sábado, 15 de fevereiro de 2025

Memórias do Internato Médico - a instabilidade

A vida de um Médico Interno é pautada pela instabilidade. 

Em primeiro lugar, a esmagadora maioria dos colegas que fazem turnos nos Serviços de Urgência vivem numa tremenda instabilidade de horários. Há sempre aquela duvidazinha se vão estar livres no fim de semana em que os colegas com quem não estão há meses estão a combinar um jantar. Não conseguem saber se vão conseguir ir ao concerto que tanto desejam ir que terá lugar daqui a meio ano.

 

Depois, existe também a instabilidade da dúvida do dia seguinte. O dia seguinte à conclusão do Internato de Formação Específica, o tal dia a seguir a tornar-se Médico Especialista. Para onde ir a seguir? Permanecer na mesma instituição ou mudar de local de trabalho? Continuar em Portugal ou partir rumo à aventura do estrangeiro?

 

E no caso concreto dos Médicos Internos da minha especialidade, Medicina Física e de Reabilitação (MFR), que provêm de um hospital não central, existe aquela instabilidade da necessidade de realizar múltiplos estágios fora da sua instituição de origem, com tudo o que isso acarreta de bom e de mau. Não é fácil gerir a logística de encontrar casa para morar no novo destino, manter uma relação amorosa... Enfim, é desafiante!

 

E obviamente que tal instabilidade é maior nas instituições que gozam de menor idoneidade formativa, contudo, quando se chega ao 4.º ano de Internato de MFR é quase universal o êxodo dos Médicos Internos rumo aos Centros de Reabilitação. Tal passo formativo reveste-se de suma importância dado que permite ao Médico em especialização tomar contacto com a reabilitação diferenciada multiprofissional e multidisciplinar de adultos e crianças com AVC, lesões medulares, traumatismos encefálicos, doenças cardiorrespiratórias e neurológicas várias, entre muitas outras. Qualquer Centro de Reabilitação em Portugal oferece a maioria dos cuidados que os pacientes adultos necessitam, contudo, o 4.º ano de Internato é também uma grande oportunidade de conhecer a realidade dos vários centros do país e, como tal, não é raro os Médicos Internos fazerem um périplo pelas várias instituições. E os horizontes expandem-se!

 


Transcorrido já mais de meio ano desde que iniciei este percurso itinerante, posso afirmar que o balanço tem sido bastante positivo, mas também agridoce.

Comecei o ano no Centro de Reabilitação da Região Centro, o Rovisco Pais, rumei ao Centro de Reabilitação de Alcoitão, seguiu-se o Hospital de Santo António no Porto e agora vou completar o ano no Centro de Reabilitação do Norte, em Valadares. Procurei sempre dar o meu melhor nestes vários hospitais por onde tenho passado. O que tenho vindo a aprender e as relações de trabalho que tenho vindo a cultivar, só mais tarde vou saber dar o devido valor. As deslocações são difíceis, mas o que mais custa é a hora da despedida! Quando se alcança o ponto de rebuçado, no qual o trabalho começa a fluir como se já fosses parte da engrenagem, eis que o árbitro apita para o final da partida e chega a hora de rumar ao balneário, fazer as malas e rumar a outras paragens. Nem dá tempo para nos fartarmos! E às vezes a saudade toma-nos de assalto. Tenho saudades de todos estes sítios por onde tenho passado. Tenho saudades do hospital onde comecei o Internato. Tenho saudades da cidade que é minha e ao mesmo tempo nunca o foi...

 

É por isto que quando paro e nos deito na espreguiçadeira ao sol, às vezes começo a imaginar que seria bom a vida ser um jogo de PlayStation.


Daqueles videojogos mais modernos em que a história principal assume já a complexidade de se poder seguir vários caminhos e chegar a diferentes finais consoante as escolhas que se forem fazendo à medida que o jogo se desenrola.


Se eu pudesse, gravaria o jogo no momento imediatamente antes da primeira grande decisão e, a partir daí ia jogando em direção a um dos desfechos. Jogava, jogava, jogava até chegar ao fim. Ou me fartar. E depois fazia loading no save primordial e, voltando ao início rumaria agora noutra direção. E mais uma vez faria tudo para alcançar o 100%. Faria todas as missões secundárias, recolheria todos os hidden gems... e no final, talvez regressasse uma vez mais ao momento inaugural... e se as forças ainda mo permitissem, se a ambição ainda me impulsionasse, voltaria a recomeçar tudo outra vez, em busca doutro final distinto.



Nota: A versão inicial deste texto foi redigida em Setembro 2022, quando me encontrava no 4.º do Internato de MFR. Na altura estagiava no Centro de Reabilitação do Norte e estava desde o início do ano fora do meu hospital de origem, o então denominado Centro Hospitalar de Entre o Douro e Vouga. Este texto ficou esquecido vários anos na gaveta e decidi agora publicá-lo. Mantém-se perfeitamente atual, de tal modo que não necessitei de alterar o conteúdo.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Agora não me apetece estudar!

Há uns tempos atrás perguntaram-me qual é a qualidade que eu possuo que me permitiu ter sido um aluno de sucesso ao longo dos vários e vastos anos do meu percurso escolar e académico. Depois de alguma reflexão, na qual batalharam diversos atributos que poderão ter sido importantes, aquele que no final ergueu o punho cerrado em sinal de vitória foi a consistência.

A consistência.

 

A consistência de na primeira tarde livre de cada período escolar fazer logo os tpcs para não deixar as tarefas acumular. 

 

A consistência de começar a ler o livro de Biologia e Geologia com uma semana de antecedência da data do teste. A consistência de o ler religiosamente todos os dias deitadinho no sofá e nos intervalos ligar a PlayStation e jogar uma partida de PES (sim, eu ainda sou do tempo em que o PES era o rei) para descansar a mente. Jogar só mais uma partida e ser capaz de desligar a PlayStation. E pousado o comando, pegar logo no livro de História e passar para a preparação desse outro teste que ia ter na mesma semana. Quando era à base de decorar, era esta a minha consistência.

 

Quando se tratava da Matemática, da Física ou da Química, aí a conversa era outra. Não havia cá lugar para sofás, a consistência era estar sentado à secretária a fazer exercícios e mais exercícios para treinar o raciocínio.

 

E a covinha do sofá, moldada ao longo da escolaridade obrigatória, ficou praticamente aliviada quando cheguei à Faculdade. Aí a sala de estar teve de ser trocada pelo sossego e isolamento do escritório. Nesses anos, tudo foi construído sentado naquela secretária de madeira firme rodeado de estantes de livros e enciclopédias que criavam um ambiente intelectual, a olhar de frente para uma parede que iria receber os pósteres do Sporting vencedor da Taça de Portugal em 2015 e da seleção campeã europeia de futebol em 2016. Muitas horas a estudar as Anatomias, as Fisiologias, as Farmacologias, as Propedêuticas, as Cirurgias, as Psiquiatrias, as Nefrologias e claro, os capítulos do Harrison para o exame de acesso à especialidade.

 

Tudo isto enquanto a azeitona se apanhava da oliveira que se habituou a olhar-me através da janela do escritório, a ver-me absorvido em livros, apontamentos e no computador ao longo de 6 longos e preenchidos anos de estudo universitário. Uma oliveira para a qual eu me encontrava de costas, verdadeira imagem do que foi a minha vida ao longo dos anos da Faculdade. Foco e compromisso totais para com os objetivos traçados! Uma quase total alienação do mundo lá fora ao longo desse piscar de olhos que constituía os arrastados 10 meses de extensão de cada ano letivo.

 

Sabem, é irónico...

 

É muito irónico de facto. Durante a faculdade, em tom de brincadeira (mas uma brincadeira a sério), o meu pai chegou até a questionar-me como é que eu conseguia passar os sábados inteirinhos sentado na cadeira do escritório a estudar. É mesmo irónico... Hoje sou eu que me questiono como o logrei fazer. É mesmo muito irónico... Hoje sou eu quem já não o quer fazer!

 

Mas não me entendam mal. Não estou arrependido!

 

Não estou arrependido de ter dado tudo nos 12 anos de escolaridade básica e secundária que me permitiram alcançar o respeito dos meus pares e dos meus mestres.

Não estou arrependido de ter dado tudo nos 6 anos de ensino universitário que me permitiram ser Médico.

Não estou arrependido de ter dado tudo no ano que passei a preparar o temido e desafiante “Harrison”, que me permitiu aceder à especialidade que queria.

 

Não me entendam mal. Não estou arrependido!

 

Simplesmente cumpri com a missão para a qual fui criado: ser uma "máquina" de sucesso nos estudos.

 

Nunca tive de ser o melhor, mas tive sempre de deixar a pele em campo. Enfim, mais que tudo, tinha de haver a tal atitude que o atual treinador do Sporting referiu na sua conferência de imprensa de apresentação. E foi isso que fiz. Estudei muito, muito mesmo... Li e sublinhei intermináveis calhamaços dos quais extraí conhecimento que pouco ou nada emprego hoje em dia no meu trabalho. Mas não estou arrependido. O verdadeiro objetivo não era retirar ensinamentos para o meu trabalho futuro. Pasmem-se. A autêntica meta era “ganhar”, era obter um bom resultado na seguinte prova escrita, no próximo exame oral.

 

Mas hoje duvido que o conseguisse tornar a fazer.

 

É verdade que voltei a provar um bocadinho da minha antiga receita de sucesso quando há um ano me encontrava a estudar para o exame final para obtenção do grau de Médico Especialista em Medicina Física e de Reabilitação. Deu para matar saudades daqueles meses inteiros de foco total para com o alcançar do saboroso objetivo, para com o cumprir daquela utopia de levantar a taça e dar a gloriosa volta olímpica ao estádio.

 

Mas fiquei cansado. Fiquei muito cansado.

 

E ainda estou.

 

E mesmo eu, que um dia, logo no início do meu primeiro ano de trabalho como médico, escrevi uma crónica onde fiz a apologia do estudante profissional, tenho de admitir que agora tenho dúvidas, que agora talvez esteja mudado...

 

Tenho de admitir que estou cansado.

Que agora não é hora de estudar.

Que agora não me apetece mesmo estudar!




domingo, 19 de janeiro de 2025

Leões rumo a Brugge - o dia do jogo (segunda parte)

Chegados finalmente ao Estádio Jan Breydel conseguimos percorrer sem sobressalto os pontos de controlo de revista e de controlo eletrónico de bilhete, tendo acedido à zona dos adeptos visitantes no interior do estádio, onde já muito barulho se fazia ouvir, culpa das várias claques aí presentes que entoavam cânticos de apoio ao nosso clube.



Decidimos forrar mais um pouco o estômago, mas ao contrário do esperado, não havia cachorros quentes disponíveis, o que havia era uma sandes de “febra de presunto” (nem sei bem explicar o que comi, sinceramente...). Isso e cerveja com álcool, algo proibido em Portugal no interior dos recintos desportivos.

 

Já na bancada, situada num dos cantos atrás de uma baliza, as claques decoraram as vedações com as suas bandeiras além de terem passado o jogo interior a abanar gigantes bandeiras que nos tapavam muitas vezes a visão da grande área da baliza mais próxima. “Temos de apoiar” dizia um deles... Não valia a pena discutir, até porque no intervalo houve um desentendimento entre alguns elementos... Nestas coisas o melhor mesmo é estar calado e evitar entrar na confusão.

 

Quanto ao jogo em si... Bem, essa parte toda a gente pôde ver na televisão ou assistir ao resumo na Internet. Enfim, no espaço de pouco mais de 1 mês passei de ver ao vivo o meu Sporting ganhar ao Manchester City em Alvalade para o ver perder em Brugge, naquela que foi a quarta decorra consecutiva da era João Pereira.

 

Não obstante o período negativo que a equipa vinha a atravessar, passamos o jogo todo a apoiar, mas quando sofremos o segundo golo do Brugge, aí percebemos que aquela noite gélida seria ainda mais arrefecida por outra derrota.




Foi também da bancada que umas 10 filas à nossa frente alguém teve mais uma brilhante ideia. Desta feita a de lançar a infame tocha contra os jogadores leoninos que tinham vindo agradecer o apoio dos milhares de adeptos que se deslocaram ao frio da Bélgica para os apoiar. Assisti de perto à revolta de Gyokeres, Harder, St. Juste e companhia. Afinal, há 1 mês atrás estes jogadores eram os heróis que massacravam os adversários, que mesmo a perder por 2 davam a volta ao resultado... no curto lapso temporal de 4 semanas não se transformaram certamente nos vilões!

 

O Sporting está a ser vítima do seu sucesso. Ao longo dos anos foi trocando de treinadores a meio da época por maus resultados. Agora perdeu o seu “Mourinho” (e praticamente toda a equipa técnica) precisamente por os feitos e o modo superlativo como estes foram sendo alcançados terem sido enormes nas últimas temporadas.


Já com a cabeça pesada da derrota, ainda tivemos de aguardar praticamente 1 hora ao frio até que os portões do perímetro do recinto fossem abertos para nós sairmos. O clube belga providenciou novamente autocarros para nos retornar ao centro da cidade, mas como não era possível levar todo o mar de gente de uma assentada só, fomos aguardando ao frio até que chegasse a nossa vez. O que valeu foi o calor humano das formigas de adeptos todas coladinhas aos portões verdes que de meia em meia hora se abriam para nos deixar esgueirar aos atropelões rumo ao interior dos autocarros. E tudo isto sobe o olhar imperial das mulheres e homens das forças de segurança que nos vigiavam sentadas no dorso alto de cavalos majestosos.


Tudo somado (e resultado à parte), esta foi uma grande experiência. Folia e companhia. Quem sabe se a repetir num futuro não muito distante...

 

Saudações Leoninas!

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Leões rumo a Brugge - o dia do jogo (primeira parte)

No dia seguinte aproveitamos a manhã (bem gelada!) para fazer um passeio de barco pelos canais de Brugge. Recomendo vivamente esta experiência a quem for a esta cidade belga, pois vão conseguir perceber o porquê de ser apelidada de “Veneza do Norte”, uma cidade onde a arquitetura de limpo e fino recorte típico dos países do Benelux se funde com águas ornamentadas por dezenas de cisnes que nos transportam para uma cena de um filme romântico.

Quando a embarcação atracou, a barriga já dava horas e, assim, fomos provar o Stew, o estufado de carne típico belga, ao restaurante Vilaminck’14, onde vários sportinguistas encontraram, além do aconchego do estômago, igualmente um abrigo do frio que se fazia sentir no exterior. Tivemos a sorte de ser servidos por um funcionário latino que falava bem português, o que, àquela distância de casa não deixou de ser surpreendente! Isso e o pão escuro e estaladiço acabadinho de sair do forno que nos deram de entradas. Ah, e a conta. Por esta é que não esperávamos de todo. Ao invés da conta informatizada, como é norma em qualquer restaurante citadino do século XXI, o que nos deixaram na mesa foi uma conta rabiscada à mão. A chamada conta de merceeiro! Surpresa atrás de surpresa.

 


No trajeto de volta ao hotel paramos numa loja para comprar os tradicionais chocolates belgas. Após uns minutos de descanso no quarto, nos quais aproveitamos para reforçar o nosso escudo contra o frio (isto é, vestir mais umas camadas de roupa), rumamos ao ponto de encontro com os restantes adeptos, o Meeting Point em língua anglo-saxónica, situado nas imediações do Bar des Amis, onde tínhamos estado na véspera.

 


Aí bebemos, conversamos, cantamos, tiramos fotos, cantamos e bebemos outra vez durante mais de 4 horas. Mas nem tudo correu bem. Ou melhor, até correu, mas podia ter sido bastante grave. Passo a explicar. Depois de um dos adeptos ter acendido uma tocha verde e com isso também ter incendiado os ânimos das hostes leoninas aí presentes, houve outro “adepto” que teve a brilhante ideia de lançar fogo de artificio em plena esplanada. Do nada começaram a jorrar raios explosivos do centro da esplanada, serpenteando por entre a multidão presente. As pessoas corriam a refugiar-se onde podiam. O alvoroço era total! E por sorte, muita, muita sorte, ninguém saiu ferido. E todo este rebuliço foi assistido de forma impávida e serena por um velho casal belga que se encontrava sentado na esplanada a apreciar o seu belo copo de bebida de cevada fermentada...

 



E o que é que nós fizemos depois disto? Mãos à cabeça, dar graças por estarmos a salvo e... beber, cantar e beber! É incrível o que o futebol nos faz! E não é só aos homens, que havia lá várias leoas que rugiam cânticos tão ou mais efusivamente do que nós!

 


Chegou finalmente a hora de nos dirigirmos para os autocarros que nos levariam do centro da cidade até ao estádio do Club Brugge, num percurso de cerca de 10min. O nosso grupo aproveitou para fazer um pequeno desvio e parar num supermercado para jantar uns rolls de frango e atum, além de se reabastecer de cerveja. Por isso, acabamos por não seguir na procissão de adeptos que se dirigiam do Meeting Point para o local onde aguardavam os autocarros. Nesse local, uma enorme fila se formou, dado que a polícia obrigava a mostrar o bilhete eletrónico de acesso ao jogo para permitir a passagem.

 


Transposto o “ponto de controlo” entramos num dos autocarros e o trajeto até ao estádio foi propulsionado a combustível Sporting allez. Sempre, sempre a cantar até ao reduto do clube anfitrião!

sábado, 21 de dezembro de 2024

Leões rumo a Brugge - o dia antes do jogo


Cresci a ver o Sporting perder. É um facto. Desde que celebrei o título de 2002, ainda sem grande idade para perceber ou saborear o que estava a suceder, passei o resto da minha infância, toda a adolescência e já uma boa parte da vida adulta a ver os portistas e benfiquistas a dividirem entre si as festas de celebração dos campeonatos nacionais. Para mim, ganhar a Taça de Portugal valia pela época inteira. Enfim, sou Sportinguista, um Eterno Sofredor!


Contudo, nos últimos 5 anos os sportinguistas tiveram os seus merecidos momentos de glória, em que o gáudio das boas exibições finalmente rimou com valentes celebrações.

 

E não sendo eu um sportinguista dos mais loucos que existem por este Portugal e Mundo fora, a verdade é que decidi fazer uma coisa que ainda não tinha feito: ir ver o Sporting jogar fora para a Champions!

 

Foi assim que, no final de setembro, ainda o Sporting cilindrava os adversários sob o comando de Rúben Amorim, que comprei a viagem de avião para a Bélgica, onde o Sporting jogaria 3 meses mais tarde, em dezembro.

 

Nesse espaço de tempo o Sporting acabaria por descer do céu ao inferno e com os imprevistos da vida, a verdade é que no dia da viagem até à Bélgica, a minha vontade de ir era quase nula. Todavia, lá fiz a viagem de carro desde Penacova até ao Porto e apanhei o voo até Bruxelas. Ditou a sorte que no avião ficasse sentado ao lado de membros do Núcleo Sportinguista de Tábua e de Arganil, concelhos vizinhos do meu município. Gente simpática que me disse onde devia apanhar o comboio mal chegasse ao aeroporto. Graças a eles consegui chegar mais cedo do que o previsto a Brugge, onde os meus colegas de aventura me aguardavam já com uma tarde inteira de cerveja em cima de avanço.

 

Mal cheguei tiramos a foto que ilustra esta crónica, imediatamente enviada aos meus colegas do Núcleo Sportinguista de Penacova. Seguimos depois para a pizzaria Amuni Bar para jantar, onde tomei a primeira cerveja em terras belgas: a famosa Jupiler, a “Super Bock / Sagres” daquelas bandas.

 


Terminado o repasto, fui pousar a mochila ao hotel e seguimos para os bares, onde nos reunimos com dezenas e dezenas de sportinguistas. Primeiro fomos ao Bar Monk, onde para além da confraternização com os nossos concidadãos, fomos ainda abordados por um casal inglês apoiante do Everton e também por um marroquino adepto do Raja Casablanca. Esse mega fanático do clube que partilha as cores verdes com o Sporting mostrou-nos vídeos da falange de adeptos a entoar verdadeiros e intermináveis recitais de amor ao seu clube, bem como cânticos de agradecimento aos treinadores lusos que haviam logrado vencer campeonatos pelo clube ao longo das últimas décadas (com destaque para José Romão, um histórico de quem já não ouvia falar há anos). O marroquino até nos mostrou um vídeo no qual as claques fizeram uma coreografia com cartolinas de modo a desenhar uma gigante bandeira portuguesa humana nas bancadas! Quando se ganha, toda a loucura é pouca!

Secados os vários copos que tomamos no Monk, optamos por trocar para o Bar des Amis, onde se encontrava a Presidente do Núcleo Sportinguista de Condeixa, agremiação à qual tinha comprado o bilhete para o jogo. Mal chegamos a música ambiente tinha algo de familiar, mas diferente do esperado para um bar edificado a mais de 2000Km do Estádio José de Alvalade. O que se ouvia não era electronic dance music, eram sim canções dos Supporting! Sim, a banda de rock que se dedica a criar temas musicais alusivos ao clube leonino. Quem lá estava há mais tempo acabou por nos explicar que o DJ residente havia sido gentilmente convidado a trocar a fúria do tecno pelo rugido do leão... É a loucura do futebol no seu melhor!

sábado, 7 de dezembro de 2024

13 anos e 2 funerais depois

13 anos distam o ano do funeral do meu saudoso primo André do ano do funeral da minha querida avó materna que acaba de partir.

 

Abril de 2011. Dezembro de 2024.

 

O lugar?

A mesma aldeia plantada nas encostas serpenteantes na Serra de Aire e Candeeiros.

 

Cheguei cedo, ainda havia uma hora de espera até ao início da missa fúnebre. Como tal, decidi dar uma volta e admirar a beleza da paisagem verdejante que contrastava com o cinzento dos céus. Apoiado num pequeno muro, mirei os caminhos que percorri nesse dia de 2011 enquanto também aguardava pela hora do funeral. Como tinha ainda tempo, decidi repetir e aproveitar para fazer uma reflexão.

 

O conteúdo desta reflexão foi surgindo ao longo do percurso. O título, esse, vi-o subitamente brotar do meu subconsciente enquanto descia a colina íngreme. Mas à medida que o caminho se foi inclinando, a risada que dei à conta desse título hollywoodesco foi dando lugar à tal reflexão... Em 13 anos tantas coisas mudaram... e outras tantas permanecem teimosamente iguais.

 

Há 13 anos eu ainda ia fazer 18 anos, agora já estou com 31.

 

Há 13 anos o Sporting estava há 9 sem ser campeão nacional, agora acaba de ganhar o segundo campeonato em 4 anos.

 

Há 13 anos eu ainda nem tinha dado o meu primeiro beijo, agora já tive namoros que nunca esquecerei.

 

Há 13 anos Passos Coelho ainda ia ser eleito Primeiro Ministro, agora muitos o querem a Presidente da República.

 

Há 13 anos eu pensava que ia ser treinador ou olheiro de futebol, agora até já pouca bola vejo.

 

Há 13 anos eu pensava que os médicos só trabalhavam, agora vejo que não tem de ser assim.

 

Há 13 anos eu só sabia estudar, agora eu quero mesmo é disfrutar.

 

Há 13 anos não sobravam vagas de acesso às especialidades médicas, agora os meus colegas começaram a abrir os olhos.

 

Há 13 anos eu não quis ir à Viagem de Finalistas, agora ia a duas.

 

Há 13 anos Donald Trump era para mim um multimilionário que tinha feito uma participação muito engraçada na WWE, agora vai assumir pela segunda vez a Presidência dos EUA.

 

Há 13 anos eu só tinha vivido na terra onde cresci, agora até meses pelo estrangeiro já andei.

 

Há 13 anos o mundo chorava a catástrofe de Fukushima, agora tivemos aqui perto a fatalidade da tempestade DANA em Valência.

 

Há 13 anos eu ainda não tinha conhecido os meus abdominais, agora já os vejo.

 

Há 13 anos o José Rodrigues dos Santos publicaria ainda o seu nono romance, agora acaba de lançar o vigésimo sexto.

 

Há 13 anos eu não bebia mais do que dois finos, agora não me apetece voltar a fazer o mesmo.

 

Há 13 anos Elizabeth II ainda era a Rainha de Inglaterra, agora descobrimos que nem sequer ela é eterna.

 

Há 13 anos eu ainda não tinha andado de avião, agora já perdi a conta aos voos que apanhei.

 

Há 13 anos André Villas-Boas era o novo Mourinho, agora foi o Rúben Amorim que finalmente apanhou o tal voo para salvar o Manchester United.

 

Há 13 anos eu tinha uma família, agora sei que tenho outra.

 

Há 13 anos começavam a surgir os novos telemóveis com ecrã tátil, agora os smartphones dominam a palma das nossas vidas.

 

Há 13 anos eu tinha amigos de escola, agora continuo a ter as fortes amizades que persistiram.

 

Há 13 anos o Facebook banalizava-se no nosso dia a dia, agora há tanta rede social que já nem sabemos bem o que ser social é.

 

Há 13 anos eu tinha sonhos, agora continuo a ter...

 

Os últimos passos desta reflexão foram-me guiando de volta à capela onde dentro de breves momentos iria principiar a cerimónia. À medida que me ia aproximando do local uma certeza se foi formando.

 

Ao longo destes 13 anos já fui e já conheci muita coisa. Fui o Gonçalo, o filho da professora Amazilde, o neto do Ti Alberto Chupinhas, o Engenheiro, o Dr. Engenheiro, o Doutor... Enfim, muito se foi alterando ao longo deste tempo todo, mas 13 anos e 2 funerais depois há uma coisa que não mudou. Eu. Mais calejado, mais refinado.


13 anos e 2 funerais depois, eu continuo a ser eu mesmo: o Gonçalo, de Penacova!

domingo, 10 de novembro de 2024

Sol de Outubro

Ai, Sol de Outubro!

Sol por vezes ainda mais quente do que o seu sósia num dia de verão.

Ai, Sol de Outubro! Trazes-me boas memórias.
Invariavelmente os teus raios amarram-me como tentáculos e puxam-me para junto de ti, onde o teu brilho intenso ofusca a visão do presente e me transporta para Aquele Outro Tempo.

Na minha testa já febril como a de uma criança que, contra a advertência da avó, teima em brincar ao sol sem boné na cabeça vêm as memórias d'Aquele Outro Tempo.

Recuo aos primórdios do tempo de faculdade. No meu ano de caloiro, as aulas só começaram a 26 de setembro. A primeira grande vaga de Praxe Académica prolongou-se diariamente pelo mês de outubro até rebentar no êxtase no Cortejo da Festa das Latas e Imposição das Insígnias no dia 1 de novembro. Uma terça-feira, e por coincidência um feriado, que permitiu a mais famílias vir assistir  ao desfilar dos caloiros em trajes alegóricos como se de um carnaval se tratasse.

Ai, Sol de Outubro!


Que saudades me trazes tu d'Aquele Outro Tempo em que eu tinha mais cabelo e menos preocupações.

Porventura, estarei a ser injusto. Preocupações sempre as houve, sempre as há. Mas eram diferentes. (Elas são sempre diferentes...) Mas eram as preocupações normais e expectáveis para Aquele Outro Tempo. As de agora nem todas o são.

N'Aquele Outro Tempo o que me apoquentava era sobreviver a mais um dia de Praxe. Era sobreviver à matéria que se acumulava todos os dias sem fim. Era sobreviver ao teste de Anatomia ao virar da esquina.

Hoje o que me atormenta é o Futuro.

Já morei nalguns lugares. E penso sempre que um dia gostaria era de regressar à minha terra. Acontece é que só agora verdadeiramente estou a compreender que essa terra não é aquela terra palpável que julgava ser. Essa terra foi crescendo no interior da minha testa febril como a de uma criança que brinca ao sol sem boné. Desconfio cada vez mais que essa terra é na verdade Aquele Outro Tempo.

Um tempo que vive no rosto familiar de uma pessoa conhecida, com quem nos cruzamos na rua.
Essa terra é certamente Aquele Outro tempo.
Um tempo em que o Sol de Outubro também brilhava intensamente.
Mas era um tempo em que as preocupações eram outras, as preocupações d'Aquele Outro Tempo.

Saudoso,
Aquele Outro Tempo.