segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Vícios Pandémicos

Quando a Pandemia Covid-19 obrigou grande parte da população mundial a suspender as suas vidas e refugiar-se em casa, muitos foram os que aproveitaram a forçada clausura para dar largas às paixões que o exigente calendário do dia a dia tantas vezes não permite cultivar. Outros, inclusive, aventuraram-se por terrenos desconhecidos e até houve quem desse uma volta de 180º à sua rotina e partisse para um novo ofício, mais bem-adaptado ao “novo normal”.

Estou-me a referir tanto àqueles que retomaram a pintura, como aos que começaram a fazer pão, e aos corajosos que trocaram o emprego condenado ao fracasso pelo vírus pelos novos mundos das profissões digitais.

 

Fruto da minha profissão, não pude ficar em casa. E como tal, não, não foi no lockdown 2020 que finalmente escrevi o tal livro (um dia hei de cumprir essa ambição!). O meu vício pandémico foi mais ocioso. E também não, não subscrevi a Netflix. Confesso que a maioria das séries não me atrai. Sou mais de filmes. Em 2 horas está visto. Contudo, não sei o que me deu, mas decidi voltar à pré-adolescência, e voltar a ver wrestling em força.

 

Sim, leram bem: o meu vício pandémico foi o wrestling! Passada uma semana após o encerramento geral subscrevi o WWE Network para voltar ao vício dos velhos tempos. A WWE Network é a plataforma de streamingda maior organização de luta livre mundial. A Netflix do wrestling, portanto. Esta enorme base de dados contem, não só todos os principais eventos que decorrem durante o ano, como também vídeos que remontam aos anos 70 do século passado. Um autêntico santuário de conhecimento para os apaixonados por esta tão polémica e controversa forma de desporto/“entretenimento desportivo”, que no nosso país viu o seu expoente máximo de popularidade ser atingido entre 2005 e 2008. Nessa altura bem me lembro de ler o livro "Bem-vindo ao Mundo do Wrestling", no qual o locutor da Rádio Comercial, Diogo Beja, confessava que a sua paixão de menino pela luta livre também tinha estado hibernada durante muitos anos...

 

Se ainda hoje, ano e meio volvido desde o começar deste período tão singular das nossas vidas, o vírus não para de encher os noticiários, então recordem-se do que era o nosso dia a dia nos primórdios da pandemia. É que já me não chegava o Covid todo o dia no trabalho, era só o que mais faltava ter de continuar a levar com o vírus também em casa através do ecrã de uma televisão que me vi forçado a ver longe da família durante quase 2 meses! Assim, dia após dia, privado da beleza “escarpante” dos montes e vales da minha terra, Penacova, confesso que me fartei. E então, nos ecrãs do meu televisor e computador, onde outrora o noticiário era rei, passou apenas a dar wrestling. Foram torradas com wrestling, foi bife de perú com wrestling, foi bacalhau com wrestling! Sempre que podia, digitava “wwe network” no Google e lá escapava eu para esses tempos de menino há muito idos. E mais, pude finalmente viver o aparecimento dos grandes lutadores que eu já conheci maduros. Vi o errático Rocky Maiviatransformar-se no carismático Dwayne The Rock Johnson. Vi o insosso Ringmaster evoluir para o icónico Stone Cold Steve Austin. Vi todo o ano de 1997 da WWE, o ano da metamorfose que trouxe o wrestlingdo passado para o modelo que conheci no final de 2005, quando, ainda um miúdo de 12 anos, decidi pela primeira vez sintonizar na SIC Radical para ver Jonh Cena, Shawn Michaels, Triple H e Kurt Angle no Monday Night Raw.

 

Enfim, revivi muitas coisas e sobretudo descobri outras mais. E se, durante uma década a paixão pelo wrestling esteve, sem dúvida, adormecida no desinteresse em que esse espetáculo para mim se havia transformado, a verdade é que, ao subscrever a biblioteca digital da WWE, pude voltar a ser feliz ao apreciar com outra maturidade esta magnífica forma de desporto/”entretenimento desportivo”.


Cada um teve o seu vício pandémico. O meu not guilty pleasure foi o wrestlingQual foi o vosso?

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Os 5 Violinos e a Demência

Senhor António, recorda-se daquelas 3 palavrinhas que lhe pedimos para decorar há uns minutos atrás?

Infelizmente, as consultas dos Médicos de Família, Neurologistas e Fisiatras estão repletas de pessoas que, ainda bastante autónomas, já não conseguem recordar estas tais 3 palavrinhas mágicas, um pequeno indiciador de uma demência em início.

Como assim, perda de memória!? Senhor Doutor, olhe que ele ainda sabe os Reis de Portugal todos de trás para a frente!

Pois, nós bem sabemos que o senhor António ainda sabe isso tudo. Algo que sempre fascina quem se senta do outro lado da secretária é a forma como a demência tende a afetar primeiramente as memórias mais recentes, preservando as mais antigas. É bastante comum encontrarmos pessoas que não conseguem recordar o que tomaram ao pequeno-almoço, mas ainda sabem os pratos de carne e de peixe que almoçaram 30 anos antes, no dia do casamento do seu filho.

Na verdade, esta é uma das características mais marcantes da demência, um nevoeiro que se vai lentamente adensando, escondendo memórias e fazendo regressar aos poucos à infância, até ao ponto em que olhamos para a nossa neta adulta e lhe chamamos “mãe”.

No outro dia, apanhei um doente assim na consulta. Calhou em conversa descobrirmos a paixão em comum pela grande potência desportiva chamada Sporting Clube de Portugal. Mal eu disse que também era do Sporting (ainda por cima sócio e tudo!), o senhor lança-me uma pergunta fatal: Se o Doutor é mesmo sportinguista, tem de me dizer os nomes do 5 Violinos! O meu rosto de aluno a quem se lhe acaba de dar uma branca em pleno exame oral foi oportunamente disfarçado pela máscara (o jeito que ela dá para quem facilmente cora de vergonha!), mas o bloqueio não passou. Na breve fração de segundos que mediou a pergunta à minha incompleta resposta, apenas consegui viajar à inauguração do Estádio José de Alvalade XXI, na qual o único dos Violinos ainda vivo à época deu o pontapé de saída simbólico do jogo ante o Manchester United. Jesus Correia. Foi o primeiro nome que me saiu. Ainda consegui dizer Travassos. Mas os outros 3 vultos em posição agachada para sempre imortalizados na icónica fotografia dos 5 Violinos não me saíram. E ainda por cima o mais famoso deles todos, o grande goleador Fernando Peyroteo, ficou por dizer! Imperdoável!

Jesus Correia, Vasques, Travassos, Peyroteo e Albano.


O senhor António sabia todos os 5 nomes de cor e salteado!

E ainda me sabia dizer onde tinha estado na Guerra Colonial e me contar uma ou outra estória dessa marcante vivência de há 50 anos atrás. Infelizmente, quando lhe perguntamos por aquelas 3 palavrinhas mágicas que lhe havíamos pedido para decorar há escassos minutos atrás (um pouco antes da máscara branca P2 ter disfarçado a vergonha cor encarnada estampada no meu rosto), apenas nos soube dizer uma delas. Para nós, médicos, após integrarmos toda a restante informação, é mais um daqueles casos de uma provável demência em início. Já para o senhor António e para a sua família é certamente o começar de uma longa e penosa travessia.

 

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Dezanove anos e uma pandemia depois

“Pró ano é que é!”

O Sportinguista é o mais português dos adeptos de futebol nacionais. Saudoso sofredor sempre a recordar os tempos idos dos 5 Violinos, tempos em que se tivesse existido Taça dos Campeões Europeus, tínhamos limpado mais troféus internacionais que o Benfica e o Porto juntos.

 

Saudoso sofredor que perante um início de campeonato auspicioso, com vitórias consecutivas (algumas mais suadas) que acabaram por colocar o clube leonino na liderança, começava a desconfiar de tamanha sorte e a ver pairar aquela incómoda e tão familiar sensação de que seria sol de pouca dura. Afinal quem já viu fugir um campeonato por um ponto em 2006/2007 (o da mão de Ronny do Paços de Ferreira e do hat-trick do central Buba do Beira Mar com Paulo Bento) e outro em 2015/2016 (o segundo melhor registo de sempre de uma equipa no campeonato ao leme de Jesus) e ainda por cima ver o culminar de uma caminhada épica na Taça Uefa 2004/2005 numa amarga derrota por em casa frente ao CSKA Moscow, depois de ir a ganhar para o intervalo, só pode viver com a tormenta de que o pior ainda está para vir! Sempre para vir.

 

“Sofredores incondicionais” alguém nos apelidou. Uma chancela que assenta que nem uma luva em quem tristeza após tristeza, partida entediante após partida entediante, sempre continua a ir ao Estádio ou ver na SportTv a saga de todos os anos continuar sob o lema do “Pró’ ano é que vai ser!”. Pois bem, meus amigos, este ano foi! Este ano foi mesmo! O nosso grande Sporting, a maior potência desportiva nacional foi mesmo campeã nacional de futebol sénior 19 anos depois da última conquista!

 

Que dia incrível esse em que fiz 100km rumo ao Núcleo Sportinguista de Penacova para viver a tão esperada celebração junto daqueles que comigo sofreram ao longo destes 19 largos anos!

 

Não vale a pena mentir. Sempre desconfiei que não iríamos aguentar até ao fim. No último terço da temporada, muitas das vitórias eram demasiado suadas e alcançadas já ao cair do pano. Tanto milagre era de desconfiar, mas por outro lado só mostrava uma raça e um crer nunca antes vistos pelos lados de Alvalade. Era sempre até ao último minuto! Sebastian Coates, outrora contestado pelos seus ocasionais erros defensivos comprometedores, desta feita estava transformado no símbolo maior da nossa ambição desmedida, do acreditar até ao último segundo de que era possível colocar o esférico a balançar nas redes adversárias. Fosse de que forma fosse! E Palhinha, que esteve praticamente com guia de marcha na pré-temporada, acabou por ficar e estabelecer-se como um esteio fundamental de um modelo de jogo inovador para os tempos que correm e que foi recuperar os pergaminhos dos 3-4-3 dos Barcelonas de Cruyff que encantaram a Europa na primeira metade da década de 90. Rúben Amorim, benfiquista de gema, era o timoneiro improvável, que havia sido recrutado a preço de ouro a escassas semanas de tudo fechar em 2020 fruto da emergência da Pandemia Covid-19. Os anti-Varandas e os Varandistas uniram-se na desconfiança de que tamanho investimento em tão inexperiente técnico não auguraria nada de bom para o futuro de um clube que atravessava um período tumultuoso, com 3 treinadores já despedidos no decurso do ano desportivo e ainda a braços com os espojos de guerra do fatídico dia em que a Academia de Alcochete havia sido brutalmente invadida por gente que não pode ter lugar no nosso grande Sporting.

 

E depois de começarmos a perder pontos em Moreira de Cónegos a tal desconfiança veio mesmo ao de cima. Nesse jogo a sorte que tantas vezes nos havia bafejado ao longo da temporada sorriu ao adversário que marcou um monumental golaço já ao cair do pano de uma partida que vira 2 golos anulados ao recém-contratado Paulinho. Para alimentar o receio numa viragem no campeonato, nessa mesma jornada o FC Porto conseguira igualmente um triunfo suado no último instante, com Toni Martinez vindo do banco finalmente a deixar a sua marca. Teriam os Dragões encontrado o seu Mantorras? Bem, pelo desempenho nos jogos finais do campeonato parecia mesmo que sim, à medida que a distância que outrora se situava nos 10 pontos foi emagrecendo até a uma estreita cintura de 4 pontos que faziam temer o pior dos desfechos (o tal já esperado pelo verdadeiro Sportinguista calejado). No entanto, quando tudo parecia desmoronar-se por completo, com a expulsão de Gonçalo Inácio no decisivo jogo de Braga, a verdade é o remate cruzado de Matheus Nunes naquele lance estudado acabou mesmo por conceder a vitória à turma leonina. Nessa jornada, o FC Porto acabou por empatar ante o Moreirense (que curiosamente havia sido o clube a reacender a esperança dos Dragões em revalidar o título), numa partida envolta em polémica tecnológica com o VAR a anular um golo do tal Toni “Mantorras” Martinez. Não fosse o VAR e provavelmente estaria aqui a ser contada uma bonita estória de um jogador que andou na sombra toda a temporada e surgiu no terço final para ser decisivo e dar a volta aos acontecimentos.

 

Nada disso aconteceu e, assim, a bonita história que há para contar é a de um clube com uma mentalidade muito própria, assente na formação, que finalmente alcançou o troféu que lhe fugia já há 19 longínquos anos. Quando Paulinho selou o golo do triunfo ante o Boavista num Estádio de Alvalade que, embora despido de público no seu interior, nunca havia estado tão cheio desde a sua inauguração em 2003, o barulho vindo do exterior tornou-se ainda mais ensurdecedor! Era o sonho de uma geração que apenas vira o Sporting ganhar ainda andava na escola Primária, e andara toda uma vida a ver os outros envergar orgulhosamente a sua camisola no dia seguinte ao do título que teimava em fugir, mesmo quando era a equipa a praticar o mais requintado futebol em Portugal. Foram precisos 19 anos e uma Pandemia para o sonho se concretizar!

E foi também o fim de uma era. O Sporting campeão ainda no tempo do escudo, da Nokia e da PlayStation 2 já lá vai! Este é agora um Sporting que nos faz sonhar, mas de pés bem assentes na terra. Este é um Sporting que vai ter de enfrentar os desafios de uma época longa e desgastante física, mas sobretudo mentalmente com a entrada na Liga dos Campeões, palco maior do futebol europeu, onde uma potência desportiva como esta tem de estar presente ano após ano. O regresso do Público aos estádios poderá ser outro desafio. Mas uma coisa é certa, com Ruben Amorim ao leme, esse benfiquista de gema que devolveu finalmente a já esquecida felicidade àquela curva belíssima que ano após ano sempre apoiou o seu Sporting, e com esta mentalidade, estou certo que grandes dias continuarão a alvorar!

 

E este ano é que foi!

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Crónicas em Tempos de Pandemia - Emoções reais

Nestes últimos tempos o mundo tem vivido mais afastado de si mesmo. Por força da pandemia, é nos pedido que mantenhamos a distância física e a compensemos com o frio calor da proximidade virtual.


Por isso, nos hospitais por este país fora muitos são os internados que agora não podem usufruir da habitual visita dos familiares e amigos. Anteriormente à emergência da Covid-19 era até possível receber visitas em vários períodos do dia, mas atualmente tal permissão afigurar-se-ia bastante arriscada, não só para o doente internado, como para quem vem de fora e para os profissionais que lá trabalham.


Assim, além da clássica medicação e toda a panóplia de cuidados associados a um internamento, a gestão das emoções passou também a ficar a cargo dos profissionais de saúde, a família adotiva destas pessoas que por estes dias se veem confinadas aos hospitais.

 

Em qualquer cargo de liderança, seja esta coletiva ou do-não-menos-importante-e-tantas-vezes-desmazelado-“eu”, a gestão emocional é das missões mais desafiantes! Manter a moral das tropas em níveis aceitáveis, de facto, nem sempre é fácil... Ainda esta semana tive uma pequena amostra quando no início da manhã procurava conhecer um paciente já internado há mais de uma semana numa das várias Unidades de Cuidados Intensivos Covid do hospital onde trabalho. O homem tinha necessitado de ventilação com o famoso capacete, mas agora finalmente estava a aguentar-se com menos oxigénio artificial. Ainda moribundo, fruto de uma noite menos bem dormida e de um café que tardava em fazer o seu efeito, fui violentamente despertado pelo brilho intenso e ofuscante de um líquido que subitamente começou a brotar do canto dos seus olhos e que António Gedeão um dia escreveu ser composto por água e cloreto de sódio

É, lidar com a lágrima do outro é intelectualmente claudicante. Ficamos sem saber o que dizer... Sem saber se devemos sequer dizer... E o que dizer... De tantas cadeiras que tive na Faculdade ao longo de seis anos de curso recordo-me de uma mão vazia de horas dedicadas a este que é dos momentos mais frequentes na vida profissional. Eu que até adoro toda a teia das vias bioquímicas e perco horas a admirar a complexidade da base azotada da molécula de DNA a quem nunca a cor dos olhos vou ver, tenho que reconhecer que o ensino da Medicina em Portugal tem de fazer um “zoom out” e evoluir no sentido de cada vez mais horas dedicar àquele simples e básico momento macroscópico em que o doente se desfaz à nossa frente.

 

Bem, felizmente, secar as lágrimas que me fizeram derramar estas palavras foi uma tarefa relativamente fácil. Afinal, não se tratava de comunicar uma má notícia. Sucede que o homem de 60 e tal anos que tinha à minha frente estava preocupado com a sua família, que já não via desde a admissão no hospital, já lá ia uma semana e tal. Estavam todos isolados no domicílio.  Covids positivos, mas bem de saúde. Mais um assintomático que inadvertidamente infetara familiares e amigos...

 

Neste caso, o tratamento prescrito foi bastante simples. Primeiro ouvimos, sem nada dizer. Depois esclarecemosas dúvidas e transmitimos palavras de consolo, esperança e incentivo. E por fim, graças à preciosa intervenção da enfermeira, realizámos a videochamada que, por breves momentos, estreitou a distância da saudade e serenou um pouco toda aquela inquietação. O antiviral, a dexametasona e a ventilação ficaram a tratar do resto.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Crónicas em Tempos de Pandemia - A gasolina do nosso Ferrari

Há uns anos atrás, estive em Zurique, uma das cidades mais caras do mundo. Naquele importante centro financeiro, além de passear pela Lindenhofplatz, de visitar o Museu da FIFA e de me deleitar com um delicioso bolo de chocolate na fábrica da Lindt, fiquei verdadeiramente abismado com o manancial de viaturas que cruzavam as suas movimentadas ruas. 

Não é que me considere um apaixonado pelos veículos de quatro rodas, mas nesse dia fiquei estupefacto com tantos e tantos bólides que só estava acostumado a ver pela televisão, nos filmes da saga Fast and Furious, e quanto muito, numa ou noutra ocasião em que emigra mais abonado decide vir exibir as suas conquistas em Agosto para a terra que o viu nascer.

 

Um dos monstros que mais me chamou à atenção foi o clássico Ferrari vermelho, figura incontornável da minha infância, imortalizado pelas vitórias de Michael Schumacher no Mundial de Fórmula 1. A recente etapa da Fórmula 1 em Portimão fez-me lembrar esses momentos de glória da Ferrari, trazendo consigo a nostalgia de uma infância feliz, mas também uma reflexão inquietante...

 

Recordei aqueles momentos da vida em que me senti no cume da montanha, habitualmente seguidos a um “muito bom” tirado num teste na escola ou uma defesa de nota bem-sucedida numa prova oral na faculdade. São feitos como esses que nos dão força para seguir o nosso caminho sem olhar para trás... mas nada dura para sempre!

 

É verdade. Há momentos na vida em que conduzimos o nosso Ferrari com um prazer dos diabos, a toda a velocidade pela autoestrada deserta rumo a um destino sem fim à vista. Mas inexoravelmente chega-se a um momento em que essa adrenalina, outrora desconcertante e apaixonante, deixa de fazer bater o nosso coração à velocidade do antigamente. E, então, caímos na apatia!

 

É nessas alturas em que damos por nós a pensar: “mas o que é que se passa?” “O que é que mudou?” “Porque é que agora já não me dá aquela pica?”

 

Pois é. A verdade é que por mais conquistas que tenhas alcançado, se continuares a viver delas, se permaneceres a viver nelas, vai chegar o dia em que a glória passada se transformará na apatia do teu presente! E a dúvida instala-se: “será que foi tudo fruto de um acaso?”. “Serei eu mesmo assim tão bom?”

 

Pois é, pois é. Sem gasolina, até o mais potente dos Ferraris é facilmente ultrapassado até pelo trator do velho que nunca saiu da terra.

 

Pois é, pois é. Sem motivação, os circuitos do teu cérebro não vão carburar. A engrenagem do teu círculo de Papez deixa de funcionar e com o tempo vai enferrujar na humidade da glória recordada numa manhã de orvalho.

 

A glória só é boa enquanto o espumante explode da garrafa e apenas serve para nunca esquecermos o quão bom já fomos. É que enquanto o espumante ainda jorra, a verdadeira lenda já está a pensar: “afinal  aonde quero eu ainda chegar?”

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Crónicas em Tempos de Pandemia - A amizade em três lições

Passava poucos minutos desde que o relógio havia assinalado as nove da noite quando o telefone tocou. O ecrã anunciava a chamada do meu grande amigo Bruno Castilho. O que será que ele quer?...

Toda a gente sabe que a Covid está de novo a apertar! E com o rebentar da segunda onda desta pandemia, por este mundo e país fora, centenas
e centenas de médicos estão de novo ser recrutados para o combate! E como os noticiários têm vindo a anunciar, internos de especialidades que pouco ou nada têm a ver com o tratamento urgente a estes doentes, foram também chamados para auxiliar nos Cuidados Intensivos...

 

O parâmetro mais importante do ventilador é a capacidade vital. Lição número um. Esse volume é fornecido ao doente de forma constante e no final da expiração o ventilador injeta na árvore pulmonar um volume extra para impedir que as vias respiratórias colapsem. Ora aqui está o motivo da chamada. O meu grande amigo Bruno Castilho tinha sabido das novidades e estava a ligar para me dar conselhos para enfrentar a missão Cuidados Intensivos Covid!

 

Durante o curso de Medicina e no estudo para o exame de acesso à especialidade, obrigatoriamente tive de me debruçar sobre temáticas específicas das doenças cardíacas e respiratórias. No entanto, com o passar dos anos, os conceitos desvanecem e existe sempre um enorme desnível entre o estudar e o praticar. Como tal, esta ajuda vinda de um jovem e promissor interno de Cardiologia afigurava-se preciosa!

 

Para que é que serve a noradrenalina? Para fazer a vasoconstrição e assim aumentar a tensão arterial. E por que é que isso é tão importante na maioria dos doentes internados em Cuidados Intensivos? Porque estão em choque, o que significa que têm as tensões muito baixas. Assim o coração tem de fazer um esforço brutal para manter o débito cardíaco. Precisamente, a noradrenalina vai ajudar muito o coração nessa missão! Foi a lição número dois.

 

Como podem imaginar, bem mais técnicos, detalhados e complexos foram os contornos da nossa conversa... O que verdadeiramente interessa, isso sim, é destacar este enorme gesto de amizade! Do meu grande amigo Bruno Castilho e do meu outro grande amigo que o informou. A nobre partilha de conhecimentos entre colegas sempre foi fundamental para uma boa Medicina praticar. E enfrentar o desconhecido invariavelmente acarreta uma boa dose de ansiedade. Portanto, estarmos “próximos” num tempo em que a pandemia nos obriga a afastar é ainda mais fulcral. Devemos estar separados sim, mas nunca “distantes”! Porque “próximos” somos todos muito mais fortes! Agora e sempre! E esta é a lição número três.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Crónicas em Tempo de Pandemia - Virá aí um novo tsunami pandémico?

Quarentena. Isolamento Social. Estes são dois termos que todo o mundo se habituou a pronunciar neste virar de década.

Fruto de um poder de propagação de que não há memória, a COVID-19 tem votado milhões de famílias e amigos ao afastamento. Pois bem, num mundo que dispõe dum manancial de terapêuticas meticulosamente desenvolvidas em laboratório para as mais variadas maleitas, ironia das ironias, parece que a distância é a única arma para travar o avançar implacável deste vírus.

Dilema. Este é outro dos vocábulos que mais têm cruzado a mente de toda a gente. Não que seja noticiado como a exaustiva e compulsiva atualização diária dos números da pandemia, mas a verdade é que muitos de nós também estão a tentar sobreviver à autêntica turbulência de pensamentos e sensações que tem posto o nosso intelecto à deriva nestes últimos tempos.

Por esta altura, completam-se sete semanas desde a última vez que estive na “minha terra”, Penacova. Nesse fim de semana de 14 e 15 Março, já muito se especulava sobre o que iríamos viver nas semanas que se seguiriam. E o cenário do Estado de Emergência acabou por se confirmar escassos dias mais tarde, começando a vigorar a 18 de Março. Independente disso, as idas a “casa” seriam invariavelmente suspensas por tempo indeterminado. É que como médico tenho de dar o exemplo! Primum non nocere. Primeiro não prejudicar! O princípio bioético da não-maleficência pela qual todos os médicos e restantes profissionais de saúde se devem reger, diz-nos que devemos evitar a todo o custo fazer mal aos nossos doentes. Como tal, se numa situação normal não estaria afastado mais do que dois fins de semana da “minha terra”, não posso de maneira alguma ignorar o facto dos meus pais estarem numa faixa etária de risco para as tormentas a que têm sido votados por este novo Coronavírus muitos dos adultos de meia idade por esse mundo fora.

Por isso, por mais saboroso que fosse galgar pelo asfalto e romper por entre a floresta só para os abraçar, a verdade é que tal poderia representar um amargo dissabor. E se eu estiver contaminado e não tiver sintomas? E se eles contraírem doença? E se, por azar, até ficam gravemente doentes? Primum non nocere. Primeiro não prejudicar! É nisto que cada um de nós tem de pensar para conseguir proteger ao máximo os seus. Para todos conseguirmos proteger todos!

Por aqui na Feira, no Hospital de São Sebastião, praticamente dia sim, dia não, se depara com um doente assintomático cujo teste de rastreio da COVID-19 acaba por vir positivo. E por todo o País também tem sido assim. É que nós, médicos, importantes veículos de saúde somos antes de tudo potenciais vetores de infeção. Médicos, Enfermeiros, Assistentes Operacionais e inclusive familiares são, durante todo o ano, fonte de propagação de inúmeras doenças que acabam inevitavelmente por prolongar internamentos e quem sabe, produzir lamentáveis falecimentos… São as chamadas infeções associadas aos cuidados de saúde (IACS), entidades que sempre existiram, mas que agora ganharam dimensão mediática, no advento duma crise de saúde pública e económica sem precedentes.

Primum non nocere. Primeiro não prejudicar! Desde sempre que nós contribuímos para espalhar infeções. Tantos doentes que fomos ver sem as devidas cautelas! Tanta roupa conspurcada que levamos para casa!

Agora que entramos num período em que se vai assistir ao aliviar do cinto desta austeridade social, mais do que nunca se exige cuidado para não prejudicar aqueles de quem mais gostamos e aqueles de quem nem o nome sabemos! O Estado de Emergência apenas acabou no papel! Ainda mal superamos a primeira onda da pandemia... ainda mal emergimos a cabeça destas águas agitadas... ainda mal expelimos esta água em que quase afogamos os nossos pulmões... já estamos convencidos que podemos virar já as costas ao oceano. Não podemos fazer isso! Se agora cairmos na relaxante armadilha de deixar o corpo boiar ao sabor destas águas perigosa e enganadoramente mais tranquilas, é quase certo que vamos acabar por ser apanhados desprevenidos! É que agora que vamos começar (lentamente?) a nos reaproximar, uma nova vaga da pandemia se perspetiva no horizonte e talvez assim não tão distante quanto hoje se julga. Primum non nocere. Primeiro não prejudicar! Só nós podemos travar este novo tsunami pandémico!