quinta-feira, 20 de junho de 2019

Selvagem

Há uns dias atrás, uma amiga minha perguntou-me: Gonçalo, por que é que não mandas as tuas crónicas para uma revista?

A resposta foi imediata e taxativa: porque quero manter-me selvagem!

Sim, selvagem. Como um felino à solta. Afinal, qual é a beleza de um gato de apartamento? Aquela ronronante lassidão encanta, mas é enfadonha ao pé dos olhos aguçados e orelhas em riste do predador que mira a presa acabada de pousar no relvado.

O felino selvagem faz as suas regras. Quando se escreve para um órgão público, somos inevitavelmente sujeitos ao escrutínio, que pode mesmo chegar a roçar uma moderna forma de censura, apelidado de “processo de revisão”. Ora, o único lápis azul que quero ver a riscar o que escrevo é o lápis do tempo. Do meu tempo! O lápis daquele distanciador lapso temporal a que Fernando Pessoa um dia chamou “intelectualização” e que é capaz de transformar a maior das criações na mais banal das redações.

Criações... redações. Sim, às vezes faço desta espécie de rima. Aceito a crítica. Por vezes, caio na teia dos jogos de palavras, nessa forma tão rendilhada de tudo escrever e nada dizer. Escrever... dizer. Nisso sou como o pior dos cegos e vou continuar a querer não ver, porque às vezes escrever é simplesmente fazer sexo com as palavras em cima da mesa do escritório. A tarde toda!

É verdade, toda esta silenciosa algazarra contrasta com o meu restante percurso de vida. Se há inteligência no que alcancei (já nem me lembro bem...) foi a de reconhecer que teria de trabalhar a dobrar para lá chegar. E uma vez reformado dessa vida e com outra constantemente solicitando algum desse saudoso empenho, para quê juntar mais uma obrigação quando simplesmente se pode cultivar uma paixão? É que também existe beleza no futebol de rua e no jovem talento que nunca passou disso mesmo.

Há quem diga que os escritores possuem uma imensurável riqueza de vida interior, quase sempre exponencialmente maior que a mundana existência que os olhares que se cruzam consigo lhe conhecem. A inquietude é típica. Ser assolado por uma ideia, um pensamento, uma frase, um conjunto de palavras quando se tenta adormecer... e ser obrigado a levantar da cama e escrever... escrever, escrever e escrever até a ideia ficar gravada, a maturar, enquanto o corpo do seu mensageiro finalmente pode repousar. É verdade: não há tarefa, obrigação ou prazo que possam fazer parar a força rasgante de um desatino, aquela necessidade de enjaular uma ideia, de atirar com toda a força o livro ao chão para matar o pensamento serpenteante.

É precisamente essa selvageria desconcertante que me faz continuar a escrever, até porque tenho que confessar: nunca tive grande jeito para sorrir nem para correr feiras em beijos e abraços. Escrever uma crónica é fazer entrar em ebulição o sangue que circula no corpo, derreter um coração que vive congelado num rosto fechado e, assim morrer esvaído em palavras derramadas numa folha de papel. É renascer e voltar a morrer. Vezes e vezes sem conta. Tão selvagem quanto isso!

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Quem quer ser Diego Simeone?

Diego Pablo Simeone. Jogador de sucesso. Treinador de sucesso. Duro no campo, carismático no banco. É o único treinador cujo nome tenho estampado numa camisola de futebol. É o homem que pegou no Atlético de Madrid a meio da temporada 2011/2012 e o revitalizou, guiando os “Colchoneros” a 2 finais da Liga dos Campeões, a 2 vitórias na Liga Europa e a uma inesperada conquista na Liga Espanhola. Sob a batuta de “El Cholo” Simeone, o segundo maior clube da capital espanhola voltou a fazer-se ouvir bem alto no panorama do futebol mundial.

Vozes, muitas vozes pelas ruas, rádios e televisores é o que mais se tem ouvido em Portugal nos últimos meses, rugindo dos megafones empunhados nos protestos dos mais variados setores profissionais. Professores, enfermeiros, taxistas, condutores de matérias perigosas... Quase todos estes protestos são manifestações sindicais, o que não só demonstra a força aglutinadora deste tipo de agremiações como sinaliza bem o final de ciclo legislativo. Os líderes sindicais acreditam que o período pré-eleitoral consubstancia o cenário ideal para o sucesso das suas reivindicações.

O sucesso de Diego Simeone está também ele muito ligado a um determinado tipo de circunstância. Quando chega a Madrid, o Atlético não era um clube de 1.ª linha, nem em Espanha nem na Europa. Em 2000 desce de divisão e depois de muitos anos negros, em 2011 era ainda um clube que se batia com bastante dificuldade com Real Madrid e Barcelona, que dividiam entre si o protagonismo interno nas últimas duas décadas. Ora, é sobre esta base pouco amistosa que o treinador argentino constrói o êxito da sua equipa: semeia um espírito de revolta, une as tropas e colhe o fruto que nenhum adepto madrileno esperava provar tão cedo: o título espanhol de 2013/2014 (ainda por cima celebrado em Camp Nou!).

Ora, eu não creio que Simeone tivesse este êxito em clubes “novos ricos” como Chelsea, Paris-Saint Germain ou Manchester City. E nem acredito que os médicos fossem tão bem-sucedidos como os Enfermeiros foram se convocassem uma greve geral tão prolongada como foi a famosa Greve Cirúrgica que paralisou blocos operatórios por este país fora.

Porquê? Porque historicamente os médicos foram um grupo bastante favorecido no seio da sociedade portuguesa. Se atualmente ainda assim é, é muito discutível... No entanto, esta cultura dinossáurica de barriga cheia teima em desunir muitos médicos nas questões de fundo do seu setor. “Desde que não me chateiem e eu continue a ganhar o meu, tudo bem”, é este o pensamento de alguns colegas meus. Como tal, juntar os médicos num megaprotesto como aquele conduzido pelos Enfermeiros parece-me, na atualidade, surreal!

Difícil de imaginar também é Diego Simeone noutro clube que não o Atlético. Milan, Inter, Arsenal... Se é indesmentível que são clubes que têm andado arredados das grandes conquistas, também indiscutível é que são instituições historicamente ricas e tituladas... Falta-lhes aquela sede... Assim de repente, só o imagino mesmo ao comando do... Nápoles. Sim, o Nápoles. Os underdogs do Sul de Itália que o outro Diego, Maradona, astro maior do futebol argentino e mundial, um dia levou a roubar a glória aos grandes do Norte transalpino. Tal como o Atlético de Madrid, no início do século, os napolitanos desceram igualmente de divisão afundados em dívidas, mas renasceram e, na última década, até têm sido os que mais têm mordido os calcanhares à super Juventus. No entanto, ao contrário das grandes cidades do Norte italiano, Nápoles não é exatamente uma cidade postal e a pobreza a que está votada tem feito do futebol a grande sublimação da população. Portanto, parece-me que aqui estão reunidas as condições para Simeone fazer aquilo que melhor sabe fazer.

Certamente que este não é apenas um texto sobre o desporto-rei. Não. Esta é uma reflexão em tempo de eleições. Esta é uma crónica sobre os audazes que juntam multidões. Esta é uma crónica sobre os afortunados que semeiam ódios e paixões. Desde Martin Luther King a Nigel Farage, desde a razão à ilusão, desde os de sempre aos de nunca, não restem dúvidas: para alterar o panorama político, para agitar as águas congeladas, é premente encontrar o grande líder que derreta o marasmo e o esprema no suco que mate a sede de vitória!

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Carpe vitae

Toda a gente tem direito a descomprimir! Quem não se recorda da célebre fotografia de Michael Phelps a fumar marijuana, 3 meses após ter alcançado umas impressionantes 8 medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008? Muito criticado na altura, a verdade é que depois disso a “Bala de Baltimore” continuou a ganhar, a ganhar e a ganhar até se reformar.

Quem acompanha o mundo do desporto sabe que eventos desta natureza, às vezes até socialmente de se lhe torcer o nariz, não são infrequentes em atletas de elite que, para atingir elevado desempenho, tiveram de fazer grandes renúncias ao longo da louca, irreverente e inocente juventude!

No entanto, nem é preciso subir ao desporto de elite para verificarmos a necessidade de fazer sacrifícios. Quem anda na vida da Medicina provavelmente sabe bem do que estou a falar.

A este propósito recordo sempre aquele domingo de manhã na primavera de 2010. Iria ter teste de Geologia na 3.ªf seguinte. O meu tio, acérrimo benfiquista, tinha comprado 2 bilhetes para ir ver o Académia vs Benfica desse domingo à tarde comigo. E eu à última hora disse-lhe que não podia ir, porque não conseguia lidar com o stresse de estar a perder tempo de estudo. O meu tio compreendeu, mas acabou por não ir ao jogo, por falta de companhia. A ironia e (o pior) é que no dia do teste a professora faltou por doença e a prova foi adiada para a semana seguinte... Quem me conhece sabe que mais que emblemas, o que eu adoro é futebol, é bom futebol de estádio cheio, e ter perdido assim a hipótese de ver ao vivo uma das equipas mais entusiasmantes dos últimos anos do futebol português (o tal primeiro Benfica de Jorge Jesus) foi deveras irritante e frustrante!

Mais tarde relembro-me de um final de tarde de sábado em casa de um grande amigo de escola. Estava no 5.º ano da Faculdade e iria ter 2 exames na semana seguinte. Comemos, bebemos, divertimo-nos. Era já quase 1h da manhã e eles queriam ir sair. Uma das melhores coisas que a Faculdade me trouxe foi o gosto por sair à noite. Mas nessa altura, metas mais altas se levantaram e dos 2 carros que saíram daquela casa nessa noite, um virou à esquerda e outro à direita. Literalmente. Eles seguiram pela esquerda em direção a Coimbra. Eu cortei à direita em direção a Penacova, à minha casa. Eles podiam. Eu não sei se podia... Custou. Mas a recompensa veio no fim!


Em momentos de descrença, a fraqueza da condição humana traz sistematicamente à mente a dúvida: será que vale a pena tanta provação?

Qualquer que seja o contexto, perder por falta de empenho é simplesmente um desperdício inconcebível! Ainda assim, temos de reconhecer que jogar ou estudar na alta competição não é fácil: requer uma tremenda cegueira periférica, um religioso dogmatismo de prioridades que nem toda a gente consegue praticar. E ninguém consegue ser fiel sempre!

Talvez por isso é que chegados a determinada altura da vida deixamos de viver para a missa de domingo de manhã...

Talvez por isso é que terminada uma carreira tendemos a iniciar uma travessia pelo mar de dúvidas: será esta uma verdadeira reforma ou antes um longo final de época, um preâmbulo para algo mais? 

A certeza que agora tenho é que estas são águas nas quais nem sempre é fácil nadar, sobretudo até compreendermos que são tão mais agitadas quanto mais nós as sacudirmos. Por vezes, demoramos demasiado tempo a perceber que, de facto, não são águas que se combatam... são águas para relaxar, águas para fruir... São águas que um dia acabarão por secar naturalmente... Por isso, enquanto correrem fortes, devemos deixar-nos arrastar pela corrente para não morrer afogados nas lágrimas daquele velhinho que, um dia debilitado, irá chorar aquilo que não viveu!

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Autópsia a um romance incomeçado

Quantas são as vezes em que teimamos em remexer no passado? Quantas são as vezes em perdemos tempo com ações que já sabemos que serão inconsequentes? Desde os clássicos e arrítmicos “ses”, à curiosidade (e por vezes ignorância) científica que motiva rios de exames complementares de diagnóstico... ao amor.

A crónica que vos trago é a estória de um rapaz que vive sepultado num romance incomeçado.

Não foi uma paixão daquelas de ficar sem jeito como dizem os brasileiros, não. Foi antes uma sensação de amor que terá crescido, tal como aquele recém-nascido que um dia vemos no colo da mãe e no seguinte já nos faz aterrar por agora já ter 18 anos e nós nem termos dado pelo tempo passar.

O protagonista deste curto périplo, apesar de bonito, era muito tímido. Esta aparente incongruência deve ter sido motivada por algum evento da infância, período pedreiro do edifício da personalidade. E a juntar a essa manietante timidez acrescia o facto do sentimento ser para com a sua melhor amiga!

Por isso, valeria a pena dar um passo em frente? Valeria a pena arriscar uma sólida amizade por um amor incerto?

Certo é que o precipício que o rapaz escavou à sua frente terá sido bem mais profundo do que a distância que teria de saltar para alcançar a outra margem... E o sentimento foi reprimido.

E não foi apenas o sentimento que foi reprimido. Foi a curiosidade. Curiosidade? Sim, curiosidade. É que uma vez no calor da noite, com o vapor do álcool a condensar-se na cabeça, enublando barreiras, a amiga ter-lhe-á dado a entender que entre eles poderia existir algo mais... Ou pelo menos foi isso que o rapaz entendeu, mas nunca teve a coragem de esclarecer...

Alguns meses mais tarde, eis que a noite faz das suas diabruras! A amiga envolve-se com um conhecido do rapaz, tinham todos jantado juntos nessa noite e a amiga havia achado graça ao jeito dele: confiante e sedutor. Aventura no clímax da noite. One-night stand. Ou assim era suposto. A verdade é que não se tratou de uma relação fugaz. Não. A relação cresceu e floresceu num belo namoro que ainda perdura. E todos se dão bem, os namorados e o eterno e efémero apaixonado que nem sequer isso chegou a ser.

Ainda hoje, quando se despedem, o rapaz permanece quedado a ver o casal desaparecer de mão dada no horizonte finito do espelho retrovisor. Repousa a cabeça no encosto, suspira e liga a ignição. Arranca e acelera. Acelera pela estrada. Acelera bem para lá dos limites de velocidade. E olha para o lado. Olha e vê um banco vazio. Sempre vazio. E é nessas alturas que a dúvida patológica lhe assalta a mente. O que teria acontecido se ele tivesse escolhido saltar o tenebroso precipício em vez conter o impulso? O que teria acontecido se ele tivesse tido a coragem de tirar a tal dúvida? O que acontecerá se algum dia tiver a coragem de fazer a tal pergunta?

São estes os tais clássicos e arrítmicos “ses” que nos deixam sepultados num passado que nunca nos pertenceu e perdida a oportunidade de esclarecer cabalmente as causas naturais do funeral, teimamos em exumar o cadáver. Teimamos em remexer no passado, em procurar razões para o desfecho que não teríamos evitado, em prolongar um sofrimento que sabemos só uma outra vida poderá aliviar... E com todo este cortejo fúnebre o melhor que conseguimos é obviarmo-nos da fruição do único instante que verdadeiramente pode ser o nosso: o presente!

Enfim, esta é a estória melancólica do saxofonista que nunca chegou a pegar no saxofone. Do escritor que nunca chegou a escrever. Do amante que nunca chegou a amar. Do doente que morreu de enfarte precipitado pelo clássico e arrítmico “se” enquanto envelhecia, recostado e tristemente confortável na poltrona, vendo na tela a fita correr!

domingo, 7 de abril de 2019

A mulher perfeita


O conceito de perfeição está em constante mudança. Os tempos em que as formas arredondadas eram a formosura foram-se esculpindo até aos nossos dias, delapidando progressivamente todo um conceito de beleza, hoje proscrito e tantas vezes levado ao extremo.

Mas nem só do enfoque físico se conta um romance. A proibição que assola o desejo de uma relação é talvez a maior e mais cativante assombração que retém leitores e queda telespectadores. Quem não se recorda de se apaixonar pelo périplo de Carlos e Maria Eduarda e se prender, contentamente atormentado pelo conflito entre querer saber o seu término e a ânsia ardente de que o pecado se prolongasse inexoravelmente pelos recantos escondidos do Ramalhete?

E quem nunca se apaixonou só por desviar os sentidos da janela e de súbito aterrado ficar com a beleza rara do olhar que nesse mesmo instante subia para a carruagem do comboio?

A vida sonhada e a vida vivida não são indissociáveis, mas sem dúvida que entre as páginas de um livro e as folhas da vida real existe todo um volume de diferenças.

Desde logo, na imaginação é o autor o dono do destino dos seus protagonistas. Quem não gostaria de sentir ter poder total sobre a sua vida? Nessas horas sagradas em que consegue assentar os pensamentos que sublimemente o atormentam, o escritor é Deus e, portanto, decide as intrigas, os suspiros, os beijos e os gritos de prazer... O escritor é Deus e, portanto, decide a voluptuosidade do corpo que a cada leitor caberá imaginar moreno ou louro.

Uma outra, e inevitavelmente melancólica, é que, se o livro pode terminar num imaculado ponto final, a vida cursa sempre pelas reticências... Só a ingenuidade de quem nunca se apaixonou poderá contestar que o que faz a relação perdurar é todo um conjunto de sentimentos que se criam e se constroem... é todo um manancial de interesses e desinteresses... é toda uma outra dimensão: é o Amor! E o Amor, por mais “sins” que se lhe digam, o mais próximo que alguma vez esteve de beijar a Paixão foi a mesma distância a que Miguel Ângelo pintou o dedo do Criador do dedo mortal de Adão no teto da Capela Sistina.

A Paixão, essa, é outra coisa! É o magnífico trovão que fez Michael Corleone casar durante o desterro na Sicília! É a loucura que tira do sério, tão redundante em si mesma como esta última sequência de palavras. Tão prolixo como os pensamentos que giram e serpenteiam, navegando sempre ao encontro do porto de abrigo inaugural. Ao encontro daquele instante em que o nosso ser se submete à ditadura das parcas horas e escassos dias em que a Lua se torna na gravidade que nos prende a esta Terra.

Enfim, é preciso paciência para escrever livros... é necessária muita imaginação, muita vivência exterior para decorar a paisagem do recheado interior do ser humano... Não é a mão de qualquer escritor que aguenta 25, 50 anos de linhas redigidas, de linhas rasuradas... de folhas de papel imaculadas, de folhas de papel amarrotadas... Como seria tão mais fácil se o romance se quedasse para sempre naquela fração efémera em que os olhares se coincidem magicamente num sorriso de alinhar as estrelas e os parágrafos se escrevem! Mas a verdade é que se a Paixão é viver... Amar é sobreviver!

sexta-feira, 22 de março de 2019

O beijo de um milagre


No meu primeiro dia de estágio de Medicina Interna conheci uma doente peculiar. A senhora de 60 e poucos anos tinha dado entrada no serviço de emergência por uma infeção grave que degenerou numa falência multiorgânica que a colocava às portas da morte.

Nessa manhã a doente apresentava-se ainda algo desperta e à minha aproximação esboçou um “aluado” sorriso de quem já ostentava um precário estado de consciência… E foi nesse estado que a sua mão direita pegou na minha mão esquerda e levemente a fez viajar aos seus lábios, brindando-me com um inesperado beijo. Um beijo daqueles que já não se dão hoje em dia. Um beijo dos tempos idos do Romantismo dos cavaleiros que pegavam na pálida mão da donzela sublime e lhe acariciavam o dorso no calor dos lábios ajoelhados.

Acontece que desde esse marcante impacte inicial, esta senhora entrou numa espiral decadente. Deixou de responder à nossa interpelação, começou a ficar bastante prostrada até que adormeceu por completo. As tensões arteriais eram baixas, os níveis de oxigénio no sangue não eram famosos… Este estado a caminho do “vegetal” fazia antever uma morte breve e assim teve de ser tomada uma sempre ingrata decisão: colocar a senhora em medidas de conforto, a fim de lhe proporcionar um final de vida o mais pacífico possível.

Informado da situação, o filho ficou consternado: havia perdido o pai recentemente e agora seguir-se-ia o luto pela mãe, que ainda há poucos meses já havia sofrido um AVC.

A verdade é que os dias iam passando e, ao contrário do esperado, a senhora ia-se aguentando. O gemido agónico com que este ser adormecido nos cumprimentava todos os dias vivia agora em comunhão com uma surpreendente melhoria das tensões, frequências cardíacas, saturações de oxigénio e parâmetros analíticos. Surpreendentemente parecia estar a contrariar o “choque séptico” que tantas feridas infligira aos seus órgãos.

Entretanto, um sobrinho seu, a trabalhar no estrangeiro, ao saber do estado de saúde periclitante da tia, não hesitou em fazer-se à estrada para lhe vir dar um último carinho. Nesta altura, fomos ponderados e transmitimos que se, por milagre a tia não falecesse a breve trecho, o mais provável seria ficar remetida ao leito, exigindo cuidados permanentes até final dos seus dias.

No entanto, há segunda semana de internamento a senhora permanecia na sua luta pela vida. E agora começava a despertar! Começou a abrir os olhos, o gemido agónico cedia, um dia já nos saudava com um verdadeiro “olá”. Num outro dia já respondia a perguntas de “sim” e “não”. Mais tarde até já cumpria algumas ordens simples, como “piscar os olhos”. Entretanto, já fez levante para cadeirão e já tolera alguma alimentação oral.

INACREDITÁVEL!

E hoje que a senhora já estava perfeitamente estabilizada do tenebroso quadro clínico que a trouxe para as nossas mãos, é transferida para uma outra unidade, onde prosseguirá a recuperação de um estado do qual toda a gente pensou que não iria sair já mais!

Quando fui dar a notícia, a senhora ficou um pouco triste, mas, com a minha mão esquerda acariciando a sua mão direita, lá lhe expliquei que era bom sinal, era porque já não necessitava de uma vigilância tão apertada e porque tinha conseguido dar a volta mais importante ao seu grave estado de saúde. E ela com as poucas forças que agora possuía lá pegou na minha mão direita e, com bastante dificuldade, lá a levou de novo aos seus lábios, despedindo-se de mim com um beijo que só ela sabe o que significará e que eu espero que seja felicidade!


sábado, 2 de fevereiro de 2019

O dia em que me apaixonei pela Fisiatria

Há uns anos, eu corria bastante. Ainda não estava na moda os trails como hoje, mas desbravar serras e vales com a sola das minhas sapatilhas era uma das minhas grandes paixões! E como todas as paixões que só os escritores tornam eternas, a minha se tornou fatal. A ignorância de quem usava calçado desadequado à prática daquele tipo e volume de exercício condicionou uma incapacitante tendinopatia de Aquiles. Após um curso inicial de crioterapia e anti-inflamatório oral e tópico, houve necessidade de fazer fisioterapia para debelar a lesão. E naquela altura, um dos esquisitos tratamentos consistia na introdução de um anti-inflamatório líquido numa esponja, a qual era submetida a uma leve corrente elétrica... O médico que me prescreveu o tratamento, explicava-me que aquilo servia para aumentar a penetração no tendão lesado... Assim foi e nessa altura o tratamento acabou por resultar.

Dois anos mais tarde, encontrava-me profundamente desanimado. Tinha entrado no 4.º ano de Medicina e as cadeiras clínicas preenchiam agora o meu dia-a-dia. É aquela altura em que o jovem estudante de Medicina começa a tomar contacto com as diversas especialidades, deixando para trás os estudos gerais de Anatomia, Fisiologia e Farmacologia. Confesso que eram essas as áreas que mais me entusiasmavam e perante um cenário dominado por cadeiras de Hematologia, Endocrinologia e Neurologia comecei a esmorecer. Esse semestre na FMUC era dos mais exigentes a nível de carga horária e avaliações. Paralelamente, estava muito envolvido nas atividades do Núcleo de Estudantes de Medicina, as quais consumiam muito do pouco tempo livre de que dispunha. Andava de tal modo abalado que ponderei seriamente desistir do curso de Medicina. É verdade! Desistir ou pelo menos fazer uma pausa e enveredar por outra área qualquer. Na altura, ponderei dedicar-me aos relatos desportivos... Quando era pequeno, passava manhãs e tardes inteiras a relatar partidas no Football Manager enquanto jogava e sabia as estatísticas todinhas sobre futebol... mas a Faculdade acabou por me afastar desse rumo... Como também gostava de escrever, cheguei inclusive a pensar ir para Jornalismo... Por esta altura, muito pouca coisa me interessava na Medicina...

Dobrada a mais hercúlea época de exames que tive, com o início do 2.º semestre, decidi tomar uma decisão bastante importante. Inicialmente havia decidido guardar a escolha da cadeira opcional de Medicina Física e de Reabilitação (MFR) para o 5.º ano, altura em que iria ter Ortopedia e Reumatologia, cadeiras que condiziam bem com algumas das valências da Fisiatria. Mas não conseguia aguentar mais aquela dúvida patológica: precisava de saber se gostava assim tanto de MFR quanto julgava. E assim foi, antecipei em um ano a escolha de MFR como cadeira opcional.

5.ªf à tarde, primeira aula de MFR. O Professor começa a falar das generalidades da especialidade, do modo como a funcionalidade é essencial no management dos doentes. Gostei. Noutra aula, falou-se da histopatologia das lesões tendinosas, bem como de agentes físicos. Adorei! Não imaginava até aí que se pudesse falar de Reabilitação de modo tão científico e cuidado. As aulas práticas que tínhamos consolidaram ainda mais um novo estado de espírito: agora sim, começava a ficar mais animado! Mas o dia em que apaixonei definitivamente pela Fisiatria, foi num dia em que me encontrava na Biblioteca do CHUC a estudar para o teste de MFR. Estava a ler a parte de uma modalidade terapêutica, da qual nunca havia ouvido falar até esse momento, designada iontoforese. Acontece que a descrição do tratamento me fez viajar aos dias em que estava deitado na marquesa do ginásio da clínica onde havia andado a fazer tratamentos dois anos antes. Fiz estalar o polegar no 3.º dedo da mão direita ao mesmo tempo que disse na minha cabeça: “foi isto que me fizeram!!!”.

Pela primeira vez, um tratamento de Medicina fazia perfeito sentido na minha cabeça! Eu, que era considerado um bom aluno na faculdade, experienciava bastantes dificuldades em encadear o raciocínio diagnóstico e terapêutico convencional. Os exames complementares de diagnóstico e os fármacos tradicionais não me entusiasmavam. Pelo contrário, eram os agentes físicos e algumas terapêuticas alternativas as que punham o meu sistema límbico a dar voltas de felicidade!

Nessa tarde, um enorme sorriso cresceu no meu rosto. Era mesmo isto: MFR era o caminho!