstait.


Foi realmente uma grande noite para o povo da Catalunha, e da Espanha em geral, que pela primeira vez recebeu um evento televisionado da WWE. Mas nas bancadas também vislumbrei várias bandeiras portuguesas e ainda dois adeptos do Benfica que envergavam a camisola encarnada e que certamente prolongaram a viagem para apoiar o seu clube ante o Barcelona para a Champions League para ver o WWE Friday Night SmackDown na Arena Olímpica de Barcelona.


Os dois campeões mais importantes da WWE à data, Gunther (em cima) e Cody Rhodes (em baixo).


Sem dúvida que valeu a pena a viagem... e a melhor parte? É que ainda tinha três dias pela frente para redescobrir a cidade condal.

domingo, 23 de março de 2025

Barcelona 2025 - parte 1

Sem saber, esta viagem começou há 20 anos atrás, numa tarde de brincadeira em casa do meu grande amigo Zé Pedro Paiva. Nessa tarde de outono de 2005, juntámo-nos para jogar PlayStation 2 e o disco que introduzimos no leitor da consola foi o WWE SmackDown vs Raw. Até esse momento nunca na vida tinha eu ouvido falar em wrestling. Esse espetáculo tremendamente popular na América que mistura o desporto derivado da luta grego-romano com um enredo pré-determinado capaz de prender espectador ao ecrã foi para mim uma autêntica novidade... Sei que escolhi para meu lutador o Batista, um autêntico portento físico que na época era dos nomes mais importantes da companhia norte-americana. E fiquei apanhado por aquilo!

Poucas semanas depois, numa segunda-feira à noite, decidi sintonizar a televisão no canal 9 da saudosa TV Cabo, que nessa altura pertencia à SIC Radical, e ver o Monday Night Raw, o programa semanal mais importante da WWE, que há 20 anos atrás era transmitido em Portugal com cerca de 1 mês de atraso (outros tempos...). Nesse dia sei que devia estar a estudar para um teste de História do 7.º ano, mas em vez disso fiquei agarrado à televisão… até que a minha mãe me ralhou e lá fui eu fazer o que devia estar a fazer!

 

Passaram uns meses sem contactar com wrestling, até que no início de 2006 comecei a ver de forma regular até aos tempos em que já andava no Secundário. Nessa altura, é consens
ual que o foco da companhia norte-americana eram as crianças e por isso, o público adolescente foi perdendo o interesse.

 

Contudo, o bichinho ficou cá latente, e conforme já escrevi no passado, com a Pandemia o vício despertou da longa hibernação e voltou em força!

 


Quanto a espetáculos ao vivo, é raro a WWE vir a Portugal, dado não ser um mercado com dimensão suficiente para compensar a deslocação. No auge da popularidade do fenómeno em terras lusas, a meio da década de 2000, a companhia norte-americana realizou dois espetáculos em Lisboa, e regressou pela última vez em Novembro de 2017. Por uma ou outra razão nunca pude ir ver. Assim, quando em 2024 foram anunciados dois espetáculos especiais em Glasgow, “perdi a cabeça” e decidi realizar um sonho de menino e ir ver. Nessa altura, andava arredado das crónicas e acabei por nada escrever sobre essa incursão à cidade escocesa, que também foi a minha primeira viagem ao Reino Unido.


Mas desta vez foi diferente!


Desde que soube que a WWE iria fazer uma digressão europeia a iniciar em Barcelona que tentei convencer alguns amigos a ir, mas sem sucesso. Aos poucos fui desistindo da ideia. Contudo, a vontade de ir era tanta que, duas semanas antes do evento, lá acabei por comprar o bilhete, marcar a viagem e pronto, fui sozinho. Levei um caderno e uma caneta na mochila. E são as pequenas estórias desta minha viagem a Barcelona que vou relatar nas próximas crónicas.

sábado, 22 de fevereiro de 2025

Memórias de uma Menção Honrosa

Balão subacromial. Mas o que raio é um balão subacromial!?

Naquela manhã pandémica de maio de 2020, o meu colega, na altura médico recém-especialista, Dr. Paulo Couto, e eu, à época médico interno de 2.º ano de especialidade, estávamos a ver a lista de doentes que tínhamos para avaliar no internamento de Ortopedia, quando nos deparámos com algo que nos detive a atenção...

 

Senhora de XX anos submetida a artroplastia com balão subacromial por rotura da coifa dos rotadores. Para avaliação e orientação.

 

Era mais ou menos isto que dizia a informação dos nossos colegas da Ortopedia. De imediato fomos pesquisar à Internet e deparámo-nos com uma tremenda escassez de informação. De seguida, ligámos ao especialista sénior da reabilitação do ombro do nosso serviço, o grande Dr. Jorge Moreira, a ver o que ele sabia sobre isto. Artroplastia com Balão Subacromial também era uma autêntica novidade para o experimentado especialista em Medicina Física e de Reabilitação que sempre tão sabiamente nos orientava.

 

Bem, lá intensificámos a busca informática e finalmente conseguimos concluir que se tratava de um procedimento recente, que consistia na introdução de um dispositivo biodegradável em forma de balão no ombro (no chamado espaço subacromial), para assim diminuir o embate ósseo entre a cabeça do úmero e o teto da articulação representado pela omoplata. Este embate, medicamente designado por conflito (em inglês impingement), é potencialmente responsável por muita dor e perda de função. Assim, este procedimento procura resolver estas queixas, dando ao paciente mais uns anos de relativo alívio até eventualmente necessitar de colocar uma prótese no ombro. Isto é o que descobrimos sobre o procedimento ortopédico. Agora, sobre o processo de reabilitação após essa cirurgia pouco ou nada encontrámos. E foi aí que tivemos de pôr as nossas cabeças a raciocinar. E também foi aí que a grande oportunidade surgiu!

 

O nosso serviço de Medicina Física e de Reabilitação construiu ao longo dos anos uma tremenda relação com o serviço de Ortopedia e Traumatologia. A interligação entre estes departamentos permitiu o desenvolvimento de vários protocolos de reabilitação para doentes submetidos a várias cirurgias ortopédicas. E depois da reabilitação após prótese da anca, joelho e do ombro, eis que estava eminente o nascimento do protocolo de reabilitação após artroplastia com balão subacromial!

 

Quem me conhece bem sabe que nada faz a camada muscular das minhas artérias contrair mais do que a descarga de adrenalina que ocorre sempre que a minha motivação está em alta! E na minha vida profissional as comportas da barragem da motivação abrem-se sempre com violência sempre que um grande projeto se começa a definir no horizonte.

 

Foi precisamente o que sucedeu com o projeto “reabilitação após artroplastia com balão subacromial”! Com a colaboração do serviço de Ortopedia, conseguimos então desenvolver um programa de reabilitação completo e adaptado às necessidades destes doentes que começaram a chegar ao nosso hospital.

 

E como um projeto tão interessante e (um trabalho tão entusiasmante!) não poderia ficar guardado na gaveta, decidimos levá-lo ao Congresso Nacional da Sociedade Portuguesa de Medicina Física e de Reabilitação e concorrer aos prémios. Para o conseguir era necessário redigir um artigo científico. Precisamente, a redação desse artigo era algo no qual vínhamos a investir já há algum tempo, num processo sempre moroso, bastante trabalhoso e com os seus inevitáveis contratempos.

 

Recordo-me das muitas tardes e até algumas madrugadas dedicadas a este projeto... E lembro-me em concreto da manhã a seguir ao Sporting vs Ajax para a fase de grupos da Champions League em Setembro de 2021. Tinha ido ver o jogo a Alvalade e na manhã seguinte troquei um passeio pela soalheira Lisboa pelos raios de luz emitidos pelo ecrã do portátil que levei comigo para concluir o artigo no quarto do hotel.

 

É preciso querer... e querer mesmo muito!

 

E a recompensa lá acabou por surgir. Nem sempre acontece, é por isso que a vitória, ou neste caso um terceiro lugar entre dezenas e dezenas de trabalhos a concurso, acaba por ser assim tão saborosa. É verdade! Este nosso projeto arrecadou uma Menção Honrosa para Melhor Tema Livre no Congresso Nacional da Sociedade Portuguesa de Medicina Física e de Reabilitação em Outubro de 2021!

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Agora volvidos mais de 3 anos desde a altura em que redigi este texto e nas vésperas de mais um Congresso Nacional, a minha vida é bastante diferente. Recordo-me dos vários projetos e trabalhos que desenvolvi ao longo do meu internato, das horas neles despendidas, do absoluto foco que dominou esses anos... A verdade é que hoje em dia a adrenalina já não corre no corpo como nesses anos... Encontro-me a navegar à deriva... A tempestade ora
me arrasta para um lado, ora me empurra para o outro... O barco não virou, mas o seu rumo também ainda não encontrou.

sábado, 15 de fevereiro de 2025

Memórias do Internato Médico - a instabilidade

A vida de um Médico Interno é pautada pela instabilidade. 

Em primeiro lugar, a esmagadora maioria dos colegas que fazem turnos nos Serviços de Urgência vivem numa tremenda instabilidade de horários. Há sempre aquela duvidazinha se vão estar livres no fim de semana em que os colegas com quem não estão há meses estão a combinar um jantar. Não conseguem saber se vão conseguir ir ao concerto que tanto desejam ir que terá lugar daqui a meio ano.

 

Depois, existe também a instabilidade da dúvida do dia seguinte. O dia seguinte à conclusão do Internato de Formação Específica, o tal dia a seguir a tornar-se Médico Especialista. Para onde ir a seguir? Permanecer na mesma instituição ou mudar de local de trabalho? Continuar em Portugal ou partir rumo à aventura do estrangeiro?

 

E no caso concreto dos Médicos Internos da minha especialidade, Medicina Física e de Reabilitação (MFR), que provêm de um hospital não central, existe aquela instabilidade da necessidade de realizar múltiplos estágios fora da sua instituição de origem, com tudo o que isso acarreta de bom e de mau. Não é fácil gerir a logística de encontrar casa para morar no novo destino, manter uma relação amorosa... Enfim, é desafiante!

 

E obviamente que tal instabilidade é maior nas instituições que gozam de menor idoneidade formativa, contudo, quando se chega ao 4.º ano de Internato de MFR é quase universal o êxodo dos Médicos Internos rumo aos Centros de Reabilitação. Tal passo formativo reveste-se de suma importância dado que permite ao Médico em especialização tomar contacto com a reabilitação diferenciada multiprofissional e multidisciplinar de adultos e crianças com AVC, lesões medulares, traumatismos encefálicos, doenças cardiorrespiratórias e neurológicas várias, entre muitas outras. Qualquer Centro de Reabilitação em Portugal oferece a maioria dos cuidados que os pacientes adultos necessitam, contudo, o 4.º ano de Internato é também uma grande oportunidade de conhecer a realidade dos vários centros do país e, como tal, não é raro os Médicos Internos fazerem um périplo pelas várias instituições. E os horizontes expandem-se!

 


Transcorrido já mais de meio ano desde que iniciei este percurso itinerante, posso afirmar que o balanço tem sido bastante positivo, mas também agridoce.

Comecei o ano no Centro de Reabilitação da Região Centro, o Rovisco Pais, rumei ao Centro de Reabilitação de Alcoitão, seguiu-se o Hospital de Santo António no Porto e agora vou completar o ano no Centro de Reabilitação do Norte, em Valadares. Procurei sempre dar o meu melhor nestes vários hospitais por onde tenho passado. O que tenho vindo a aprender e as relações de trabalho que tenho vindo a cultivar, só mais tarde vou saber dar o devido valor. As deslocações são difíceis, mas o que mais custa é a hora da despedida! Quando se alcança o ponto de rebuçado, no qual o trabalho começa a fluir como se já fosses parte da engrenagem, eis que o árbitro apita para o final da partida e chega a hora de rumar ao balneário, fazer as malas e rumar a outras paragens. Nem dá tempo para nos fartarmos! E às vezes a saudade toma-nos de assalto. Tenho saudades de todos estes sítios por onde tenho passado. Tenho saudades do hospital onde comecei o Internato. Tenho saudades da cidade que é minha e ao mesmo tempo nunca o foi...

 

É por isto que quando paro e nos deito na espreguiçadeira ao sol, às vezes começo a imaginar que seria bom a vida ser um jogo de PlayStation.


Daqueles videojogos mais modernos em que a história principal assume já a complexidade de se poder seguir vários caminhos e chegar a diferentes finais consoante as escolhas que se forem fazendo à medida que o jogo se desenrola.


Se eu pudesse, gravaria o jogo no momento imediatamente antes da primeira grande decisão e, a partir daí ia jogando em direção a um dos desfechos. Jogava, jogava, jogava até chegar ao fim. Ou me fartar. E depois fazia loading no save primordial e, voltando ao início rumaria agora noutra direção. E mais uma vez faria tudo para alcançar o 100%. Faria todas as missões secundárias, recolheria todos os hidden gems... e no final, talvez regressasse uma vez mais ao momento inaugural... e se as forças ainda mo permitissem, se a ambição ainda me impulsionasse, voltaria a recomeçar tudo outra vez, em busca doutro final distinto.



Nota: A versão inicial deste texto foi redigida em Setembro 2022, quando me encontrava no 4.º do Internato de MFR. Na altura estagiava no Centro de Reabilitação do Norte e estava desde o início do ano fora do meu hospital de origem, o então denominado Centro Hospitalar de Entre o Douro e Vouga. Este texto ficou esquecido vários anos na gaveta e decidi agora publicá-lo. Mantém-se perfeitamente atual, de tal modo que não necessitei de alterar o conteúdo.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Agora não me apetece estudar!

Há uns tempos atrás perguntaram-me qual é a qualidade que eu possuo que me permitiu ter sido um aluno de sucesso ao longo dos vários e vastos anos do meu percurso escolar e académico. Depois de alguma reflexão, na qual batalharam diversos atributos que poderão ter sido importantes, aquele que no final ergueu o punho cerrado em sinal de vitória foi a consistência.

A consistência.

 

A consistência de na primeira tarde livre de cada período escolar fazer logo os tpcs para não deixar as tarefas acumular. 

 

A consistência de começar a ler o livro de Biologia e Geologia com uma semana de antecedência da data do teste. A consistência de o ler religiosamente todos os dias deitadinho no sofá e nos intervalos ligar a PlayStation e jogar uma partida de PES (sim, eu ainda sou do tempo em que o PES era o rei) para descansar a mente. Jogar só mais uma partida e ser capaz de desligar a PlayStation. E pousado o comando, pegar logo no livro de História e passar para a preparação desse outro teste que ia ter na mesma semana. Quando era à base de decorar, era esta a minha consistência.

 

Quando se tratava da Matemática, da Física ou da Química, aí a conversa era outra. Não havia cá lugar para sofás, a consistência era estar sentado à secretária a fazer exercícios e mais exercícios para treinar o raciocínio.

 

E a covinha do sofá, moldada ao longo da escolaridade obrigatória, ficou praticamente aliviada quando cheguei à Faculdade. Aí a sala de estar teve de ser trocada pelo sossego e isolamento do escritório. Nesses anos, tudo foi construído sentado naquela secretária de madeira firme rodeado de estantes de livros e enciclopédias que criavam um ambiente intelectual, a olhar de frente para uma parede que iria receber os pósteres do Sporting vencedor da Taça de Portugal em 2015 e da seleção campeã europeia de futebol em 2016. Muitas horas a estudar as Anatomias, as Fisiologias, as Farmacologias, as Propedêuticas, as Cirurgias, as Psiquiatrias, as Nefrologias e claro, os capítulos do Harrison para o exame de acesso à especialidade.

 

Tudo isto enquanto a azeitona se apanhava da oliveira que se habituou a olhar-me através da janela do escritório, a ver-me absorvido em livros, apontamentos e no computador ao longo de 6 longos e preenchidos anos de estudo universitário. Uma oliveira para a qual eu me encontrava de costas, verdadeira imagem do que foi a minha vida ao longo dos anos da Faculdade. Foco e compromisso totais para com os objetivos traçados! Uma quase total alienação do mundo lá fora ao longo desse piscar de olhos que constituía os arrastados 10 meses de extensão de cada ano letivo.

 

Sabem, é irónico...

 

É muito irónico de facto. Durante a faculdade, em tom de brincadeira (mas uma brincadeira a sério), o meu pai chegou até a questionar-me como é que eu conseguia passar os sábados inteirinhos sentado na cadeira do escritório a estudar. É mesmo irónico... Hoje sou eu que me questiono como o logrei fazer. É mesmo muito irónico... Hoje sou eu quem já não o quer fazer!

 

Mas não me entendam mal. Não estou arrependido!

 

Não estou arrependido de ter dado tudo nos 12 anos de escolaridade básica e secundária que me permitiram alcançar o respeito dos meus pares e dos meus mestres.

Não estou arrependido de ter dado tudo nos 6 anos de ensino universitário que me permitiram ser Médico.

Não estou arrependido de ter dado tudo no ano que passei a preparar o temido e desafiante “Harrison”, que me permitiu aceder à especialidade que queria.

 

Não me entendam mal. Não estou arrependido!

 

Simplesmente cumpri com a missão para a qual fui criado: ser uma "máquina" de sucesso nos estudos.

 

Nunca tive de ser o melhor, mas tive sempre de deixar a pele em campo. Enfim, mais que tudo, tinha de haver a tal atitude que o atual treinador do Sporting referiu na sua conferência de imprensa de apresentação. E foi isso que fiz. Estudei muito, muito mesmo... Li e sublinhei intermináveis calhamaços dos quais extraí conhecimento que pouco ou nada emprego hoje em dia no meu trabalho. Mas não estou arrependido. O verdadeiro objetivo não era retirar ensinamentos para o meu trabalho futuro. Pasmem-se. A autêntica meta era “ganhar”, era obter um bom resultado na seguinte prova escrita, no próximo exame oral.

 

Mas hoje duvido que o conseguisse tornar a fazer.

 

É verdade que voltei a provar um bocadinho da minha antiga receita de sucesso quando há um ano me encontrava a estudar para o exame final para obtenção do grau de Médico Especialista em Medicina Física e de Reabilitação. Deu para matar saudades daqueles meses inteiros de foco total para com o alcançar do saboroso objetivo, para com o cumprir daquela utopia de levantar a taça e dar a gloriosa volta olímpica ao estádio.

 

Mas fiquei cansado. Fiquei muito cansado.

 

E ainda estou.

 

E mesmo eu, que um dia, logo no início do meu primeiro ano de trabalho como médico, escrevi uma crónica onde fiz a apologia do estudante profissional, tenho de admitir que agora tenho dúvidas, que agora talvez esteja mudado...

 

Tenho de admitir que estou cansado.

Que agora não é hora de estudar.

Que agora não me apetece mesmo estudar!