sábado, 14 de março de 2020

As lágrimas da quarentena

Há 100 anos atrás, o mundo saído da Primeira Grande Guerra debatia-se com a emergência da Gripe Espanhola, doença que vitimou 5-10% dos 500 milhões de pessoas que foram afetados por todo o mundo. Já a nossa geração teve a sorte de apenas experienciar uma pequena amostra da capacidade pandémica destes vírus Influenza H1N1 quando, em 2009, teve de enfrentar a Gripe Suína. A tal que nos pôs a todos a desinfetar as mãos com soluções alcoólicas e a acorrer às farmácias em busca de Tamiflu®.

Agora, 100 anos mais tarde, a nossa geração está perante um grande desafio. A luta é contra um Coronavirus, microrganismo que se tornou rei num mundo dominado pela pandemia das doenças não-comunicáveis. A obesidade e a diabetes eram globalmente os principais desafios de Saúde Pública até Dezembro de 2019. Mas agora isso pouco importa. Comprem bolos, chocolates ou até refrigerantes... Isso agora pode esperar. O mais importante é que se abasteçam e se fechem em casa!

É isso mesmo. Stay the fuck homeFiquem em casa! É este o nome do movimento lançado pelo  jovem empresário de Frankfurt Florian Reifschneider para chamar à atenção da importância de todos (todos mesmo!) respeitarem a quarentena social voluntária que poderá conter a disseminação da doença COVID-19.

Home. Lar. Estas últimas semanas não têm sido nada fáceis. Se por um lado como médico tenho de aplaudir as medidas extremas tomadas para tentar travar esta nova infeção, por outro, como ser humano que possui um coração sensível às catecolaminas da emoção, não posso ficar indiferente à tristeza que este isolamento social está a votar as nossas famílias.

Não o posso ignorar. Não posso ficar indiferente quando vejo uma filha chorar pelas saudades que tem da sua mãe. Saudades motivadas pela recusa em vê-la na nobre esperança de a poupar a uma possível doença que nem sabe sequer se é ou não portadora.

Enfim, começo seriamente a temer que este novo Coronavirus não nos vai apenas vitimar de dificuldade respiratória. Esta COVID-19 também nos vai fazer sucumbir de asfixia mental! Temo não só pela saúde física dos afetados, mas sinceramente o que me preocupa ainda mais é a emergência de comportamentos discriminatórios para com os outros. Encerrem-se as fronteiras físicas, não as fronteiras psicológicas!

Bem, nós cá por casa já deixamos de visitar os meus avós. O almoço de domingo na casa de uns e o jantar na casa dos outros está suspenso! E não foi apenas agora que o próprio Governo assim decretou. Foi já no fim de semana anterior que tomamos esta decisão. Afinal, tratam-se de idosos, já com as suas doenças crónicas, enfim o terreno propício para a letalidade de uma qualquer infeção respiratória mais complicada. Só que esta COVID-19 tem o condão de se espalhar mais que as enfermidades que já ganharam o rótulo de sazonais. E quanto mais se propagar, mais pessoas poderá matar! É por isso que vejo com muito bons olhos as novas medidas de contenção tomadas esta 5.ªfeira. Só que estas têm um custo... E esse custo é a tristeza! No outro dia ainda vi o meu avô, mas foi através dos quadradinhos de uma janela. Parecia que estávamos ambos presos. Um fechado no interior de casa. O outro preso cá fora, onde os vírus andam à solta. E eu que ando no meio da pior da bicharada todo o ano, tenho de ser ainda mais responsável!

E a responsabilidade não é só minha, é de todos nós! TODOS NÓS!

Por mais que me custe (e se custa!) ver a minha mãe chorar por ter saudades da minha avó, quando esta ainda está viva, ela própria tem consciência que esta é uma medida a pensar no bem-estar da minha avó, da avó do meu amigo Bruno e da avó do doente que na 2.ªf vou ter à minha frente.

Por isso: STAY THE FUCK HOME! FIQUEM EM CASA!
Vamos lá controlar isto depressa para podermos todos (TODOS!) voltar a ser felizes!

sexta-feira, 6 de março de 2020

Aquele eterno frenesim

E agora o que é que eu vou fazer? Quando o bilhete de identidade diz ter chegado a hora da Reforma, alguns malucos chegam a desesperar por não se imaginarem a fazer outra coisa que não o ofício de sempre. Porventura, o arquétipo desta paixão será o falecido cineasta Manoel de Oliveira, que apenas deixou a realização quando faleceu aos 106 anos de idade! Na área da Medicina recordo os exemplos dos enormes Gentil Martins e Linhares Furtado, cirurgiões que ficaram ligados a dois feitos assinaláveis em Portugal: o primeiro liderou a primeira separação de gémeos siameses portugueses, o segundo conduziu o primeiro transplante renal em terras lusas. E ambos continuaram a sua atividade bem para lá da hora em que as mãos já lhes começavam a tremer, nessa altura “apenas” dando consultas. No nosso município, temos outro caso, o do obstetra Artur Coimbra, que, depois de ter trazido muitas crianças para fora da barriga das mães de Penacova, por cá continua a dar consultas. 

Todos estes exemplos são mais ou menos famosos aos olhos do grande público. No entanto, há outros casos de eterna paixão pelo ofício que, tendo passado anónimos ao escrutínio mediático, merecem o devido reconhecimento daqueles que tiveram o privilégio de os testemunhar. A propósito disso, há cerca de um mês atrás, teve lugar um dos maiores tumultos a que a minha terra natal assistiu nos seus largos séculos de existência. Nunca antes por cá tinha visto tamanho corrupio de gente nem semelhante desfile de viaturas como no funeral do Sr. Alberto “Chupinhas”!

A grande maioria dos penacovenses decerto se recordará desta ilustre figura do Terreiro de Penacova. Taxista há larga dezena de anos, Alberto “Chupinhas” prolongou a sua atividade até à bonita idade de 88 anos! Até a “doença prolongada”, termo que os jornalistas costumam empregar para designar a enfermidade genericamente conhecida como “cancro”, o obrigar a reformar de vez em novembro de 2019, o dono do Táxi “Chupinhas” todos os dias bem cedo se levantava para correr a estacionar na Praça pelas 8 da manhã. Não é para todos! O homem era conhecido pela cautela com que dirigia a sua viatura, o que, se por vezes irritava os apressados que se viam obrigados a marcar passo atrás do taxista, na verdade lhe garantiu uma carreira sem acidentes dignos de registo! É obra! Sobretudo para quem percorreu o país de lés a lés ao volante do seu táxi!

Alberto, mas eu não te disse para desligares o telemóvel!!!, foi a frase enfurecida que nos habituámos a ouvir da boca da sua esposa quando o telemóvel lá teimava em interromper um qualquer almoço de família e fazia o homem abalar a todo o gás rumo a mais um serviço. Fosse para Trás-os-Montes ou para o Algarve, de manhã cedo ou pela noite dentro, os serviços de táxi eram a única coisa que faziam largar o tacho a este homem que sempre foi um bom garfo. Até bom demais! E quando muitos se mostravam melindrados por ver o Ti Alberto “Chupinhas” abandonar a meio uma Festa da Ponte, eu, por outro lado, sempre vi nisto algo de incrivelmente fascinante! É que ver um homem de 70 e tal anos, de 80 e tal anos, levantar-se assim todo apressado, qual médico chamado para atender a uma emergência, sempre constitui para mim algo de verdadeiramente assombroso!

Deixem andar o homem!, era o que eu dizia. É que, afinal, enquanto ele andar, é uma alegria! E foi uma imensa felicidade vê-lo neste incrível frenesim quase até ao dia em que a água lhe benzeu o rosto na hora da despedida. Nesse dia, por entre lágrimas, contaram-se estórias, como aquelas vezes em que o compadre Alberto no seu trajeto para casa largava um cliente e nada lhe cobrava por precisamente... lhe vir em caminho.

E só agora, passado pouco mais de um mês do dia em que ajudei a carregar o caixão do falecido “Chupinhas”, é que me apercebo do quão parecido sou eu com este taxista que Deus me deu a conhecer como avô.

Aquele seu frenesim quando recebia um serviço, o modo precipitado como largava tudo para trás para ir abraçar a sua grande paixão, conduzir, faz-me agora recordar das vezes em que eu próprio corro a me alhear de tudo, magicamente encerrado no mundo do meu escritório. Fechado no mundo dos estudos, libertado no universo da escrita... Sem sábados, domingos ou feriados, desde o passado da escola até ao presente da profissão. Raramente por obrigação, quase sempre por paixão!

Amanhã falamos.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

E a Primária já foi há 20 anos! – Parte 2

“Não me obriguem a zangar-me com vocês logo no primeiro dia!”

Foi a recordação melancólica do primeiro raspanete coletivo com que foram presenteados duas dezenas de infantes naquele setembro de 1999 que me levaram a eternizar estas memórias. No entanto, não se pense os tempos de Primária se resumiram às punições e ao clima de medo! Que não se pense que o ensino old school (literalmente) era todo ele mau. Não, antes pelo contrário! É que cá em Penacova tivemos a oportunidade de nos desenvolvermos não só no campo intelectual, mas também a nível físico... e a céu aberto!

Fora do ambiente aprisionante a que os “Mega Agrupamentos” votaram as antigas escolas Primárias, os nossos 30 minutos do Intervalo Grande eram quase sempre passados num enorme retângulo de cimento com 2 balizas e linhas brancas a caiar o terreno de jogo. Muitos duelos históricos tiveram lugar nesse recinto. Os clássicos “terceira contra quarta” ou “avançados contra defesas” anunciados pelo imberbe cuja voz mais alto emergia do túnel formado pelas mãos juntas em concha à saída da boca. E as raparigas não eram excluídas! Ainda me recordo de algumas craques que deixavam muitos moços para trás, com os olhos pregados no chão à procura dos rins, como o Vítor Baptista um dia buscou o tal brinco (embora para eles, naquela altura, rins não passariam provavelmente dos bolos calóricos que tínhamos o prazer de comer religiosamente uma vez por semana, às quartas-feiras se não a memória não me atraiçoa).

E nas imediações desse campo de jogos, para lá de uma das balizas, encontrava-se igualmente mais um marco da Natureza, um sóbrio pinhal que acabava por separar os dois blocos escolares que compunham a antiga Escola Primária de Penacova e constituíam gigantes testemunhas das sucessivas gerações que por lá passaram. Aproveitando o intervalo mais prolongado proporcionado pela hora de almoço, não raras vezes explorávamos o mistério escondido por entre a penumbra dessas árvores, enquanto as mesmas resistiram à fúria mecânica das motosserras que um dia as derrubaram.

Tivemos também a oportunidade de participar ativamente numa das grandes celebrações cujo passar dos anos tem vindo a matar, verdadeira e irónica metáfora, não fosse de “queimar o Entrudo” aquilo a que me refiro.

Além disso, numa altura em a tecnologia ainda não havia assumido total controlo do dia-a-dia, como um simbionte que se ia apoderando da outra espécie, tivemos a chance de aprender a manejar um computador de secretária e inclusive de construir um site na Internet. E não, não precisamos de ir a Lisboa para fazer isso!

Não há como esconde-lo. Muitos dos métodos de ensino da antiga Primária estão hoje ultrapassados. O mundo mudou, as pessoas mudaram. A realidade é já definitivamente tecnológica e não podemos ficar para trás. As crianças nascem agora com um tablet nas mãos tal como eu nasci com o rato do computador de secretária numa mão, mas ainda com o livro na outra...

Tudo tem a sua beleza, mas para mim nada mais belo há que a memória daquele parque de estacionamento onde o meu avô, o meu pai e eu aprendemos e brincámos...

domingo, 9 de fevereiro de 2020

E a Primária já foi há 20 anos! – Parte 1

“Não me obriguem a zangar-me com vocês logo no primeiro dia!”

Todos nós temos uma recordação do primeiro dia de escola. Esteja ela ainda viva como a sensação de novidade que uma criança traz para casa quando aprende pela primeira vez a dizer o alfabeto de trás para a frente ou já mais apagada como as páginas gastas de uma sebenta tantas vezes folheada, todos nós temos um evento que lembramos desse dia único.

“Não me obriguem a zangar-me com vocês logo no primeiro dia!”

Há anos esta frase me vem à cabeça. A sua Autora, infelizmente, já partiu. Tendo falecido andava eu ainda no 5.º ano, a Senhora Professora não poderá esclarecer as circunstâncias que A levaram a ameaçar a turma naquela manhã de setembro de 1999... mas com certeza que deve ter sido por algum frenesim coletivo, vulgo barulho, que, entretanto, se instalara. O que é certo é que todos ficamos em sentido! Todos ficamos a perceber, em escassos minutos, que a Senhora Professora Natália era uma mulher que impunha respeito... mas também muito medo!

A propósito desses 20 anos que já passaram, recordava com alguns dos presentes nesse dia, amigos para a vida, outros episódios que ajudaram a sedimentar o fóssil educativo que aqueles que passaram pela Escola Maria Máxima na viragem do século puderem ainda vivenciar. Era um ensino “à antiga”. Uma educação baseada na repressão verbal e física. Na tabuada dos 8, 8x7 ou era igual a 56 ou a um valente puxão de orelhas! Se fizéssemos muito barulho, o castigo seria escrever 100 vezes em casa “Não vou fazer mais barulho nas aulas”. E se viéssemos com as sapatilhas ou sapatos sujos do recreio, o que perigosamente sucedia em dias de chuva em que teimávamos em dar uns toques na bola, habilitávamo-nos a levar uma valente reprimenda caso o calçado não passasse na inspeção obrigatória antes do regresso à sala de aula!

Tendo sido sempre dos mais bem-comportados, aquilo a que chamamos um “santo”, alturas houve em que inevitavelmente “caí do altar”. Talvez a mais marcante de todas seja uma que demonstra bem o poder da Autoridade que dominava e governava todo o ambiente da sala de aula. Tão asfixiante chegava a ser tal Presença que ainda hoje julgo que até os raios de sol pediam licença para entrar antes de timidamente se imiscuírem através da transparência das vidraças da sala. Bem, não dispersando como fazem os raios de luz ao atravessar a interface entre dois meios diferentes, existia, então, numa mesinha junto à parede dessas vidraças uma buzina em forma de corneta. Na ausência da Senhora Professora, já tinha visto um ou outro colega ir lá apertar a pera da buzina, fazendo emitir um som característico que ecoava pela sala inteira. A imagem daquela buzina, ali tão placidamente pousada na vertical, com a boca da corneta a beijar o tampo da mesa velha como as ventosas da lampreia se colam à parede de um tanque, fazia crescer em mim a vontade entrópica de ir lá tocar. E num momento da aula em que andávamos a fazer trabalhos em grupo e a Senhora Professora estava de pé a tirar dúvidas a uma aluna, não consegui aguentar mais e a serpente disfarçada de inquietude de petiz me fez ser Adão e apertar o fruto proibido. O som não saiu forte à primeira, pelo que, insatisfeito, fiz uma segunda tentativa. Desta feita, o gritante ressoar da pera sufocada no interior da minha mão direita cerrada com toda a força, ao alcançar os ouvidos da Senhora Professora, de imediato Lhe retirou a atenção do caderno que a aluna mostrava, fazendo-A automaticamente elevar o rosto em direção à fonte daquele barulho que tão bem conhecia. E de forma tão instantânea como a luz surge de uma lâmpada quando ativamos o interruptor, a expressão da Senhora Professora ganhou aquele tom carregado e fechado, com o brilho a sair-Lhe dos olhos como flechas flamejantes e um inclinar de cabeça que significaria um valente par de estalos caso este infante não estivesse protegido por duas ou três secretárias de distância, que nessa hora constituíram muralhas mais altas do que as da China!

Era este o poder da Saudosa Senhora Professora Natália!

Era este ensino o autêntico fóssil vivo numa sociedade que já começava a dar sinais de retirar autoridade e prestígio aos docentes.

Era esta forma de aprender a última folha dos modelos educativos que vigoraram durante séculos... a derradeira linha das lições que o meu avô e o meu pai tiveram, na mesma escola, sentados com os cadernos pousados nas mesmas carteiras que naquele dia me protegeram de um valente par de estalos.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Pumping Harrison - Homenagem a um exame extinto

Numa altura em que se vai realizar a nova Prova Nacional de Seriação (PNS), muitas são as memórias que me vêm à cabeça. Recordo a minha altura. Recordo que no verão de 2017, na preparação para o infame Harrison, o exame final que permitia ao recém-médico candidatar-se a uma vaga de especialidade em Portugal, descobri a obra prima que mudou para sempre o panorama do culturismo a nível mundial. Pumping Iron. O documentário de 1977 que lançou Arnold Schwarzenegger para a ribalta e que tornou o fitness mainstream. E a verdade é que descobri que a preparação para uma prova de culturismo apresenta terríveis e interessantes similitudes com as exigências impostas pelo Harrison.

Quaisquer que sejam os métodos de estudo, todos acabam por se encaixar em duas grandes fases: o bulk e o cut.

Sim, tal como numa prova de culturismo, existe uma primeira fase em que se acumula conhecimento. Começando pela exploração do texto, esta fase compreende perceber o que se tem de estudar, o sublinhar, o fazer resumos etc. O número de voltas à matéria que isto pode durar é altamente variável. No meu caso foram 2 a 3 voltas. A primeira foi no acompanhamento das aulas da Academia da Especialidade, uma das instituições que prepara os recém-médicos para a prova. Os culturistas também demoram muito tempo (anos!) a construir uma massa muscular sólida, mas inevitavelmente tapada com uma quantidade variável de massa gorda. Quando pretendem entrar na disputa de uma competição chega o dia em que o foco tem de virar do crescimento para a definição.

Depois de erguido o edifício do conhecimento, depois de preparado todo o material de estudo, eis que chega a segunda fase do Harrison. É tempo de acelerar o estudo, é chegada a hora de aumentar o número de páginas voltadas por dia, o número de capítulos lidos por semana... Agora o importante é aumentar o número de repetições, séries e intensidade dos treinos para secar glóbulos de gordura e assim alcançar a máxima separação muscular e a mais perfeita das simetrias. Agora o importante é passar os olhos o maior número possível de vezes pela matéria para que no dia do exame, quando aquela frase surgir, nós a reconhecermos como verdadeira ou falsa.

Os sacrifícios exigidos para se ter sucesso são enormes! No culturismo e no Harrison. Quando se entra na fase do cut, o corpo sofre uma agressão de tal ordem que chegamos a ficar demasiado cansados para conseguir sequer dormir! Ficamos irritados, perdemos a vontade de estar com os amigos, a libido vai desaparecendo... Ou temos a visão do corpo que vamos ostentar no dia da competição, ou temos a visão da nota que vamos tirar no dia do exame, ou conseguimos fechar os olhos e ver-nos a levantar o nosso troféu ou... vale mais nem sequer começar!

Seja no culturismo, seja no Harrison.

Nem todos aguentam a pressão. Há quem sucumba à loucura. Há quem tenha de recorrer a fármacos para manter o ritmo, há quem tenha de recorrer a medicamentos para se manter são!

Isto não é para todos. Não é para quem morre afogado no próprio choro, é para quem consegue enfrentar a forte corrente que quase faz virar o navio!

Harrison foi das experiências mais marcantes da minha vida. Desgastante. Excitante. Não recordo outro período da minha vida adulta em que tenha estado tão focado num só e único objetivo. Nada mais interessava. Era adormecer com a classificação que ia ter na mente. Era acordar, comer e pôr-me novamente a construir essa nota. Dia após dia. Um ano completo de dedicação. 4 meses de estudo intensivo. 4 meses de puro egoísmo. Estudar sozinho. Estudar em grupo. Desafiar os colegas de estudo para elevar o nível. Ser desafiado. Dizer "não" aos outros amigos, aos cafés, às jantaradas...

Querer não basta, é necessário fazer! Por isso, boa sorte a todos os que se dedicam de corpo e alma aos desafios da vida e, em particular, aos que agora vão enfrentar a nova PNS!

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

O brilho daqueles olhos

Se algum dia juntarem escritores, dramaturgos, realizadores e artistas numa conferência e lhes pedirem que nomeiem a temática que mais linhas fez escrever, peças fez ensaiar, películas fez filmar ou canções fez cantar, estou seguro de que a resposta será consensual: a Paixão.

Paixão é deveras Santo Graal de todos os sentimentos. Sabemos que existe, às vezes andamos uma vida inteira no seu encalce, muitas vezes morremos sem a desenterrar, mas para muitos de nós é aquele combustível que nos faz viver. Não estou a reduzir essa imensa chama a apenas um amante, não. O romantismo não se queda na sua aceção mais literal. Refiro-me sim a todas as coisas que fazem o nosso coração bater mais depressa, às que nos fazem esquecer tempo e espaço e perder no estado de desorientação mais orientado que existe neste mundo!

Esta busca pela Paixão por vezes é tão cega que quase a deixamos passar incógnita pela nossa porta. Recordo-me deste ano estar num grande festival de verão na nossa capital. No já cinzento da memória, a negritude do céu faz-me supor que talvez já fosse o concerto de Tom Walker ou de Bon Iver, quando próximo do final da atuação é projetada nos ecrãs gigantes das laterais do palco uma imagem que me ficará para sempre. Era o retrato de um rapaz bastante entusiasmado com o concerto, de olhos focados em frente em direção ao artista principal, ladeado para uma jovem que o mirava de baixo. E os olhos daquele belo rosto feminino brilhavam. Ai se brilhavam! E brilhavam mais intensamente que qualquer luz ondulante de telemóvel que nesse momento se encontrasse acesa no ar. Durante meros três segundos, os mais atentos puderam ver como cintilam os olhos apenas por estar preenchidos pela sua Paixão,
num ambiente em que a sonoridade dos versos espalhava um clima de romantismo. 

Claro, isto foi apenas um momento, um instante, um screenshot de todo um filme que só os protagonistas saberão (um dia?) como irá terminar. Porque não nos deixemos enganar: Paixão, Amor... toda essa montanha-russa de emoções está fora do nosso controlo! Materializar as Paixões de uma vida é o décimo terceiro trabalho de Hércules. Os anos inexoravelmente passam e chegará o dia em que adormeceremos embalados por uma sensação aconchegante no coração... um sentimento belo, mas que nessa altura saberemos que nunca se irá concretizar! Quando esse dia chegar, será sinal de que já teremos vivido muito e sofrido outro tanto. Quando esse dia chegar, já teremos aprendido o verdadeiro e único segredo para viver em Paixão eterna: não é lutar incessantemente para ela nunca se apagar, é sim aquecer o coração na lareira enquanto essa chama durar!

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Selvagem

Há uns dias atrás, uma amiga minha perguntou-me: Gonçalo, por que é que não mandas as tuas crónicas para uma revista?

A resposta foi imediata e taxativa: porque quero manter-me selvagem!

Sim, selvagem. Como um felino à solta. Afinal, qual é a beleza de um gato de apartamento? Aquela ronronante lassidão encanta, mas é enfadonha ao pé dos olhos aguçados e orelhas em riste do predador que mira a presa acabada de pousar no relvado.

O felino selvagem faz as suas regras. Quando se escreve para um órgão público, somos inevitavelmente sujeitos ao escrutínio, que pode mesmo chegar a roçar uma moderna forma de censura, apelidado de “processo de revisão”. Ora, o único lápis azul que quero ver a riscar o que escrevo é o lápis do tempo. Do meu tempo! O lápis daquele distanciador lapso temporal a que Fernando Pessoa um dia chamou “intelectualização” e que é capaz de transformar a maior das criações na mais banal das redações.

Criações... redações. Sim, às vezes faço desta espécie de rima. Aceito a crítica. Por vezes, caio na teia dos jogos de palavras, nessa forma tão rendilhada de tudo escrever e nada dizer. Escrever... dizer. Nisso sou como o pior dos cegos e vou continuar a querer não ver, porque às vezes escrever é simplesmente fazer sexo com as palavras em cima da mesa do escritório. A tarde toda!

É verdade, toda esta silenciosa algazarra contrasta com o meu restante percurso de vida. Se há inteligência no que alcancei (já nem me lembro bem...) foi a de reconhecer que teria de trabalhar a dobrar para lá chegar. E uma vez reformado dessa vida e com outra constantemente solicitando algum desse saudoso empenho, para quê juntar mais uma obrigação quando simplesmente se pode cultivar uma paixão? É que também existe beleza no futebol de rua e no jovem talento que nunca passou disso mesmo.

Há quem diga que os escritores possuem uma imensurável riqueza de vida interior, quase sempre exponencialmente maior que a mundana existência que os olhares que se cruzam consigo lhe conhecem. A inquietude é típica. Ser assolado por uma ideia, um pensamento, uma frase, um conjunto de palavras quando se tenta adormecer... e ser obrigado a levantar da cama e escrever... escrever, escrever e escrever até a ideia ficar gravada, a maturar, enquanto o corpo do seu mensageiro finalmente pode repousar. É verdade: não há tarefa, obrigação ou prazo que possam fazer parar a força rasgante de um desatino, aquela necessidade de enjaular uma ideia, de atirar com toda a força o livro ao chão para matar o pensamento serpenteante.

É precisamente essa selvageria desconcertante que me faz continuar a escrever, até porque tenho que confessar: nunca tive grande jeito para sorrir nem para correr feiras em beijos e abraços. Escrever uma crónica é fazer entrar em ebulição o sangue que circula no corpo, derreter um coração que vive congelado num rosto fechado e, assim morrer esvaído em palavras derramadas numa folha de papel. É renascer e voltar a morrer. Vezes e vezes sem conta. Tão selvagem quanto isso!