sábado, 5 de janeiro de 2019

Memórias do Ano Comum - Parte 2: A primavera de Faro

Dobrado o inverno e já mais habituado à rotina hospitalar, a primavera fez florescer um estágio de Cirurgia bastante interessante. Durante o curso em Coimbra fui bombardeado com patologia cirúrgica e, como tal, sentia-me preparado para o tipo de doentes com os quais iria trabalhar. Pediatria tinha-me feito ganhar estaleca e da parte da minha equipa médica nunca faltou apoio nem boa-disposição. Tive sorte... é que vi colegas, não obstante trabalharem muito e bem, serem injustamente criticados por falhas que não eram de todo da sua responsabilidade e competência... Ainda pude rever caras conhecidas de Coimbra e privar com um dos melhores Diretores de Serviço que até hoje tive o privilégio de conhecer. O seu sentido de humor característico e ativa presença nos longos dias de urgências e cirurgias ficarão guardados na minha memória como um grande exemplo de profissionalismo!

Entretanto, nem tudo florescia na primavera de Faro. As relações humanas acabaram por tomar o seu natural curso outonal, em que só certas folhas acabam por persistir. Por isso, não foi pois de surpreender que, após um período inicial em que todos se procuravam conhecer, os grupos se foram construindo e as grandes jantaradas de janeiro e fevereiro dando lugar a repastos mais contidos no número de participantes... mas não na euforia! De facto, a vida social é um marco incontornável do Ano Comum em Faro. Não há muita variedade de oferta na diversão noturna, mas sem dúvida que a constante animação da Baixa de Faro é algo de muito especial! O roteiro pelos habituais bares... e aquela deliciosa fatia de pizza às tantas da madrugada... que saudades!

Até finais de maio foi muita a folia aos fins-de-semana. E nem só de noite eram feitos estes dois dias da semana, pois o bom tempo permitia já desbravar os recantos mais belos do Algarve, como a Cascata do Pego do Inferno em Tavira. No entanto, com a aproximação do período de escolha da especialidade, o ambiente foi-se enublando... Afinal, não nos podemos esquecer que para uns entrarem naquilo que desejam e onde pretendem, outros terão de ficar de fora. E desde há uns anos a esta parte, ficar de fora é mesmo a dura realidade para muitos colegas: é que já não existem vagas de especialidade para todos os que fazem o Harrison, o exame que até este ano permitia aceder ao Internato de Formação Específica em Portugal. Perante tão desolador cenário, alguns resolvem fazer as malas e procurar a sorte noutro país. A maioria acaba por escolher repetir o exame, e por isso, maio e junho foram meses de debandada em Faro. Recordo com saudade os colegas que tiveram de regressar a casa para voltar a estudar para a prova. Espero que desta vez consigam triunfar!

Estes meus colegas não puderam já disfrutar em toda a sua plenitude das maravilhosas praias que o Algarve tem para oferecer. É que estávamos no início de junho... e o melhor ainda estava para vir!

sábado, 29 de dezembro de 2018

Memórias do Ano Comum - Parte 1: O início complicado

A água quente escorria desamparada do chuveiro, embatendo com sublime estrondo nos cabelos de um jovem de cabeça baixa. A nuca permaneceu recebendo os fios de água durante segundos, minutos... e da sua mente eclodia apenas um pensamento gritante: “Se este ano vai ser sempre assim... mais vale ficar por aqui!”

Era este o meu estado de espírito depois de regressar a casa do meu segundo turno de urgência de Pediatria, a meio da minha segunda semana de trabalho. No Ano Comum em Faro, Pediatria é o estágio mais exigente. Os recém-médicos trabalham quase como se de Internos de Pediatria se tratassem... Os turnos de urgência são bastante desgastantes: no mesmo espaço físico existem dois balcões de atendimento e quase sempre duas criancinhas a chorar desalmadamente... durante 12 intermináveis horas de trabalho! Se noutros locais do país os Internos do Ano Comum quase nem podem tocar nos infantes, aqui não, aqui é a sério, porque como nos habituámos a dizer, “em Pediatria eles precisam realmente de nós!”. No Berçário, por exemplo, era nossa a tremenda responsabilidade de fazer o primeiro exame físico aos recém-nascidos e raro era termos um médico experiente por perto para validar a nossa avaliação. Aqui, sim, senti-me como a água que corria do meu chuveiro naquela noite: desamparado! É uma das consequências da falta de médicos que assola o Centro Hospitalar e Universitário do Algarve. Para nós, recém-médicos é  inicialmente alarmante ser incumbidos de tamanha responsabilidade em fase tão embrionária da carreira, mas por outro lado são inúmeras as oportunidades de aprendizagem que dificilmente se proporcionariam noutras partes do País.
 
“Se este ano vai ser sempre assim... mais vale ficar por aqui!”

Recordo-me bem das tareias que o corpo parecia ter levado quando acordava na manhã seguinte. Dormia mal, sempre mal, nas noites que seguiam estas jornadas de 12 horas. Penso que só ao cabo do sétimo turno de urgência é que já me estava a habituar à porrada. Foram dois meses cansativos. Dois meses que se seguiram às férias pós-Harrison. Tinha sido dos períodos de maior foco da minha vida. Eu costumava dizer: os culturistas acordam e vão para o ginásio, eu acordo e vou para o escritório. O ano do Harrison foi o culminar de 18 anos de escolaridade iniciados naquela manhã de Setembro de 1999 em que entrei para a Primária. Era a prova derradeira, era o desafio intelectual que toda a minha vida havia esperado. E logrado vencer o objetivo que tinha traçado, fui assolado por aquela sensação que já sabia que iria padecer: o vazio... o vazio intelectual. Durante meses tive saudades da adrenalina de ter um teste pela frente e logo por azar iniciava o meu Ano Comum pela maior das dificuldades... O mundo do trabalho tinha chicoteado bastante a minha pele!

Mas nem tudo foi mau nestes meses. Trouxe estórias engraçadas para contar, tanto dos turnos de urgência, como dos dias de internamento de Pediatria. E como a vida não se reduz ao trabalho, paralelamente ia descobrindo Faro, novas amizades surgiam e em termos de clima, a verdade é que nunca tinha passado tão bem um Inverno na minha vida.

E, de facto, a nossa vida não se reduz ao trabalho... talvez tenha sido esta a grande lição que trouxe deste ano passado em Faro!

sábado, 10 de novembro de 2018

De D. João II a JFK: o legado que nunca iremos ver

Os madeireiros sabem bem que os pinheiros que hoje plantam, só os filhos irão cortar. Já não é para mim! como diz a minha avó num misto de revolta, por não poder colher mais os frutos da árdua tarefa, mas igualmente de dever cumprido, por nos deixar tão boa ou até melhor herança do que aquela que recebeu de seus pais.

À escala mundial, diversos exemplos há de madeireiros que nunca vieram a cortar os pinheiros que um dia semearam.

Quando o Príncipe Perfeito, D. João II, impulsionou Portugal para o período mais próspero da sua existência, lançando a Nação Valente à conquista de mares nunca dantes navegadose terras nunca outrora galgadas, acalentava decerto a esperança de um dia vir a receber a boa nova da descoberta do Caminho Marítimo para a Índia. Ora sucede que a perenidade da vida o acometeu em Alvor, cedo demais para assistir a tamanho feito da armada de Vasco da Gama e, como tal, foi o sucessor, D. Manuel I, a regozijar com a valerosa façanha de 1948.

Bem mais recentemente, nos anos 60 do século XX, as vicissitudes da vida também precipitaram o fim de uma das mais influentes personalidades da História dos EUA e Mundial. O Presidente John F. Kennedy via, assim, fuzilada a ambição de fazer chegar o Homem à Lua até final dessa malograda década. Embora de forma bem mais violenta que o natural perecimento do monarca lusitano, a verdade é que também JFK não pôde testemunhar o tão aguardado feito, tendo sido Nixon a celebrá-lo corria o verão de 1969, o tal que Bryan Adams imortalizado na canção que todos conhecemos.

Com estes dois exemplos, muito distantes entre si na inexorável linha do tempo, podemos constatar que grandes personalidades só vieram a receber a recompensa do seu trabalho já depois da partida terrena. Este facto é facilmente verificável se, na azáfama do dia-a-dia, dispusermos de uns breves minutos para desviar o nosso olhar para os nomes de escritores, políticos, médicos, artistas plásticos, entre outros, eternizados nos nomes das ruas por onde aceleradamente transitamos. Para muitos, esta terá sido injustamente a única homenagem que puderam “ver”. Talvez pela ingratidão de apenas poder “ver” esta homenagem post mortem, um portento do mundo do desporto, como é o nosso Cristiano Ronaldo, já afirmou que Se querem fazer homenagens, façam enquanto [as pessoas] estão vivas. E às vezes, a pressa parece ter sido tanta, que certos bustos tiveram de ser mais tarde retocados...

Ironias à parte, a verdade é que dar nome a uma rua acaba por ser também uma forma de marcar para a posteridade a nossa presença neste pedaço de terra. Como bem sabemos, a chave para a vida eterna tem sido procurada desde há milhares de anos, embora ainda ninguém tenha encontrado o tal Santo Graal, do qual se conta um dia ter recebido o sangue derramado por Jesus Cristo na Cruz e ainda antes ter sido alvo das demandas do Rei Artur.

Mas será que o elixir da juventude eterna existe mesmo? Ou será que esse Santo Graal na verdade não é um minério, um livro ou nem sequer um cálice, mas antes um objeto de realidade metafísica...?

A este propósito, um dia conheci uma Professora que me ensinou que a fonte da juventude eterna não é nenhum cogumelo publicitado agressivamente na televisão... é antes algo bem mais precioso: é as emoções que provocamos, os comportamentos que mudamos e as lições que ensinamos! Seja num gesto de bondade perante um desconhecido, seja numa aula da Faculdade, seja à mesa ao almoço com os nossos filhos... E bem me recordo de um outro sábio me ter segredado que a educação que enraizamos nos nossos filhos é a nossa maior obra...

Seja como for, tanto na vida vivida como na vida contemplada, desde o mais titulado dos reis à mais desconhecida das avós, grande reconhecimento só é de facto alcançado com o humilde e desinteressado altruísmo de quem sabe estar a plantar videiras cujo vinho nunca irá provar. E este sim, é o verdadeiro néctar eterno e imaterial da nossa Humanidade!

sábado, 29 de setembro de 2018

Bons valores não escolhem carteiras!

Há uns tempos reencontrei um bom amigo que fiz nos meses de Erasmus em Maribor. O alemão de metro e noventa e tal tinha vindo passar uma semana de férias a Lisboa. A estagiar num importante banco de Frankfurt, este meu amigo alemão, todos os dias vestia um fato e gravata cujo preço muito provavelmente até dava para pagar dois ou três conjuntos semelhantes para o baile de finalistas do 12.º ano ou mesmo para uma cerimónia mais pomposa, como o Juramento de Hipócrates. Hospedado num dos mais caros hotéis de Lisboa, a dois passos da Avenida mais dispendiosa de Lisboa, de Portugal e quiçá da Europa, este turista recebe-me de braços abertos, como se nos conhecêssemos desde sempre. E nós que apenas havíamos privado 3 semanas das nossas vidas até àquele momento. A amizade essa, foi instantânea, tal como as mensagens trocadas semanalmente pelas redes sociais, numa conversa de grupo que junta pessoas da Alemanha e Portugal, mas também República Checa e Hungria. As amizades que ficam para a vida, sem dúvida alguma, constituem a mais suculenta fatia desse bolo de chocolate que é a experiência Erasmus.
  
Para celebrar a sua vinda ao nosso grande Portugal, quis presentear o “velho” amigo com algo alusivo ao país campeão europeu de futebol. Não admira, por isso, que me tenha ocorrido oferecer o tradicional cachecol do Sporting ou da Académica, algo que decerto cairia no goto de um apaixonado pelo futebol como ele é, mas depois tive outra ideia e decidi regalá-lo com algo respeitante à minha Terra Natal. Assim, levei um pólo com as 8 letras que compõe o nome da minha bela Penacova inscritas ao peito para o meu amigo de Dusseldorf. E ele não só gostou como de imediato despiu o seu pólo da Tommy Hilffiger® e experimentou aquele XL que o português lhe acabara de oferecer! E mais: para minha surpresa anunciou que o iria usar naquela mesmíssima noite! Ele que tinha despido um pólo caro para vestir um todo vincado e baratucho, que no lugar do símbolo da marca americana tinha estampado Penacova. Um gesto que me tocou bastante! A espontaneidade com que anunciou aquela humilde forma de gratidão para comigo, o modo como um estrangeiro vem ao nosso país e respeita assim um pedaço de terra que nem sequer conhece, mas que sabe que é a terra de um amigo seu, é de louvar e partilhar com o mundo.

É que de facto, há carteiras que apesar de custarem a dobrar e a caber no bolso de um bom par de calças de seda, ainda assim têm espaço mais que sobra para acomodar um tão bondoso coração!


domingo, 23 de setembro de 2018

Crónica à minha tia

Com a obra Memorial do Convento, José Saramago expandiu o significado da velha máxima popular “Por trás de um grande homem, há sempre grande mulher.”. As marcantes estórias relatadas em torno da História do Convento de Mafra tornaram anedoticamente redutor atribuir a construção do emblemático monumento apenas ao rei D. João V e ensinaram-nos que, por trás de um grande rei, tem de estar definitivamente um ainda maior povo!

Sucede que eu tenho um primo jornalista de que me orgulho bastante! Como foi destemido e encarou o jornalismo como a sua grande paixão, foi subindo com a força do trabalho as íngremes escadas do ofício até alcançar a notoriedade que lhe é reconhecida atualmente.

Naturalmente, grandes feitos como estes não se alcançam por acaso.... Por exemplo, no FC Porto existem profissionais que resolvem muitas das questões pessoais dos jogadores, fazendo com que os craques apenas tenham de se preocupar em treinar e jogar, tal como se constata nos diversos livros versados aos sucessos dos Dragões ao longo dos anos. É precisamente esta rede de suporte que costuma ficar esquecida na penumbra da História e que Saramago tão bem iluminou com o seu romance. No caso do meu primo jornalista, este precioso apoio é assegurado fundamentalmente pelos pais, meus tios.

Ora, a minha tia, professora aposentada, é danada! Uma autêntica mulher do Norte! É perfeccionista e, como tal, muito meticulosa com todos os aspetos da sua vida. Enquanto docente, procurou sempre dar o melhor exemplo aos seus alunos, muito para além das matérias que lhe estavam incumbidas de lecionar. Estas e outras preocupações condicionaram um estilo de vida que a levou a sofrer um AVC, colocando-a às portas da morte. Felizmente, e quase inexplicavelmente, recuperou e assim adiou o merecido encontro com o Criador. Reformou-se e passou a dedicar a sua vida ao outro filho, que padecia de uma doença grave desde nascença. Até à sua partida, foram décadas de uma luta que muito a desgastaram. Ainda hoje, nos raros momentos em que lhe é permitido sentar-se no sofá e desligar um pouco das mil-e-uma coisas que tem para fazer, a perda deste filho naturalmente ainda lhe faz nascer lágrimas no canto dos olhos. Só que a real fonte das suas inquietações não é essa. Ironicamente, até são estas que mais a afastam das marés de tristeza. Neste momento, a sua grande preocupação (e alegria) são os netinhos que o meu primo jornalista lhe deu.

E por vezes parece que o verbo “dar” é mesmo o mais adequado, pois, à semelhança de muitos outros avós, não raras são as ocasiões em que ela se transforma no “depósito” dos netos! Senão vejamos: é ela quem os leva aos treinos de futebol; é ela quem os leva à natação; é ela quem os leva ao Inglês; é ela quem fica com eles nas noites em que os pais querem ter tempo para si próprios como todos os casais necessitam... E ela faz tudo isto no meio da babel que constitui a enorme cidade de Lisboa! 

Por isso, às vezes interrogo-me: como é que o meu primo jornalista vai conseguir continuar a ensinar o mundo aos meus priminhos quando os pais lhe faltarem?

Infelizmente, a frágil saúde da sua mãe, minha avó, também não ajuda nada! Mas ainda que morando a mais de 200Km, a distância nunca foi um impedimento para, por exemplo, levar a minha avó às consultas de que necessita.

Como já devem ter percebido, existe um forte motivo para estar a pessoalizar este texto no grande ser humano que é a minha tia. Não é que o talentoso e multifacetado do meu tio não desempenhe um marcante papel na educação dos meus priminhos. Não, antes pelo contrário! A razão de dedicar esta crónica à minha tia é que, por estes dias, ela está a atravessar um período conturbado que coincide com a bênção de completar mais um aniversário.

Tia, para além dos óbvios Parabéns quero principalmente dirigir-te um sentido Muito Obrigado por tudo o que fazes por nós! Estou certo, tia, de que, quando começares a vislumbrar os ainda ténues raios de luz que rasgam as nuvens negras que se condensaram na tua existência, irás estar a olhar-te ao espelho e a perceber o sol resplandecente que és nas nossas vidas!

domingo, 16 de setembro de 2018

Sporting e PSD: a "riqueza" que os (des)une!

Sporting e PSD. “O clube e o partido dos ricos”. É assim que estas instituições têm vindo a ser rotuladas ao longo dos seus largos anos de existência. Mas será que efetivamente essas etiquetas lhes colam assim tão bem?

Na vida nem tudo é preto ou branco, mas existe indesmentivelmente algo a unir sportinguistas e social-democratas. E não, não são as tais chorudas contas bancárias dos seus simpatizantes. E também não é a cor laranja, tonalidade imediatamente associada ao partido político de centro-direita e que o clube de Alvalade exibiu no equipamento alternativo da horrível temporada de 2012-2013. O que tem vindo a unir estas instituições é sim a marcada instabilidade interna! 

Começando pelo Sporting, com as eleições do passado dia 8 de Setembro, os Leões elegeram o seu 43.º presidente, Frederico Varandas. Este acontecimento foi o culminar dos meses mais vergonhosos da história do clube, cujo episódio mais triste foi seguramente o das agressões à equipa de futebol sénior no dia 15 maio em Alcochete às mãos de 50 elementos alegadamente afectos ao próprio clube!

Por seu turno, o PSD elegeu o 18.º presidente desde o 25 de abril de 1974 no início do ano, Rui Rio, que sucedeu a um Pedro Passos Coelho que nunca recuperou verdadeiramente da mágoa do afastamento do governo pela “Geringonça de Esquerda”.

Depois de um jejum de 18 anos sem campeonatos nacionais de futebol sénior conquistados, os Leões tiveram na dobragem do século também um virar de esperança com 2 títulos em 3 anos, mas foi sol de pouca dura. E a partir da demissão de José Eduardo Bettencourt, em 2011, o Sporting entra numa roda viva de eleições e demissões presidenciais. Primeiro Godinho Lopes, depois Bruno de Carvalho. E pelo meio, uma resma infindável de treinadores e jogadores contratados, tendo o Sporting inclusivé a espaços jogado às urtigas a aposta na Academia.

Já os Laranjas passam por um período algo similar ao leonino, nos anos que sucederam à partida de Durão Barroso para a Comissão Europeia e à demissão de Pedro Santana Lopes após a derrota para José Sócrates nas Eleições Legislativas de 2005. Seguem-se 3 líderes até que o PSD encarreira durante uns tempos com Pedro Passos Coelho. Primeiro é Marques Mendes, depois é Luís Filipe Menezes e por fim, Manuela Ferreira Leite.

Ora, ainda mais interessante é verificar que os sinuosos galhos e ramos desta árvore entroncam bem mais atrás na linha temporal, no elemento central desta história toda: o fim de uma grande liderança! João Rocha no SCP. Cavaco Silva no PSD. Cada um destes senhores marcou uma era de grande prosperidade na respetiva instituição. Em 13 anos de Sporting, o setubalense conquistou 3 campeonatos nacionais de futebol e nas modalidades, então, deixou um legado impressionante com vários títulos europeus no palmarés. Já o economista de Boliqueime governou o País durante uma década (1985 a 1995), alcançando duas maiorias absolutas nas três eleições que disputou.

De facto, a entropia gerada pela partida do grande líder é por vezes demasiada... E a sabedoria popular pode ajudar a perceber melhor as razões para a poeira tardar em assentar...

Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. Este parece ser o problema do Sporting. Se o Sporting tem ganho aquele campeonato em 2006-2007 com Paulo Bento ou o de 2015-2016 com Jorge Jesus, quem sabe onde o clube estaria agora? Será que as nuvens de instabilidade ainda tapariam o sol em Alvalade?

Dois galos para um só poleiro. Bem, na verdade não são apenas dois, são vários, talvez um galinheiro inteiro repleto de cristas, umas ansiosas por dar o salto, outras frustradas por já o terem falhado. Este parece ser o problema do PSD. Basta ver os programas de comentário político para o perceber. O permanente negativismo em torno dos sucessivos líderes do próprio partido tem vindo a marcar uma profunda diferença para com a concorrência e é aí que os sociais-democratas começam a perder eleições.

Pelos vistos, parece que a tal riqueza monetária não é o maior factor de ligação entre SCP e PSD. É, sim, ironicamente a fraqueza dos elos internos que mais os aproxima, condicionando um notório clima de guerrilha endógena semanalmente noticiado nos órgãos de comunicação social.

Rui Rio já foi eleito há 8 meses. Frederico Varandas foi eleito apenas há 8 dias. Se no caso do político já percebemos que a instabilidade continua, no que concerne ao médico que vai tentar curar o “mal de Alvalade” só os próximos tempos dirão o que lhe espera.


PS: Um agradecimento muito especial aos meus colegas Filipa e Castilho pela profícua troca de ideias que culminou na redação deste texto.

domingo, 13 de maio de 2018

E com 95 vais para MGF?!

E com 95 vais para MGF?!

É a pergunta que todos fizeram quando souberam a nota do meu amigo.

Já todos sabiam que ele queria tirar a especialidade de Medicina Geral e Familiar (MGF). Desde sempre que gostara do contacto próximo com as pessoas, de empreender um bom diálogo com o doente, muitas das vezes meras palavras de circunstância, um “small talking” sobre experiências da vida, desde o agricultor cujas batatas teimam em se estragar ano após ano à custa da maldita borboleta ao empresário que ainda ontem regressou de uma viagem de negócios em Itália.

A decisão foi tomada após fazer o estágio de MGF no 6.º ano. A ideia já vinha sendo consolidada ao longo do curso e finalmente ele concluiu que era mesmo aquela a especialidade médica que mais o preenchia e sobretudo aquela em que mais seria feliz o suficiente para espalhar essa mesma alegria ao ser humano que à sua frente sofre e a si vem procurar auxílio. Além disso, MGF é uma especialidade que lhe permite ter um horário de trabalho decente, diurno e com disponibilidade para realizar outras atividades que o tornam mais único e especial. É que ele adora tanto correr ao ar livre, escrever, viajar e conviver... MGF confere-lhe tempo para depois de tratar da família dos seus utentes poder cuidar da sua. É que a vida stressante dos médicos (e demais profissões) tantas vezes os impede de dar atenção aos filhos, amputando o seu crescimento do carinho, valores e experiências que os tablets e smartphones ainda não conseguem transmitir...

Historicamente, a especialidade de MGF é das últimas a fechar a nível nacional. Os jovens médicos que obtêm as melhores classificações na Prova Nacional de Seriação, o tal exame de acesso à especialidade conhecido por “Harrison”, tendem a dar primazia a especialidades como Dermatologia, Oftalmologia, Ortopedia, Gastrenterologia etc deixando as Saúdes Públicas, as Medicinas do Trabalho, as Patologias Clínicas e a MGF para último lugar. Porquê?, pergunta quem está de fora. Ora, é fácil responder: são especialidades que dão maior retorno financeiro e gozam de mais prestígio dentro da comunidade médica. Com isto não fiquem a pensar que quem as escolhe apenas procura mais euros na carteira. Estas são igualmente áreas com grande margem de evolução científica e tecnológica, o que atrai excelentes profissionais que valorizam essas vertentes. No entanto, o fator monetário não deixa de ser realidade indissociável e com peso desmesuradamente elevado nas mentes de outros que nunca deveriam sequer ter tido a oportunidade de entrar em Medicina. Talvez por isso é que a minha avó no outro dia veio para casa a dizer mal do médico que a atendeu no hospital...

Voltando ao meu amigo que vai escolher MGF, se ele tivesse tirado um 60% ou 70% no exame ninguém questionaria a sua ambição de ser médico de família, porque estaria de acordo com a nota. Mas a verdade é que ele sacou um invejado 95%, nota que o colocou nos 100 primeiros jovens médicos a escolher uma vaga este ano. De repente todos começaram a pensar que ele iria desistir daquele sonho ridículo de passar a vida a ouvir as pessoas virem ter com ele para se queixar de dores de cabeça ou de prisão de ventre, de passar a vida a gerir a medicação para os diabetes do sr. Júlio ou para a hipertensão da sra. Aurora, de passar a vida num Centro de Saúde onde toda a gente se conhece, de passar a vida no serviço Público enquanto outros colegas enriquecem no setor Privado...

E com 95 vais mesmo para MGF?!

A verdade é que este meu amigo vai mesmo escolher MGF! Ele não precisava dessa nota, mas o orgulho pessoal fê-lo estudar mais, fê-lo sacrificar-se mais do que decerto necessitaria... O sonho dele era esse antes de fazer o exame. Por isso, em que é que uma nota alta que lhe permite concretizar o seu sonho (e também de realizar sonhos de outros colegas invejosos) lhe vai mudar o desejo?